Capítulo IV

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Escaravelho 

          E eu sou a cria bastarda da eternidade rasgando com unhas podres o útero do tempo;

          Sou o tronco apodrecido nas entranhas do pântano fitando a morte através de olhos cegos;

          Sou as lágrimas de todos os copos de uísque escorrendo em mãos frias e indolentes;

          Sou o bosque esquecido o qual o sol teme explorar;

          Sou o teatro diabólico no qual as putas dançam em vestidos de cetim;

          Sou o calabouço sórdido no qual os demônios violam suas virgens;

          Sou o solitário sol refletido nas ondulações do oceano;

          Sou a terra revolvida pelos cascos de loucos cavalos prateados;

          Sou o homem com o coração ainda batendo entre as paredes negras do inferno;

          Sou o iluminado deus pérfido salpicando-lhes de tragédia;

          Eu sou o Caos Andarilho das Estrelas.

- Origem Desconhecida.

*

          A consciência lhe voltou aos poucos, como um veleiro envolto em brumas, deslizando sobre a água, aproximando-se do cais, até que, bruscamente, acaba subindo em terra sem perceber.

          — Vamos, acorde, rapaz. — Uma voz ríspida e autoritária ecoou nos ouvidos de Amber. Por alguma razão, ela lhe parecia estranhamente familiar.

          Ele gemeu e tentou se mover. Subitamente sentiu algo como mil pregos enferrujados abrindo caminho através de seu cérebro. Agarrou os cabelos, rangeu os dentes, fez o que pôde para prender o grito medonho em sua garganta.

          — Qual é o problema? — A mesma voz de antes perguntou.

          Através de olhos semicerrados, a realidade se assemelhava a uma gravura bidimensional boiando em águas turvas. Sentia-se terrivelmente exaurido. Sua mente estava reduzida a frangalhos retorcidos, incapaz de cristalizar qualquer pensamento. Não tinha ideia de quanto tempo havia se passado. Tinha a vaga e aterrorizante sensação de ter permanecido em coma durante anos. Mas aquilo não podia ser verdade, pois Donnie, que agora Amber, num último lapso de lucidez, identificou vindo em sua direção, parecia saudável e energético como nunca, sem indício algum de fadiga física ou mental, apenas preocupação estampada no rosto.

         Ele se aproximou, dirigindo-se ao Avaliador que encarava um Amber semi-inconsciente:

         — A Avaliação sempre deixa ele desse jeito — explicou Donnie, sorrindo com um ar totalmente convincente. — Não precisa se preocupar não, um pouco de ar fresco e ele reanima rapidinho. — Então enfiou o braço de Amber sobre o ombro, alçou-o até ficar de pé e arrastou-o, sob o olhar incisivo do Avaliador, para fora da sala.

          Na pequena praça em frente à escola, Donnie deixou Amber sentar-se num dos bancos de pedra e ficou à sua frente, olhando em seus olhos. Sua expressão era de medo e culpa. Ingerir Min-D foi ideia dele, e se algo tivesse acontecido a Amber, ele jamais se perdoaria.

          Amber, agora parcialmente recuperado e consciente, ofegava com os cotovelos apoiados nos joelhos, segurando o rosto em agonia. O torpor não se desvanecera totalmente de sua mente, de modo que ele se via num mundo obscuro, com os estímulos chegando fracamente até ele. Seus olhos jaziam fechados, pois, por algum motivo, qualquer vislumbre de luminosidade se transformava em lâminas dilacerando sua cabeça. Além da agonia e do torpor, juntava-se ao seu coquetel caótico de sensações uma inquietante desorientação. Ele não tinha ideia de onde estava ou por que. Suas memórias eram fragmentos dispersos e incongruentes que não se alinhavam ante seus esforços. Ele agarrou os cabelos, sentindo-se preso num labirinto infernal de confusão mental. Saltou para trás de repente, quase abrindo os olhos para a luz cegante, quando algo agarrou seus ombros. Então uma voz familiar se insinuou em seus ouvidos, abrindo caminho através da bagunça de seus pensamentos:

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