22 de Julho - Passeio imprudente

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"22 de Julho de 2017

Finalmente consegui postar. Aconteceram tantas coisa ontem que não tive tempo de vir aqui. A água acabou. Isso mesmo. Nada mais sai das torneiras. Isso é terrível de tantas diferentes maneiras. Nós sempre contamos que a água estará ali, que às vezes esquecemos como é necessário todo um processo para ela chegar até nós. E esse processo já deve ter sido interrompido há dias, pelos seres lá fora. De modo que, enfim, não há mais ninguém para distribuir a água. E eu sequer pensei em estocá-la... Mas estou me adiantando.

Ontem à tarde, depois de muito deliberar, decidi investigar a casa do vizinho da frente. O plano era simples. A casa é muito parecida com a minha. Tem um pátio, um muro e um portão metálico. Apenas correria para o outro lado da rua, pularia o muro e bateria na porta. Eu nunca conheci muito bem esses vizinhos, só sabia que eram um casal com uma filhinha pequena. Ela sempre me cumprimentava quando passávamos um pelo outro, acenando sua pequena mãozinha. Tinha uns cachinhos tão bonitinhos... Enfim.

Não podia cometer o mesmo erro do portão, por isso, antes de sair, procurei alguma máscara ou óculos para me proteger da infecção. Encontrei algo melhor, dentro de um dos armários velhos da garagem. O capacete do meu pai. Ele é preto, arredondado e com dois adesivos de chamas, um de cada lado. Meti-o na cabeça, baixei a viseira e afivelei-o embaixo do queixo.

Restava achar algo para o corpo. Se uma daquelas coisas tentasse me morder, não haveria nada com o que bloquear. Estava no quarto de meus pais, cogitando fazer como o Brad Pitt, em Guerra Mundial Z, e amarrar umas revistas no meu antebraço, quando a vi, pendurada no cabide, dentro do guarda-roupa. Uma jaqueta de couro negro, um pouco puída, mas grossa o bastante para impedir que qualquer dente humano a atravessasse. Eu e meu pai somos do mesmo tamanho, então ela serviu perfeitamente.

Num devaneio, pensei em como meus pais continuavam me protegendo. Quase sucumbi às lágrimas. Agitei a cabeça e fui atrás de algo para as pernas. Infelizmente, não havia nada. Uma roupa de neoprene seria maravilhosa, mas ninguém em casa jamais surfou ou mergulhou. Resolvi parcialmente o problema vestindo duas calças largas e flexíveis. Calcei meus tênis, encaixei o martelo no cinto e me olhei no espelho. É. Não ganharia nenhum concurso de moda, mas pelo menos estava protegido.

Por precaução, peguei algumas barras de cereais e enterrei nos bolsos da jaqueta. Fui até a porta da frente e me esgueirei até o portão de ferro.

O tempo estava nublado, com grandes nuvens cinzentas barrando o sol e permeando a silenciosa cidade com uma aura sombria. Sempre gostei de dias nublados, mas algo como aquilo me causava arrepios. Evitei olhar diretamente para o corpo apodrecendo na calçada, entretanto, mesmo através do capacete, o odor me abalou.

Temerosamente, através das grades, olhei de um lado e para o outro da rua. Havia dois deles um pouco antes da esquina, no meio da rua, duas mulheres com os vestidos salpicados de sangue seco. Como eu observara do meu quarto no segundo andar, elas seriam as únicas que me veriam. Estávamos separados por uns trinta metros, de modo que, na velocidade em que se arrastavam, conclui que não conseguiriam me pegar. Comecei a abrir o portão.

Mas ele não abriu. O ferrolho estava torto, de certo pelas batidas do homem. Xinguei baixinho. Então segurei-o com as duas mãos e empurrei com todo meu peso. De repente, ele soltou e acertou em cheio o ferro do portão. O ruído metálico ecoou em meus ouvidos, alastrando-se no silêncio sepulcral da rua como um tiro de canhão.

Aterrorizado, abri-o, saltei para a rua e bati-o às minhas costas. Quando olhei na direção das duas mulheres, elas já estavam vindo em minha direção, correndo, seus pés descalços e ensanguentados acertando o asfalto, enlouquecidas, transfiguradas de ódio e fome.

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