Conto: Espectro

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"Começa com um barulho, eles dizem. Às vezes suave, como um farfalhar de asas. O único ponto em comum é que se assemelha a sons habituais aos nossos ouvidos humanos. Um leve raspar nas paredes na calada da noite. Passos ecoando mais alto, à medida que se aproximam. Apenas para abrir os olhos e ver que não há nada lá.

Embora alguns relatem ver algo semelhante à uma figura humana. Tremeluzindo contra a claridade. Não totalmente físico. 'Brilha como a luz do sol'. Já outros dizem não ver brilho nenhum. Apenas escuridão. Uma forma corcunda. Deformada. Observando ao pé da cama. Sem rosto. Sem luz. Sem nada a não ser um vazio carregado de terror. Enquanto, outros, bem outros não vêm nada, apenas sentem e escutam.

Um suspiro, um sussurro, que poderia ser dado por qualquer humano ao nosso lado. Exceto que geralmente - para não dizer sempre - acontece quando estamos sozinhos. Quando não há nada além de nossa própria companhia. Mas ele faz parecer familiar, os outros dizem, para não assustar logo de cara. Para achar uma brecha e se aproximar. Sempre através de sons primeiro. Depois vem a sensação. O peso. Os olhos invisíveis. O ar denso, carregado. Como se algo espreitasse das sombras, mesmo em plena luz do dia.

- Ele vai brincar com a sua mente. O espectro. A criatura que vive nas paredes. O monstro dos sonhos. O rei dos pesadelos. Ele pode assumir a forma daquilo que mais ama, daquilo que mais odeia ou daquilo que mais teme. Ele se alimenta do mal, do terror, mas encontra brechas no meio do bem. Porque o amor, ah, o amor pode ser tão cruel quanto o pior pesadelo. Há trevas, mesmo na luz. Inclusive, disfarçadas de luz. Ele saberá usar isso, criança."

"Histórias", repeti a mim mesma, quando acordei novamente suada no meio da noite. "Apenas lendas para aterrorizar crianças". Tentei me tranquilizar com a imagem da minha bisa que veio me visitar em sonho noite passada. A figura magra, de pele enrugada e cabelos brancos. Observando-me de sua cadeira de balanço, como fazia tantas vezes de forma protetora quando ainda estava viva.

"Tenha medo dos vivos, não dos mortos" É o que meu primo sempre dizia, nas vezes em que relatava sonhar com entes queridos que já se foram. Passei a interpretar sua presença como uma benção. Como se zelassem por mim, mesmo enquanto dormia.

Deitei-me novamente e fechei os olhos, até chegar àquele limiar entre o desperto e o adormecido. Pensei ter ouvido um barulho vir do meu lado, de dentro da parede. Podia ser tanto água passando pelos canos quanto algum animal pequeno arranhando. Amanhã verificaria.

Dessa vez o sonho se passava em um quarto enfileirado de camas. Pessoas gritavam ao redor. Um buraco se abriu na parede e minha bisa saiu de lá. Deixei que se aproximasse. Um sorriso maligno brotou de seu rosto quando ela me puxou pelos pés, arrastando-me pelo chão. A voz ecoou como um trovão: "Você é minha". Então, a forma mudou para algo tão escuro quanto a noite. Pequenos feixes de luz saíam de algumas partes de seu corpo deformado. Asas longas e negras estendiam-se até roubar toda a luz.

Acordei novamente. Apenas para sentir as cobertas sendo puxadas suavemente. Tentei me mexer, mas um formigamento passou a tomar conta de minhas pernas, subindo lentamente, me imobilizando. Um peso instalou-se em meu peito. Enxergava todo o quarto ao redor. A luz que entrava das janelas. Sabia que estava desperta. Mas meu corpo não mais me pertencia. Nenhum músculo se movia à minha ordem. Tentei gritar, mas saiu apenas um grunhido baixo. O formigamento chegara até a língua. O barulho que escutei antes de cair no sono se intensificou. Pareciam garras, mas não mais vinham das paredes. Agora, estava por todo canto acompanhado do odor metálico misturado ao de cinzas. Uma pena pousou sobre meu ombro. Sombras dançavam nas paredes.

"Mas ele é desse mundo? O ser das paredes? Ou é alguém que já morreu? " Eu perguntava quando criança.

"Ele é tudo e ao mesmo tempo nada. Ele é físico e imaterial. Pode se dissolver em sombras ou em luz. Conforme desejar. Conforme achar necessário para aprisionar sua mente e te devorar, de dentro para fora" Era tudo o que meu primo costumava dizer.

"Mas tem um nome? " Eu insistia

"Nomeá-lo é dar uma forma à coisa que assume a forma que quiser. Digamos apenas que ele é quando termina um pesadelo e começa outro"

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