Capítulo 10 - Não é o que parece.

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Abri a porta do meu apartamento e sorri para mim.
Peguei meu celular e liguei para a Flávia.
"Fala"
"Boa noite para você também, amiga"
"Fala, Annabel"
"Beijei o Raphael"
"Mas que merda!"
"O que foi?"
"VOCÊ DEU SEU PRIMEIRO BEIJO!"
"Flávia..."
"O que foi?"
"É sério..."
"Aí meu Deus... você está apaixonada"
E eu sorri.
"É, acho que sim"
"Que fofo... se ele ferir seu coração ingênuo eu mato ele."
E eu ri.
Desliguei o celular e coloquei uma das minhas músicas favoritas e dancei pelo apartamento todo.
Parei em frente à janela da sacada e olhei para a luz que vinha do apartamento de Raphael.
Eu estava com medo de tudo que poderia acontecer, porém deixei todas as sensações tomarem conta de mim.
Seja o que for... me permitirei amar alguém com todo meu coração... pelo menos uma vez.

                                      ***

Não que eu tenha dormido direito à noite, mas o sol me acordou cedo.
Eu estava de bom humor, me sentia leve como uma nuvem, o vento poderia me levar se quisesse.
Olhei para minha imagem no espelho, cabelo embaraçado, e eu sorri para mim.
Arrumei-me para ir à faculdade, eu estava me sentindo renovada, como não me sentia há muito tempo.
Coloquei meu tênis favorito e deixei o cabelo solto, sem maquiagem, me sentia leve.
Logo que passei pelos portões da faculdade avistei Rodrigo sentado debaixo de uma árvore.
—Rodrigo, oi — eu disse, aproximando-me.
—Annabel, como você está? — ele me recebeu com um sorriso radiante, que poderia iluminar qualquer dia nublado.
—Eu estou ótima, tenho que apresentar um trabalho hoje, mas estou muito bem.
Sentei-me na grama ao lado de Rodrigo.
Ele estava de óculos, segurando um livro, eu ri.
—O que foi?
—É que você está completamente igual a um personagem de filme americano clichê.
—Se é clichê é porque todo mundo gosta... então não vejo problemas — ele disse, sorrindo novamente.
—Que livro é esse? — perguntei.
Ele suspirou e me mostrou a capa.
—Um livro sobre fotografia? — questionei surpresa — eu não sabia que você gostava de fotos.
—Eu adoro, já trabalhei com isso quando eu era menor, antes de entrar para a faculdade e fazer publicidade, agora eu invisto meu tempo no livro que estou escrevendo, fotografia ficou como hobbie.
Depois que nos conhecemos, Rodrigo me mandou os primeiros capítulos de seu livro para mim por e-mail, é um incrível romance contemporâneo.
Ficamos conversando sobre tudo o que tinhamos em comum até a hora da minha primeira aula.
—Certo, eu tenho que ir, você passa lá em casa mais tarde para jantarmos?
—Pode me esperar! Eu levo tudo o que precisaremos.
Passei no fast-food mais próximo da faculdade logo que minha manhã chegou ao fim.
Comprei um milkshake de chocolate e fiquei sentada em uma mesa ao lado de uma janela, distraída, atualizando as redes-sociais.
Em um momento, enquanto eu olhava para o movimento, avistei algo familiar, uma pessoa.
Estela estava atravessando a rua, e logo passou pela porta, agora se encontrava no mesmo lugar que eu.
Fiquei observando, surpresa, enquanto ela fazia seu pedido no balcão. Nós não estavamos mais nos falando, não como antes, na verdade não existe um motivo pelo qual isso aconteceu, as pessoas apenas tomam rumos diferentes em suas vidas ao longo do tempo.
Talvez eu tenha ficado encarando ela, pois Estela me viu.
—Annabel?
—Oi, Estela...— respondi confusa, o que ela estava fazendo em São Paulo?
Fiz menção de levantar-me para dar oi, porém não foi necessário, Estela sentou na cadeira em frente à minha.
—Como você está? Faz tanto tempo que a gente não conversa...
—Eu sei, eu estou bem, muito bem... o que você faz aqui?
Estela arqueou as sobrancelhas.
—Não está feliz em me ver? — ela disse, sorrindo amarelo.
—Estou, é claro... só estou muito surpresa...
Não sei exatamente o porquê eu estava nervosa, mas a presença de Estela, ali, me deixava desconfortável.
—Vai ficar quanto tempo aqui? — a pergunta soou grossa, sem ser minha intenção, eu acho...
Ela mordeu o lábio e jogou seu cablo loiro para trás do ombro.
—Alguns dias — ela me lançou um olhar indecifrável e sorriu irônica — você ainda é... apaixonada por aquele menininho famoso na internet?
Senti algo em mim, que parecia uma gota de ciúmes.
—Sim, na verdade estamos juntos — falei segura, tentando parecer natural, muito, muito desconfortável com esse assunto, na verdade Raphael e eu não estávamos juntos, apenas havíamos ficado naquela noite. Estela não é o melhor tipo de pessoa para qual se deve falar sobre sua vida amorosa.
"Estela"
Ouvi o nome da minha amiga ser chamado por um atendente da lanchonete.
—É a minha deixa — ela disse.
Levantou-se sorrindo e me lançou um último olhar com apenas uma sobrancelha arqueada.
Observei Estela sair pela porta que entrou.
Essa foi uma conversa estranha para se ter com uma até então grande amiga de infância.
Passei o resto da tarde em uma livraria.
Voltei para meu apartamento quando o sol estava se pondo.
Tomei banho e me arrumei, liguei para Rodrigo e lhe avisei que ele poderia vir a hora que quisesse.
Troquei algumas mensagens com Raphael, eu amava o modo como ele arrancava meus suspiros apenas com um simples "olá".
Raphael havia ido para um evento em Campinas e ficaria por lá durante uma semana, isso me deixou com um sentimento estranho, pela primeira vez depois de algumas semanas eu ficaria sozinha, sem a Flávia e sem Raphael, espero que Rodrigo não se importe de me fazer companhia todos os dias.
A campainha soou alto, e eu reagi com um pulo.
Abri a porta e me deparei com Rodrigo rindo, segurando muitas sacolas de supermercado.
—Ah, meu Deus, entre...
Ele colocou as sacolas em cima do balcão da cozinha e disse:
—Quando eu estava no mercado, percebi que eu não sabia quais comidas você gosta, e meu celular estava sem bateria para eu perguntar, então comprei o que eu gosto, tudo bem? — ele disse tudo em um fôlego só, rindo.
—Ah, claro, claro que sim, eu como qualquer coisa, Rodrigo, quanto deu tudo isso? Eu vou pagar...
—Não precisa, eu vou acabar comendo muito mais que você... eu só, não sabia se você era vegetariana igual a Flávia...
—Não, eu não sou, apesar de achar uma causa incrível.
Rodrigo é fantástico, charmoso, divertido e muito inteligente, parece o lado descontrído de Flávia, eles são incríveis juntos.
Por fim fizemos cachorro quente e fritamos batatas-fritas enquanto escutavamos nossas músicas favoritas.
—Há quanto tempo você mora aqui? — perguntei enquanto bebia refrigerante.
—Há um pouco mais de sete anos, eu cresci no Rio de Janeiro, quando eu tinha 12 anos meus pais se separaram e eu vim para São Paulo com minha mãe, moro sozino há um ano.
—Talvez eu tenha sido um pouco radical, saí sozinha de Porto Alegre, da casa dos meus pais...
—O mais legal da vida é surpreender a sí mesmo, Annabel.
Eu sorri. E nesse mesmo momento a campainha tocou.
Não, eu não esperava mais ninguém para a noite.
Abri a porta e franzi as sobrancelhas.
—Estela?
—Oi, amiga. Eu estava me sentindo um pouco sozinha, então resolvi passar aqui.
Suspirei.
Estela parou de sorrir e fez uma expressão de confusão.
—Eu estou atrapalhando alguma coisa? — ela disse, olhando para o interior do meu apartamento.
—Não, não está...
—Quem é esse? — ela perguntou, com os olhos cravados em Rodrigo.
—Meu amigo... namorado de Flávia, você não chegou a conhecer ele...— eu já sabia onde aquilo daria.
—Por que você está passando a noite com o namorado da sua melhor amiga? — ela perguntou, formando um sorriso cínico no rosto.
—Vá se ferrar, Estela, você sabe que não está acontecendo nada...
—Eu sei o que eu vi, e eu vi você passando a noite com o namorado da Flávia...Raphael sabe disso?
Então foi pra isso que ela voltou para São Paulo, para me perturbar.
—O que aconteceu com você? — eu sussurrei, onde estava minha amiga de infância?
—Boa noite, Annabel...
E Estela saiu da minha frente, entrou no elevador e me lançou um último olhar antes da porta nos separar.

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