12 - As Outras - Parte 4

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  Ruma sente o pulsar do coração na garganta. As emoções que lhe tomam a fazem transpirar enquanto ela desce aquele corredor. Ela sabe que caminha em direção à Hannah e que a tarefa de continuar a questioná-la lhe foi delegada. Lura foi se encontrar com Róru, que está ajudando os cidadãos Destruidores a edificarem muros de madeira e a partir de destroços úteis. Portanto, está nas mãos de Ruma tirar alguma informação importante da filha ressuscitada de Ruth. Os guardas cumprimentam a auxiliar de Lura com uma mão fechada no pulso da outra. Ela responde com o mesmo gesto e abre a porta de metal que transparece o seu perene envelhecimento. Hannah levanta a cabeça num instante e enche os olhos de surpresa contente. Ruma fecha a porta e caminha como quem quer procrastinar algum acontecimento sério e difícil. Ela se senta e deixa os olhos serem tomados pelas lágrimas que se acumulavam em sua garganta. Ela morde os lábios para manter o seu pranto quieto. Enxuga o rosto em um ato de força exorcizante, todavia, vã. O choro não pode ser impedido. Uma ferida é aberta, um rio nasce e a verdade vem em sinceridade arduosa.
- Você... Obrigada. Obrigada. - Ruma soluça de boca fechada e coloca  os cotovelos na mesa que separa as duas.
- Eu, eu... O que fiz?- Hannah espanta um receio e uma inquietação que crescem nela e arrisca o seu sorriso debochado para disfarçar o que lhe incomoda.
- Você me ressuscitou! - Ruma se empolga em um trânse de feitio religioso, abre os braços e depois coloca mão sobre mão no meio do seu peito.
- Eu... - Hannah sente um gosto amargo lhe subir à boca e meneia.
- Você é incrível. O seu poder deve ter vindo da sua mãe e temos estudado que meninas da segunda geração da Sete são ainda mais poderosas. - Ruma defende convicta, agora mais livre do choro.
- Sobre te ressuscitar... Droga. - Hannah gira os olhos.
- Eu também não sei como eu reagiria se eu visse um ex-defunto que eu ressuscitei vindo me agradecer pelo meu feito. - Ruma ri.
- Gata... De nada. Recebo os agradecimentos. - Hannah dá os ombros como alguém que não se importa muito.
- Como será que deve ser alguém com tanto poder assim? - Ruma se inclina para mais perto daquela jovem que lhe devolveu a vida. - Eu, se pudesse, faria tantas coisas. - Ela se joga no encosto da cadeira e meneia admirada. - E ainda nem sei se conseguiria perder o meu fascínio sobre mim mesma e o que eu sou capaz de fazer.
- Você conseguiria.
- As Sete ainda parecem estar admiradas e às vezes um pouquinho perdidas sobre o que podem fazer.
- Não a Martha - Hannah desafia a outra com o olhar e o tom de voz. - E nem as outras.
- Por quê? Aliás, essas outras... Você disse que elas estão vindo para cá. Para fazer o quê?
- Não é porque eu sou seu Jesus pessoal... Não precisa fingir que teve que estudar cultura terráquea para conhecer o cristianismo. Eu sei de onde você é, sei porque você tá aqui. Sei do seu pai.

O silêncio se impõe. Dor no olhar de Ruma.
- O que mais você sabe? - Ela mesma indaga em uma voz pesarosa com um misto paradoxal de cansaço e interesse.
- Eu sei que nada, mas nada mesmo, vai adiantar nada se a Lura continuar no caminho em que está. Você precisa ajudar as Sete a detê-la. - Ao ouvir isso, Ruma tensiona o corpo para frente.
- Ruma, as Sete vieram para fazer o que você diz... O que eu fiz. Ajudar as pessoas! Se forem motivadas a isso, facilmente seguirão esse caminho. Mas, a Lura quer simplesmente doutrinar essas mulheres como soldados contra o norte. E digo mais: ela sabe que com a influência dessas incríveis... Talvez não tão incríveis assim, se pensar na minha mãe... Enfim, apesar de tudo ela tem as suas habilidades e é extraordinária nesse quesito e como todas as que estão aqui, ela está sendo preparada para ser usada como liderança política, propaganda do poderio dos Destruidores, de Lura. Você não pode deixar isso acontecer! As Sete deveriam trazer a paz há tanto tempo buscada. Elas devem se tornar as governantes desse mundo e não meros instrumentos de proselitismo. Porque eu sei, eu sei o que Lura fará com todas elas depois que conseguir o que quer. Ela fará com que todos pensem que as Sete foram assassinadas pelos resistentes dos Vivificadores e assim, ela construirá o seu império sobre a lenda de mártires que nunca poderão se tornar mais populares que ela mesma e lhe tirarem o poder.
- Quanta coisa! - Ruma ri meneando. - Onde você ouviu tudo isso? - Uma cara de absurdo.
- Estou certa, não é? - Hannah e o seu sorrir com deboche.
- Se me pergunta, ainda duvida. - Ruma cruza os braços.
- De que lado você quer ficar nisso tudo? - Hannah se indigna com sombrancelhas arqueadas e olhar inquisitivo.
- Você foi doutrinada pelos Vivificadores. Aqueles que dizem ter ciência de nossos planos e até mesmo do que se passa na psiquê de Lura, só porque torturaram alguns dos nossos e, supostamente, eles lhe deram as respostas.
- Você foi morta pela Sonia transformada em lórksel e teve um acidente de avião causado pela Anne, que se encontrava possuída por algo ou alguém que viu que você tentava atrapalhá-las de me acharem. Algo maior e desconhecido está do meu lado, do lado do norte e das Sete.
- Esse algo fez Anne matar Dulan. Uma mulher importante do norte.

Hannah concorda com a cabeça.

- Sim. Eu não entendo tudo. Mas não quero acabar morta por entrar no caminho desse algo maior. Como Dulan que já não estava mais totalmente do lado das Sete. Nós sabíamos que ela acreditava que umas mereciam a honra de ser uma das Sete e outras não. Era seletivista. Queria se livrar do elo mais fraco.
- Nós? Sabíamos? Os Vivificadores sabiam? - Ruma interrompe enquanto afasta a cadeira com os pés.

Os olhos de Hannah se embraquecem por inteiro e discursa firme e autoritária em um corpo que balança para frente e para trás:

- Ruma, Ruma... Ou deveria te chamar de Ruby? Nós não somos os Vivificadores, nem os Destruidores. Nós guiamos Anne até as suas missões. O avião, Dulan. Nós também trouxemos as seis integrantes para o sul para que elas vençam Lura. Nós levantamos Hannah dos mortos e nós ergueremos quem mais quisermos para o propósito. Às vezes a morte seguida pela ressurreição serve para conversão. Temos ensinado Hannah e ela tem trabalhado na grande missão. Renda-se, Ruby. Renda-se, Ruma. Salvaremos o seu pai de seu mal assim como a ressuscitamos. Os dons são de Hannah, mas nós escolhemos e permitimos que ela lhe erguesse e foi quando tomada por nós que ela a salvou das futuras cinzas. Você não quer morrer de novo, quer?

Ruma cai de joelhos ao passo que uma luz branca começa, pouco a pouco, a emanar de Hannah.

- Por favor, me deixe viver... - As lágrimas de medo banham as bochechas de Ruma.
- Entregue-se ao serviço e terá paz e prosperidade. Insurja-se contra Lura. Damos a você, o poder de liderança. Tudo o que ela e o lado dela lhe prometeu é bem menor do que lhe traremos.

Em uma visão, Ruma é levada a assistir a si mesma ensanguentada, caída na relva. Hannah surge nua, com os olhos embranquecidos. Agacha-se, toca o seu pescoço com gentileza. Ela se lembra de como foi perceber o retorno de seu próprio fôlego.

- Ruma, Ruma... Sempre querendo provar o seu valor e ser a heroína de seu pai, a melhor auxiliar de sua líder para que assim consiga ser recompensada com o tratamento e o perdão do governo para o seu progenitor, o senhor Hill. Chega de querer. Mas para tal, precisamos que se renda. Renda-se e seja. Seja. Viva. Resista e nos devolverá o seu fôlego.

Ruma ergue o olhar e contempla Hannah ainda sob o controle de quem quer que seja. Ainda que perturbada, olha no fundo daqueles olhos brancos.

- Eu não sei. - Ruma confessa com medo ao abaixar a cabeça e chora. - Quem vocês são?
- Você saberá. Renda-se e verá.

  Num piscar de olhos, Ruma está de pé, novamente,  próxima à porta fechada, com a mão na maçaneta. Hannah está sentada de cabeça baixa. A auxiliar de Lura sente que não se lembra de algo. Percebe um ligeiro buraco na consciência. O famoso branco. Decide seguir em frente, um sentimento a impele para fora dali.  Retira-se dali e Hannah se entrega ao choro mais quieto que pode existir. Som nenhum e só o rosto aquecido como testemunha.

Alguns disparos do lado de fora depois de uma voz masculina comentar que havia se passado um pouco mais de uma hora desde que a auxiliar da líder dos Destruidores tinha entrado ali. Guardas com fumaça subindo de suas roupas assim como suas almas. Ruma tem a arma na mão. Ela a segura, sobe aquele corredor em direção à alguma ideia fixa e repete uma prece:
- Faça-os viver.

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now