Parte 2

9K 898 95

Parte II

O dia passou voando. Fiquei ocupado o tempo inteiro atendendo clientes, vacinando, tosando cães e ouvindo o tititi de pessoas chatas que não sabiam de nada, nem mesmo cuidar de um cachorro. Carmen soube realmente atrapalhar o meu dia. Aquelas suas palavras, que ficaram soltas no ar, soavam em meus ouvidos e chocavam-se com meu cérebro causando uma verdadeira balburdia na mente. A descoberta do seu nome estava sendo o principal motivo da minha inquietação. Saber que a personagem principal dos meus sonhos e devaneios, agora se chamava Anne deixava meu corpo em um real estado de torpor e agitação contínua.

Carmen veio buscar seu cachorro no final da tarde, Raul a atendeu, pois eu estava ocupado vacinado um cão, por isso me livrei de mais questionamentos sobre minha vida amorosa, que ultimamente estava completamente esquecida. De agora em diante, eu deviria ter mais cuidado, ou então acabaria revelando essa paixão platônica para pessoas que jamais deveriam sonhar com isso. Assim que fiquei sozinho com Raul, ele questionou-me:

– Você devia seguir o conselho da Carmen. Não sei porque você está tão receoso com isso.

Olhei para ele, mas não disse nada. Não queria falar sobre aquele assunto com mais ninguém, estava começando a pensar que seria melhor esquecer isso, ao invés de alimentar esperanças.

Assim que o horário de Raul acabou, ele ajeitou suas coisas e foi embora, deixando-me sozinho. Fui até o balcão e comecei a contabilizar o caixa, era uma coisa que eu mesmo gostava de fazer, organizar cédulas e moedas por tamanho e valor, era uma terapia. Quando os ponteiros do relógio marcaram dezoito horas, decidi fechar a loja. Estava cansado demais, e necessitava urgentemente de um bom banho e uma cama fofa. Mas ao me aproximar da porta, olhei instintivamente para o outro lado da rua avistando-a. Senti o sangue correr com mais velocidade nas veias. Percebi que ela tentava fechar a porta da sua loja, mas não estava conseguindo. Ela abria e puxava diversas vezes tentando fechá-la, mas era em vão. Sai para a calçada e olhei para os dois lados da rua, não havia ninguém que pudesse ajudá-la. Passei a mão no rosto, tentando aliviar a tensão que estava em meu corpo, ao receber mensagens estúpidas do cérebro pedindo que eu tomasse uma iniciativa. Então ignorei a razão e fui em direção a sua loja. 

Quando me aproximei, percebi que ela estava encostada ao lado da porta, segurando as chaves na mão, num completo ato de derrota. Assim que ela me viu, colocou uma mecha do seu cabelo para trás da orelha e endireitou o corpo. Olhei em direção a porta e fiz a pergunta estúpida que não devia ser feita.

– Problemas com a fechadura?

Ela olhou para a porta, antes de responder.

– Sim. Não estou conseguindo fechá-la. Acho que o problema seja na porta mesmo, ela está meio torta.

– Posso tentar fechá-la? – perguntei.

– Agradeceria bastante se você fizesse isso – falou sorrindo estendendo a chave para mim. Dei alguns passos na sua direção, e segurei-a. Ao me aproximar dela foi impossível não ficar desorientado ao perceber os belos traços em seu rosto. Seus olhos castanhos como café, eram profundos como um poço. Respirei fundo e desviei o olhar, indo em direção à porta, logo a minha frente. Coloquei a chave na fechadura e puxei a porta para fechá-la, mas não consegui. Olhei para cima e notei uma pequena inclinação, realmente estava torta. Segurei o trinco com força e levantei arrastando-a para fechá-la. Olhei para ela parada ao meu lado, e pedi:

– Tente fechá-la agora. Vou ficar levantando a porta enquanto você faz isso.

Foi uma das ideias mais estúpidas que já tive. Assim que ela se aproximou de mim, pude sentir o perfume do seu cabelo. Os brilhosos fios cor de bronze caíram sobre os nós dos meus dedos, causando uma inundação de pensamentos em minha mente. Sua aproximação foi tão grande, que comecei a sentir uma embriaguez com seu cheiro. Seu braço tocou levemente no meu, e as suas mãos passaram rapidamente por cima dos meus dedos. Tudo isso aconteceu rápido demais, mas foi o suficiente para causar uma tempestade dentro de mim. Assim que a porta foi fechada completamente, soltei o trinco. Ela se afastou deixando um espaço agradável entre nós dois. Quando abri minha boca para falar, ela me interrompeu:

– Muito obrigada. Se não fosse você, eu iria dormir aqui dentro da loja.

Engoli a saliva antes de falar.

– Por nada, fico grato por ter ajudado. A porta é muito pesada para você levantar – e deixei escapar um sorriso no canto da boca. Olhei para o final da rua antes de completar – Tem que pedir a alguém para ajeitá-la.

– Realmente. Tenho que providenciar isso urgentemente.

Suas palavras me fizeram lembrar de um cartão que eu tinha dentro da carteira. Meti a mão dentro do bolso e peguei a carteira abrindo-a no mesmo instante. Puxei-o assim que o encontrei. Ela estava com os braços cruzados observando a porta. Seu rosto de perfil era ainda mais lindo. Seus lábios tinham traços extremamente belos. Seus cílios realçavam ainda mais a beleza dos seus olhos. Então percebi que estava fazendo tudo errado, baixei o braço metendo o cartão dentro do bolso. Acabei atraindo sua atenção.

– Eu posso ligar para um amigo meu, ele trabalha muito bem com isso.

– Não precisa gastar seu tempo, eu posso ligar.

– Não se preocupe. Falarei com ele e tento conseguir um desconto.

Consegui arrancar um belo sorriso dela. Ela olhou para o relógio em seu pulso e falou:

– Mais uma vez muito obrigada. Como se chama?

– Victor. Trabalho no pet shop aqui na frente.

Ela olhou na direção da minha loja e sorriu.

– Ok, prazer em lhe conhecer, meu nome é Anne. Tenho que ir, já está ficando tarde, até mais! – falou estendendo a mão para mim.

Após se despedir foi em direção ao final da rua. Senti um impulso me tomar e uma vontade louca de chamar por ela oferecendo uma carona até sua casa, mas me contive virando as costas e caminhando em direção a minha loja. Após verificar se tudo estava trancado, fui até onde deixei meu carro, abri a porta e entrei dando partida logo em seguida. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi tomar um banho. Em seguida comi o resto de uma pizza que acabei encontrando na geladeira e fui para o quarto dormir, ou melhor, me deitar e imaginar seu corpo deitado ao lado do meu.

PS: Não esqueça de deixar seu comentário logo abaixo e seu voto na estrela acima no lado direito. Ficarei muito feliz em saber a opinião de vocês! Continue a história no próximo capítulo. 

Confia em Mim?Leia esta história GRATUITAMENTE!