5 de Agosto - Tempestade

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"5 de Agosto de 2017

Terei eu imaginado tudo aquilo?, eu me perguntava ontem à noite, logo após a última postagem. Um delírio gerado pela minha instabilidade mental? Não. As sardinhas enlatadas e a água que trouxe estão aqui, o que significa que pelo menos parte do que aconteceu foi, definitivamente, real. Só preciso voltar lá e averiguar o resto. Sim. Preciso.

Depois de aplacar a fome e sede, segui os degraus para o primeiro andar e cruzei a casa até a porta da cozinha. Estava prestes a sair quando ouvi um barulho, diferente da chuva tamborilando no telhado. Dentro de casa. Vinha da parte da frente.

Diante disso, subitamente percebi que estava sem meus equipamentos e armas. Continuavam sobre a cama, onde os deixei. Havia algo de errado comigo, droga. Fiquei em silêncio, esperando confirmar que o barulho tinha sido coisa da minha cabeça. Mas não era. Escutei de novo.
Como algo pesado caindo no chão. Como o som do corpo do velho tombando no piso depois de eu abrir sua cabeça.

Parei no umbral da cozinha para a sala.

Havia uma pessoa ali. Ela era uma mancha escura estendida sobre o sofá. Só conseguia vê-la direito quando um relâmpago rasgava a noite e afastava brevemente as sombras. Da posição em que eu estava, não podia ver seu rosto, somente seus cabelos, muito negros. Então, de repente, outro clarão inundou a casa, um trovão rugiu, e a figura estava sentada, me observando.

Seus olhos de um azul fantasmagórico estavam cravados em mim.

– Ei, parceiro – disse ele, sorrindo.

Era um rapaz.Tinha um rosto intenso, de sobrancelhas fortes. Devia ter a minha idade.

– Você... – Olhei para a porta. Estava trancada e bloqueada, como eu havia deixado. Então mirei o revólver, sobre a mesinha encostada nela. – Como entrou aqui?

– Ah, bem, isso foi culpa sua. Deixou aberturas demais. – Ele se espreguiçou. Reparei que usava minha jaqueta de couro. – Mas, tenho que dizer, você parece em maus lençóis.

– Como? – falei, me aproximando da arma.

– Bem, pra começo de conversa, você está com uma ar famélico, como um vira-latas de rua. Essa barba estranha e desconjuntada espalhada pelo seu rosto também não ajuda, se quer a minha opinião. Sem mencionar seu cheiro... Será que os podres devoraram todo o sabão dessa casa? – Ele riu.

Ao chegar ao lado da mesinha, rapidamente peguei o revólver e apontei para o rapaz.

– Ei – disse ele – , isso é jeito de tratar os convidados? – Sorriu na escuridão.

– Não é meu convidado – falei, engatilhando e roçando o dedo no gatilho. Minhas mãos tremiam.

Outro lampejo invadiu a sala, e a luz prateada fotografou a expressão fria e sombria do rapaz. Seus olhos esbugalhados pareciam investigar cada centímetro da minha alma.

– Largue logo isso – falou, num tom cortante. – Sabe que não tem coragem de puxar o gatilho até o final.

Ele estava certo. E, afinal, o que ele poderia me tirar? Baixei a arma e a abandonei de volta sobre a mesinha.

– Quem é você? – perguntei então.

– Pode me chamar de Levi.

– Levi. E o que quer aqui?

Ele deixou-se cair no sofá.

– Por acaso viu a chuva lá fora, parceiro? Cada pingo é como um maldito disparo de metralhadora. É bem provável que pela manhã, todos os podres já estejam mortos, fuzilados pela mãe natureza. – Deu uma risadinha. – Apesar que eles não sentem nada, então talvez o alvo dela seja, na verdade, a gente. Enfim, sei lá o que estou falando. Está sozinho aqui?

– Ah... Sim.

– E o que houve com as pessoas dos quadros das paredes? – perguntou, fazendo um gesto que abrangia a sala.

Meu olhar recaiu em um dos retratos, no qual meus pais me levantavam pelas mãos enquanto eu, com 7 anos, agitava as pernas no ar, sorrindo.

Mordi o lábio inferior.

– Mortos, eu acho...

– Acha? Não tratou de averiguar?

– E como eu faria isso?

– E namorada? Reparei no seu anel.

Raquel. Eu vinha mantendo-a afastada de meus pensamentos. Não conseguia mais suportar a sensação esmagadora de impotência quando pensava no que poderia ter-lhe acontecido.

– Sim... – Baixei a cabeça, encarando o dedo no qual nosso anel de namoro se encontra. – Ela era a melhor coisa na minha vida.

– Era? O que houve com ela?

– Eu... não sei. Não sei! Como quer que eu saiba dessas coisas?

Ele soltou um longo suspiro.

– Então, resumindo, você inventou um monte de desculpas pra poder se esconder aqui, como um rato, sem considerar que talvez ela estivesse te esperando, acreditando que você a buscaria, acreditando que você estaria ao lado dela no pior momento de suas vidas, é isso? Parceiro, isso é desprezível.

O ódio e a vergonha me fizeram cerrar os dentes.

– O que... O que você sabe pra me falar isso!?– gritei. – Como eu enfrentaria todas essas coisas lá fora? De que adiantaria eu morrer antes de chegar lá?

Ele pôs-se de pé e veio em minha direção.

– Simples, você não deveria morrer. – Passo após passo, ele se aproximava, atravessando-me com seu olhar. – Deveria fazer tudo o que fosse necessário pra se manter vivo, até encontrá-la. Só isso. Se realmente a amasse, é o que teria feito. Mas você não fez, não é? Permaneceu aqui, alimentando sua alma mesquinha com desculpas e ardis egoístas enquanto caía cada vez mais fundo em suas manobras autodestrutivas.

– Levi parou em minha frente, poucos centímetros separando seu rosto do meu. Podia sentir a fúria borbulhando em seu interior. – Vergonhoso, de fato. Você odeia a si mesmo, não é, parceiro?

– Eu... – gaguejei. – O que você... Não...

As lágrimas rolaram gordas pelas minhas bochechas e gotejaram no casaco. A dor que eu havia ocultado numa gruta do coração agora sangrava no peito, corroendo-me como ácido.

– Mas talvez não seja tarde demais – falou, dando-me as costas.

Um trovão reverberou através da casa e os vidros das janelas vibraram. Olhei para Levi. Estava sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos, fitando-me.

– Digo, para salvá-la e compensar tudo isso.

– Acha que ela... ainda está viva?

– Sinceramente, não sei – disse. – Mas não é melhor ir até lá e descobrir, ao invés de passar o resto de seus dias se lamuriando e inventando desculpas que o façam estender por mais algumas semanas essa existência miserável? Já não há muito pelo que lutar nesse mundo, não deixe que eles tomem seu coração também. Deixe pra trás tudo o que aconteceu até agora. O passado não importa mais. Olhe pra frente, pra Raquel. Nós dois, juntos, vamos encontrá-la. Nem que seja a última coisa que façamos... Acredite em mim, parceiro. – Ele estendeu-me a mão.
Apertei-a, concordando lentamente com cabeça enquanto, como uma rosa desabrochando na escuridão, eu sentia renascer no peito a esperança e o desejo de sobreviver.

Naquela noite, ele dormiu no sofá. Na manhã seguinte, discutimos sobre o que fazer. Eu e Levi decidimos aguardar um ou dois dias, até eu recuperar as forças, para então partirmos para a casa da Raquel. Ela fica cerca de uma hora de carro daqui, o que significa que não será um passeio no parque, muito pelo contrário.

Estamos planejando encontrar um carro e seguir pelas ruas secundárias, tendo em vista os terríveis acidentes espalhados pelas vias principais. Assim, aos poucos, nosso plano vai exibindo seus contornos. Creio que, em pouco tempo, estaremos prontos para dar o fora daqui. Levarei comigo este caderno e continuarei anotando tudo o que acontecer. Não sei quando foi, mas, a partir de algum momento, o hábito de escrever aqui se tornou parte essencial de meus dias. Tornou-se, de fato, uma necessidade.

Não sei se isso é bom ou não."

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now