Capítulo 1 (atualizado)

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Sexta- feira - 09 de março de 2017

Bip! Bip! Bip! Bip!
—Desligar alarme!
—Bom dia, senhorita Aléxia! Hoje está um lindo dia! — a voz feminina do comando de voz soa estridente. — Nesta sexta-feira teremos um dia predominantemente ensolarado no Rio de Janeiro, com máxima prevista para trinta e cinco e mínima para vinte e nove graus!
—Obrigada, Sophie — agradeço, esfregando os olhos ainda sonolentos. — Abrir cortinas, ligar som, encher a banheira — ordeno, levantando-me do emaranhado de edredons e travesseiros brancos, sendo banhada pelo sol da manhã que entrava pela janela.
Então, começo minha rotina matinal: relaxo na água por alguns minutos ao som de músicas clássicas, faço minhas higienes, uma maquiagem leve, jóias sutis e solto meu cabelo ruivo, apreciando seu caimento perfeito e macio à altura dos ombros. 
—Abrir closet de trabalho.
A porta imediatamente desliza para o lado num movimento automático, revelando um espaço amplo e apinhado de roupas, todas impecavelmente organizadas.
Escolho, entre as dezenas de peças iguais, uma camisa branca, calça social e salto preto. Depois de vestida, olho-me uma última vez no espelho, admirando a mulher à minha frente.
—É só mais um dia qualquer, você vai conseguir. — Sorrio internamente enquanto aprecio minha expressão profissional.
Sem demora, alcanço minha bolsa, e o relógio de pulso marca 8:57 da manhã: exatamente o mesmo horário em que passo pela porta de saída do meu quarto todos os dias. Sou uma pessoa pontual e cheia de rotinas, nada para mim deve ser no improviso. E cada decisão é pensada antes de ser executada.
Desço a escada para o primeiro andar e encontro Lígia, minha melhor amiga, deitada no meu sofá cama na sala de estar, juntamente com um homem que não reconheço.
Paro por alguns segundos para pensar nos prós e contras de acordá-la e pedir informações do motivo de estar dormindo na minha casa com um estranho, mas resolvo ignorar, pois tomaria muito do meu tempo. E, conhecendo Lígia, seria explicações bizarras que não estou disposta a escutar nesse horário sem um café.
Já na cozinha, encontro minha governanta com a mesa repleta do café da manhã. Com o passar dos anos, ela se tornou como uma mãe para mim. Joana é uma mulher baixinha, próximo dos seus quarenta anos, cabelos loiro escuros, um pouco acima do peso e sorriso encantador. 
—Bom dia, meu girassol! — ela me cumprimenta sorridente, dando-me um beijo no rosto; seu pé fica todo esticado para conseguir me alcançar.
—Bom dia, Jo — respondo com um sorriso quase invisível, pegando da enorme mesa apenas meu copo descartável de café.
—Se eu não te conhecesse, te odiaria por não me dar um bom dia adequado — diz ela, com uma falsa raiva.
—Eu deveria perguntar por que Lígia está na minha sala de estar? — pergunto, ignorando seu drama de todas as manhãs.
—Ela foi expulsa do apartamento — Joana responde rindo. — Agora o homem... provavelmente, Lígia o conheceu em alguma festa ontem.   
—Nada surpreendente. — Reviro os olhos. — Diz para ela ficar com o último quarto do corredor, não quero ela perto do meu. Sabemos do que ela é capaz.      
—Não vai tomar seu café da manhã, Alexia? — Joana pergunta, cruzando os braços de cara fechada enquanto me observa sair pela porta.
—Sim, estou tomando café — respondo, erguendo meu copo enquanto vou para a garagem e Joana começa a rir balançando a cabeça, conformada de que nunca sentarei para um café da manhã adequado.
Entro no meu Duster preto e dirijo para o trabalho com o pensamento o mais leve possível, me preparando para o dia cheio que terei pela frente. Sou parada três vezes pelos homens do governo responsáveis pelas inspeções matinais, vestidos com seus inconfundíveis macacões do exército.
A cada quarteirão, quatro soldados fazem rondas, vigiando cada passo que damos. Segundo o governo, tudo isso é para que fiquemos seguros. Há quem acredite nessa falsa esperança, mas não sou uma dessas pessoas. Não mesmo. Eles nos controlam por algum motivo que ainda não está evidente.
Alguns minutos depois, estaciono em frente à minha agência publicitária, que já está a todo vapor. Entro apreciando todo o ambiente, que cheira a trabalho bem feito. Sou observada por todos com respeito e adamiração, pois sou tratada como a rainha da publicidade; e isso me enche de orgulho. 
—A Senhorita... está MUITO atrasada! — Murilo, meu assistente e a única pessoa capaz de me contestar e dar broncas, vem ao meu encontro, cheio de frustração. — Mas muito MESMO! 
—Bom dia Murilo, fique à vontade.
Deixo que ele descarregue toda sua indignação sobre meu paradeiro, pois segundo ele, eu não conseguiria estar com o material pronto para a nossa reunião com o cliente em uma hora.
Entro na minha sala na cobertura e fecho a porta, ignorando completamente as reclamações do Murilo, que sai enraivecido. 
Respiro fundo, relaxada e pronta para o trabalho. Exatamente cinquenta e nove minutos depois, estou na sala de reuniões, recebendo um olhar orgulhoso de Murilo, que agora está calmo e sorridente.
Após uma cansativa reunião de duas horas, permito-me um descanso enquanto organizo alguns papéis na minha mesa. E, para minha surpresa, encontro um embrulho que não reconheço como meu.
Intrigada, sento-me para verificar do que se trata, mas uma reportagem que passa na enorme televisão de fundo me rouba a atenção.
"O Presidente Vargas, em declaração, anuncia novo projeto de reformulação dos bairros mais carentes e periferias. Não sabemos ao certo quando essa nova fase de repaginação entrará em vigor, mas estamos todos ansiosos para o fim desse projeto. Pois, como todos nós sabemos, após a demolição das casas em mal estado de conservação, outras novas serão construídas, deixando assim, nossas cidades e nosso país mais limpo, bonito e melhor de se viver. Iniciado primeiramente na cidade de São Paulo, foi um enorme sucesso, esperamos o mesmo para nossa cidade..."
O que eles estão fazendo com nosso país? As pessoas só vão cair na real quando for tarde demais. A cada dia que passa, são mais notícias sobre milhares de desaparecimentos misteriosos, nova lei de pena de morte onde o sistema está corrompido, homens do governo fortemente armados por toda parte e a polícia em extinção.
Só não vê quem não quer, mas estamos sendo controlados e guiados com a promessa de um falso mundo melhor. O lema é segurança e proteção, mas estamos vivendo controle e poder.
Balanço minha cabeça tentando afastar esses pensamentos e me concentrar no que realmente interessa: o embrulho misterioso. Afinal de contas, eu não posso mudar o mundo.
Analiso o pequeno pacote em minhas mãos e percebo que em um dos lados há uma mensagem:
"Remetente: Destino

Destinatário: A.V."
Acho hilária a brincadeira, mas resolvo ignorar o fato, pois abaixo do papel de presente, descubro um intrigante livro: Projetos Confidenciais. O nome do autor está gravado apenas com as iniciais "V.D.". 
Nunca ouvi falar, tando do livro, quanto do autor, mas assim que leio a sinopse, fico impressionada e começo o primeiro capítulo com a intenção de parar antes do segundo.
O que não acontece.
Volto à realdade sobressaltada, com alguém batendo na minha porta; e percebo que já estou no capítulo cinco! A leitura mais autêntica e viciante que já tive na minha vida! Foi como se eu estivesse dentro do livro, em outra dimensão, compartilhando os mesmos sentimentos e história do autor!
Outra batida na porta.
—Pode entrar — respondo, me arrumando na cadeira. 
—Alexia, seu professor de Muay Thai acabou de ligar cancelando seu treino de hoje — diz Murilo, abrindo apenas um pouco da porta, o suficiente para passar sua cabeça. 
—Obrigada Murilo, remarque para amanhã, por favor. E mais uma coisa — acrescento, antes que ele saia. — Quem deixou esse embrulho aqui? — Levanto o livro para que possa ver.
Ele franze a testa. —Não sei de nada sobre isso. Por quê?
— Como não? Apenas você tem a minha chave.
—Desculpe Alexia, mas não sei de nada. E garanto que ninguém pegou minhas chaves.
— Estranho... — Aquilo me intrigou. — Cancele todos os meus compromissos de hoje, e não me incomode com ligações, okay!? — digo a ele, me levantando e pegando minha bolsa; e, claro, sem esquecer do livro misterioso. — Quero um tempo só para mim hoje. — Sorrindo, me viro para Murilo, percebendo que ele quer contestar, mas no fim, apenas assente e fecha a porta da sala atrás de si.
Saio logo em seguida e vou para o meu lugar favorito da cidade: uma cafeteria/biblioteca pequena e aconchegante, com música ambiente, cheiro de café fresco, páginas e silêncio.
Mergulho na minha leitura, parando apenas vez ou outra para pedir comida ou café para a garçonete.   
Assim que termino a última palavra do livro, estou decepcionada e boquiaberta com o final triste, mas extremamente realista. Na orelha da contracapa, como eu imaginava, há uma descrição em destaque:
"Uma história completamente real "
O livro relata a história de um governo corrupto e de um hacker que descobre seus planos confidenciais para com seu povo. O desenrolar da trama tem fugas, corridas, mortes e, por fim, a prisão do personagem principal, Victor Duvall. Resumindo, não houve justiça contra o governo.
O hacker,  Victor Duvall, consegue apenas parte dos planos do governo, mas por tudo que li, trata-se exatamente do que estamos vivendo atualmente.  O que quer que nosso governador esteja planejando para o país, não é algo bom.
Volto para a realidade e percebo que se passou várias horas desde que cheguei ao café, então, decido pagar a conta e ir embora.
Releio a última parte daquele livro enquanto ando em direção ao meu carro.
"O mundo é um lugar injusto; e sobrevive intacto apenas aqueles que têm o poder e a riqueza. - V.D."
Ouço barulhos de pneus freando e volto para a realidade, assustada, deixando meu livro e o celular caírem.
Do meu lado esquerdo, vejo de relance um carro em minha direção.
Como vim parar no meio da rua tão depressa?
Tudo acontece em fração de segundos e, antes de sentir o impacto, percebo

uma pessoa há apenas um passo à minha frente, um homem, talvez; e tudo se apaga.

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