4 de Agosto - Desordem interna

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"4 de Agosto de 2017

Voltei, estou vivo, o que quer que isso signifique... Enfim, eis o que aconteceu:

Após chegar ao primeiro andar, resolvi ligar a televisão. Uma pequena parte de mim nutria a esperança de que tudo havia acabado, e quando a tevê ligasse, todos os canais estariam exibindo as imagens de bravos soldados eliminando todos os monstros e se preparando para resgatar os sobreviventes. Com esse delírio na cabeça, apertei o botão.

Era tudo o que televisão emitia. Um chiado. Soltei uma risada amarga. Então desliguei-a e me preparei para sair.

A jaqueta parecia um pouco mais folgada desde a primeira vez que a colocara. Devia estar emagrecendo. Ótimo, menos carne pros malditos. Limpei o sangue de Joana da viseira do capacete e o enfiei na cabeça. Então peguei o revólver e o martelo e sai.

A grama do pátio estava alta e muito verde, afogando o caminho de cascalho até o portão. No céu, nuvens escuras como carvão queimado aglomeravam-se sobre a cidade, ameaçadoras. Ocasionalmente, um relâmpago silencioso iluminava o horizonte com um flash. Um vento gelado serpenteava pelas casas e agitava ferozmente a árvore do vizinho ao lado, suas folhas roçando umas nas outras com um som perturbador naquele silêncio. Levantei a gola da jaqueta e dei a volta na casa.

O muro de trás, que nos separava do vizinho, era de tijolos nus e descascados, prestes a desabarem. Tinha a minha altura. Cogitei saltá-lo, mas o mais provável é que ele desabasse comigo em cima. Afinal, reuni alguma força e chutei-o no ponto mais vulnerável. No mesmo instante fui tomado pela tontura, mas não desisti, e após duas tentativas, ele começou a ceder. Corri para trás e o observei oscilando até tombar para os fundos do vizinho. Os tijolos quebrados espalharam-se pelo mato com um som oco e eu pulei por cima deles, seguindo adiante.
Não havia muita coisa ali. Num canto, um pequeno galpão de madeira apodrecida; no outro, resquícios de uma horta abandonada, repleta de ervas daninha.

Segurando o revólver, atravessei a horta esmagando debaixo dos pés restos de repolhos podres, até chegar à porta dos fundos da casa. Ela tinha só um andar, pintado de um verde-oliva desbotado pelo tempo, e no conjunto era bem simples.

Ao segurar a maçaneta, subitamente, me veio na cabeça a imagem do velho, a careca enrugada e vermelha,o nariz torto como um galho de árvore, e o imaginei transformado numa dessas coisas, lá dentro, me esperando. Suor frio delineou a curva de minhas costas. Contudo, a porta estava trancada. E isso me irritou. Me irritou tanto que cerrei os dentes e bati com força na porta usando o cabo da arma.

– Abre isso, desgraçado! – berrei, descontrolado, enquanto uma garoa começava a cair do céu.

Então reparei na janela ao lado. Num relance, vi as cortinas brancas se movendo e escutei passos lá dentro.

Então o desgraçado estava lá dentro! O velho iria ver. Ele iria pagar por isso.

Imediatamente puxei o martelo do cinto e acertei a janela. O vidro explodiu em mil pedaços para dentro e o vento soprou, fazendo as cortinas se agitarem para fora como cobras pálidas no ar. Meti a mão entre os cacos e levantei o trinco. Sem sequer investigar, mergulhei dentro daquela boca negra.

O lugar estava escuro como um poço. A poeira era tão densa que, num surto de tosse, fui forçado a abrir a porta e deixar o vento circular. Um pouco de luz então entrou e pude distinguir os móveis ao meu redor. Geladeira, fogão, microondas e armários estavam reunidos pelas paredes.

Como um possesso, fui de porta em porta, abrindo-as, à procura de comida, à procura de qualquer coisa.
Mas não encontrei sequer um grão de arroz. Nada além de teias de aranha e as próprias aranhas, gordas e satisfeitas.

– Não, não, não, não, não.

A garoa lá fora transformara-se numa chuva furiosa, martelando o telhado acompanhada de terríveis trovões que faziam vibrar a casa inteira. Desesperado, corri até a geladeira. Puxei a porta. Vazia, a não ser por uma caixa de leite aberta. Lambendo os lábios, agarrei-a e apertei-a até o leite encher minha boca. De súbito, a caixa escapou de meus dedos enquanto eu caía de quatro, vomitando. Estava coalhado, azedo e fedorento.

Concentrado nisso, só o ouvi tarde demais.

O velho emergiu das sombras, pálido e raivoso em seu pijama cinzento, e atirou-se direto na minha direção. Só tive tempo de me jogar para trás, batendo com as costas na geladeira e me protegendo com a mão. Ele mordeu-a, apertando com uma força descomunal os maxilares até rasgar a carne da palma. Gritei dentro do capacete. Com lágrimas nos olhos, tateei o chão usando a mão livre, até meus dedos roçarem no metal frio do revólver. Tremendo, engatilhei-o, apontei o cano prateado entre os olhos repletos de veias vermelhas dele e puxei o gatilho.

Bang.

Mais alto do que um trovão, o som ecoou em meus ouvidos e pela casa, ensurdecedor. A cabeça do velho rebentou para trás numa constelação de ossos e miolos e ele desabou no piso, de costas, os lábios retorcidos numa careta de medo e os olhos abertos fitando o teto.

Meu coração parecia prestes a atravessar o peito. Levantei devagar, me apoiando na geladeira, apertando a mão ferida. Ela latejava com uma dor surda. Não tinha coragem de olhá-la. Sabia que era meu fim, mas não podia confrontá-lo. Avancei cambaleante pela casa, a mente parcialmente ausente, investigando. Aquilo já não fazia sentido. Eu morreria pela infecção muito antes de perecer pela fome. Mesmo assim, joguei numa sacola uma dúzia de latas de sardinha em conserva e algumas garrafas de água que encontrei debaixo da cama do velho.

Ainda verifiquei se havia alguma abertura no portão da frente da casa, mas tudo estava seguramente trancado, inclusive a porta de entrada. Então, sentindo a placa de ferro apertando meu cérebro, retornei para meu lar sob a chuva torrencial, com um pano enrolado no ferimento.

Larguei os mantimentos sobre o balcão e cambaleei até o sofá, onde estava este caderno. Agarrei-o e comecei a escrever isso. E foi isso. É o fim. Não sei quanto tempo me resta, mas, é o fim. Minha concentração está fraquejando. Não consigo sequer focar direito as linhas nas quais escrevo. Não faço ideia de há quanto tempo estou aqui, escrevendo isso. Provavelmente horas. Tanto faz. Não consigo sentir tristeza nenhuma, nem dor ou alívio. Não sinto nada. Talvez já esteja morto. Talvez já esteja transformado numa daquelas coisas, vagando por aí, e tudo isso esteja apenas na minha mente, no que se mantém da minha consciência. Estou desvairando.

Não. Isso é real. Não fuja disso também.

Vou retirar o pano de cima da mordida e dar uma olhada. Decidi que, pelo menos antes do fim, terei coragem para encarar meus próprios erros, e quem sabe assim, encontrar alguma paz de espírito que me fortaleça o bastante para fazer o que preciso para acabar com isso.

Com os dedos tremendo, segurei o pano encharcado de sangue e afastei-o da mão.

Por um segundo, o mundo inteiro saiu de foco e uma vertigem agitou o mundo a minha volta. No instante seguinte, abaixei os olhos para minha mão e fitei o ferimento.

Mas não havia nada.

Nenhuma mordida

Nenhum arranhão.

Nada. Nem o menor indício de um ferimento.

Não entendo o que está acontecendo. O que isso significa. Eu vi, eu vi ele me mordendo, eu senti a dor, o calor pulsante do sangue... Eu juro! E no entanto, e no entanto... Eu tenho certeza! Ele me mordeu... Ele me... mordeu...?"

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now