25 de Julho - Mensagem

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"25 de Julho de 2017

Hoje foi o primeiro dia de sol desde que tudo começou. Ao olhar para fora, para o azul celeste, para este dia fulgurante, com pássaros cantarolando na árvore do vizinho, a qual uma suave brisa agita as folhas numa dança quase apaixonada, por um momento, apenas por um momento, consegui esquecer toda a tragédia desse mundo e acreditar que este era um dia como qualquer outro. Mas então eu olhei para baixo, para as criaturas mutiladas vagando pela rua repleta de lixo, para o corpo apodrecido ao lado do portão, e a ilusão esfarelou-se como a neblina da primeira hora da manhã.

Pouco depois de tomar meu café-da-manhã, um pão murcho coberto por uma fina camada de manteiga e café, saí até o pátio e encontrei uma mensagem de Joana. Não nos falávamos desde sexta-feira e fiquei surpreso. A mensagem estava enrolada numa pedra, sobre o caminho de cascalho. Peguei-a e li:

Kaled, como está? Agradeço de novo pela comida e água, estaríamos perdidos sem isso... Bom, meu pai piorou. Não come nada desde ontem e o ferimento continua sangrando, apesar de eu ter costurado no dia em que chegamos. A dor e desespero de vê-lo assim estão me afetando mais do que posso expressar. Sinto que ele não vai aguentar muito mais sem os remédios. Me pego cada vez mais pensando naquela farmácia que você disse. Olha, sei que estou abusando ao perguntar isso, por tudo que já fez pela gente, mas, não iria comigo até lá?

Ao terminar de ler, me sentei no piso da varanda, apoiado na parede.

Ir com ela até a farmácia, a tantos quarteirões de distância? Isso é suicídio, pensei comigo mesmo. Quem poderia dizer quantos monstros teremos que enfrentar no caminho até lá? Armados com o que, um martelo e um revólver? Ridículo. Duvido que ela sequer saiba usar aquela arma, imagine então acertar a cabeça daquelas coisas enquanto elas correm em sua direção, sedentas de sangue. Não, não, não.

Voltei para dentro e procurei uma caneta e papel. Escrevi:

Ei, Joana. Estou indo, tentando viver um dia de cada vez. Sinto muito pelo seu pai. Não posso imaginar a agonia da sua situação, tendo que suportar isso tudo sozinha... Mas eu acho que em relação à farmácia, o melhor é não nos arriscarmos assim, devemos pensar em outra coisa. Além de ser muito longe, sequer sabemos se estará trancada. Como faríamos então para entrar, com todas essas criaturas pululando por todos os lados? Acabaríamos os dois mortos, e ninguém para ajudar seu pai. Reflita nisso. Não sejamos precipitados. Vou tentar pensar em algo mais seguro. Se precisar de alguma coisa, você sabe, estou aqui.

Enrolei o papel na mesma pedra com a qual ela me mandou e, após mirar na grama, arremessei-a para o outro lado da rua.

A pedra traçou um arco contra o céu azul antes de desaparecer de vista atrás do muro. Não escutei nenhum barulho quando ela caiu, o que garantiu um suspiro de alívio de minha parte. Só faltava eu errar e atrair a atenção dessas coisas.

Então me retirei para meu quarto no segundo andar e segui a rotina de comer, me exercitar e manter a mente ocupada com os poucos livros disponíveis na casa.

Estou nervoso. Não tive mais notícias da Joana hoje. Imaginei que ela mandaria outra mensagem, em resposta a minha, mas, nada... Se possível, amanhã tentarei fazer uma visita."

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now