– Como? Quem?

Por mais que Hugo quisesse esquecer, que nunca tivesse revelado aquilo antes, era necessário:

– Três rapazes da vila, tentando "me endireitar". Anos atrás.

A única que sabia era Melina. A irmã sempre o tinha apoiado. Não só no aborto e na transição alguns meses depois, mas com o que confessou para Alexandra, com um prazer que sequer pensou em tentar disfarçar:

– Não deixei nenhum vivo pra contar.

Omitiu que havia sido logo depois da punição imposta a Luciana e Álex. Incentivados pelas palavras do reverendo, que repetiram durante todo o ato de pura e cruel violência, certos de que estavam seguindo "o caminho do bem". Informação desnecessária, que só serviria para lembrá-la do que, com certeza, ela preferia esquecer. Ao invés disso, afirmou:

– Ninguém nunca vai saber se você não contar.

***

Sofia se moveu de leve no sono, sem despertar. Arrepiou-se com a boca em seu pescoço que subiu pelo rosto e, depois, pousando nos lábios, os abriu, enfiando a língua. Deixou escapar um suspiro e correspondeu, de olhos fechados ainda. A respiração alterada, o corpo se moldando de forma integral ao que comprimiu o dela, encaixando-se por cima.

– Máira...

Deixou escapar, num inebriado suspiro.

Quando as carícias dela se tornaram mais ousadas e invasivas, completou com uma felicidade convicta:

– Eu estava... Te esperando... Desejei... Tanto... Por isso...

Completou num gemido:

– Meu amor...

E, subitamente, tudo mudou. As carícias se tornaram punitivas. Com uma das mãos, Máira a imobilizou, prendendo os braços dela acima da cabeça e, com a outra, puxou e empunhou uma adaga que brilhou. Antes de descer, de forma implacável, em direção ao coração de Sofia.

– Não!

O próprio grito a despertou para a realidade, que era estar na escuridão de seu antigo quarto na casa dos pais, sozinha e embebida no próprio suor. Coisa que se repetia, desde que Sofia tinha retornado para a Cidade Alta. Há exatamente três semanas que pareciam...

Infinitas.

Respirou profundamente, e só então reparou que, de forma absolutamente inconsciente, tinha as duas mãos protetoramente espalmadas sobre o ventre. Murmurou baixinho, para que somente o pequeno ser ainda em formação a ouvisse:

– Foi só um pesadelo, meu amor.

Respirou antes de completar, dessa vez muito mais para si mesma:

– Está tudo bem.

Fechou os olhos de novo, tentando afastar todas as dúvidas que tinha sobre a veracidade do que havia acabado de afirmar.

***

Máira demorou um tempo que não conseguiu calcular até ser capaz de manter os olhos abertos o suficiente para saber onde se encontrava. A primeira coisa que viu foi o teto da tenda. A primeira pessoa, foi Eveline:

– Você está sã e salva, aqui na tenda-hospital.

Aos poucos, a mente de Máira foi atingindo a velocidade normal:

– Desde quando... ? Há quanto tempo eu estou...?

A resposta a surpreendeu:

– Aqui, durante nove sonos e dez jornadas.

O suave tom do abismo - Transmissão - Livro 3Where stories live. Discover now