7 de Agosto - Do outro lado

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"7 de Agosto de 2017

Não decorreram sequer duas horas desde que saímos de casa e já estamos descansando, no pátio de uma casa qualquer. Foi um trajeto tão minúsculo, algo em torno de dois quilômetros, mas sinto como se tivesse atravessado um campo de batalha no meio da Segunda Guerra Mundial, com convites para a morte voando de todos os lados. E sequer alcançamos a pior parte.

Nessas circunstâncias, é incrível como Levi consegue manter o sangue frio. O filho da mãe está cochilando, estendido na varanda dessa casa desconhecida, como se fosse um passeio no parque. Enquanto isso, estou sentado na grama, com as costas apoiadas contra o muro, incapaz até mesmo de piscar, pois, do outro lado desses tijolos, talvez esteja minha morte. Mas estou me adiantando.

Saímos muito cedo pela manhã. O sol mal pintara de laranja a cidade, Levi e eu já nos encontrávamos na frente de casa, a mochila e revólver comigo, o martelo, jaqueta de couro e capacete com ele.

– Preparado? – perguntou, segurando o ferrolho.

Assenti e ele abriu o portão.

O corpo do monstro que eu matara continuava ali, caído numa poça de vermes. Cobri a boca e nariz devido ao cheiro pestilento e avançamos.

Assim que pisei sobre a calçada, foi como entrar em outra dimensão. Qualquer sensação de segurança que havia do lado de dentro dos meus portões, se dissipou totalmente lá fora. O perigo pareceu emanar de todos os cantos ao sufocar a atmosfera. Era quase palpável. Meu próprio corpo de repente parecia pesar mais. Apesar disso, não havia voltar atrás.

Olhando a todo momento para os lados, corremos até o carro estacionado sobre a calçada do vizinho, um Sedan vermelho, coberto por uma camada de sujeira que o tornava quase marrom. Se tivéssemos sorte, poderíamos usá-lo para percorrer pelo menos parte do caminho.

Não havia nenhum morto-vivo por perto, mas meu coração parecia prestes a rachar as costelas.

Levi deu a volta no carro, até a porta do motorista, e tentou abri-lo.

– Merda – ouvi-o dizer. Estava com a viseira do capacete erguida. – Trancado. Vê a outra porta.

Me apressei até a porta do carona, agarrei a maçaneta e puxei. Ela abriu.

Não preciso dizer que esse foi um erro estúpido.

No mesmo instante, um alarido proveniente do alarme explodiu em meus ouvidos. Llevantei a cabeça e encontrei os olhos esbugalhados de Levi do outro lado.

– Corre! – gritou, e avançou velozmente na direção da esquina.

Segui-o o melhor que pude. Mas o peso da mochila me atrasava e eu estava sem a jaqueta e cada vez mais suor e Levi cada vez mais longe e, Jesus, talvez ele fosse me deixar para trás!

Antes de fazer a curva para a outra rua, no entanto, ele parou e jogou as costas contra o muro. A caminhonete azul-escura jazia à sua frente, rente à calçada.

– O que foi? Por que parou? – perguntei aterrorizado ao me aproximar. Aquele alarme parecia ecoar por toda maldita cidade.

Levi sorriu. Suor descia pela sua testa.

– Tem três deles vindo pra cá.

– E o que a gente faz?!

– Calma. Vem. – Ele deslizou para a traseira da caminhonete.

Fui para junto dele e ficamos os dois ali, deitados, ouvidos atentos.

Quando as três criaturas passaram rosnando ao nosso lado, totalmente focadas no barulho do alarme, meu coração quase parou. Reparei que um deles era um garoto, uma criança de não mais de cinco anos. Estava sem os dois braços.

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now