21 de Julho - O que eu fiz...

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"21 de Julho de 2017

Estou vivo. Exausto, sem esperanças, traumatizado pelo resto de meus dias, mas vivo.

Ontem à noite, logo após escrever aqui, eu fui até a cozinha, iluminada por meia dúzia de velas, peguei um copo e o enchi de vodka. O gosto era horrível. Pensei que iria vomitar no primeiro gole, mas persisti, e ao cabo de vinte minutos de gritos da coisa lá fora, eu havia ingerido pelo menos um terço da garrafa. Então, tomado de uma coragem artificial, segurei o martelo com firmeza e me dirigi até a porta da frente. Movi a mesa e o sofá que bloqueavam-na e avancei até a varanda.

Estava tudo escuro e, no entanto, a criatura pareceu notar minha presença, pois elevou sua fúria a um outro nível. Os ferros do portão produziam um som metálico e estridente ao chocarem-se com os ferrolhos. Enquanto seguia pelo caminho de cascalho até ele, gradualmente, meu cérebro foi adquirindo a consistência do algodão. Meus passos tornaram-se incertos; a moldura do mundo desencaixou-se, e por um instante, pensei estar andando pela coberta de um barco em alto mar. Uma a uma, as correntes mentais que limitavam meus atos afrouxaram. A moralidade, medo e angústia afogaram-se no álcool viajando por minhas veias e eu parei de frente para o homem, zonzo.

Seus dedos esticavam-se na minha direção, rasgando o ar. Ele emanava um cheiro pútrido, como o de um animal há dias morto na beira da estrada, e quase cai de joelhos para vomitar. Precisava acertá-lo na cabeça para liquidá-lo, mas os braços estavam no caminho, tentando me agarrar. Não podia me arriscar a ser arranhado. Sem outra alternativa, ergui o martelo acima da cabeça e, possuído pelo ódio, comecei a atingi-lo nas mãos e dedos.

O primeiro golpe foi acompanhado de um som seco, de galhos partidos. Pegou em cheio na parte de cima da mão, quebrando seu pulso de imediato. Eu sabia que se parasse, não conseguiria ir até o final, por isso continuei batendo, batendo, batendo... Depois de alguns minutos, ofegante e excitado, com linhas de suor delineando as costas, parei e observei a obra de minha fúria.

Suas mãos eram uma polpa vermelho-escura pingando no cascalho. Os antebraços estava caídos, balançando como dois troncos apodrecidos. O homem não havia dado qualquer sinal de dor. Apenas continuava rosnando com a cabeça entre as grades.

Não conseguia ver os traços de seu rosto na escuridão. Ele batia os dentes de uma maneira tão medonha.. Ainda consigo ouvi-lo. Tac, tac, tac... Desejoso de terminar logo com aquilo, levantei mais uma vez o martelo e o descarreguei com toda força, mirando sua cabeça.
Ele passou direto, cortando o ar sem acertar nada. A bebedeira começava a me afetar mais do que o programado. Tentei novamente. Dessa vez, foi certeiro.

Seu rosnado vacilou e ele ameaçou desabar. Atingi-o de novo, e dessa vez pude ouvir claramente o barulho de seu crânio rachando, afundando para dentro, cedendo ao martelo. Preso entre as grades, ele parou de se mover. Meus braços chacoalhavam mas eu não parei. De novo. E de novo. E de novo.

Após um golpe especialmente forte, o martelo subitamente acertou algo mole e uma substância pegajosa explodiu em minhas mãos. Então o corpo do homem deslizou do portão e capotou no chão, com um som molhado. Repugnado, eu abandonei o martelo e trotei cambaleante para dentro de casa. Encerrei a porta e desmaiei no sofá.

Acordei junto do sol e de uma dor de cabeça atroz. Minha primeira ressaca, para comemorar o meu primeiro assassinato. Sentei-me com os cotovelos apoiados nos joelhos e me esforcei para organizar o caos em minha mente. Eu havia matado alguém. Outro ser humano. Com minhas próprias mãos... Isso... está certo? Quem seria aquele homem? Não teria ele também uma família, amigos, uma namorada que prezava pelo seu bem-estar, antes dessa merda toda? Mas... que outra opção eu tinha?! Ele não era mais ele. Estava doente, morto, transformado. Era um monstro, uma besta, um animal. Sim, sim, sim. Não foi minha culpa. Não foi...

Pesadas e frias, lágrimas rasgaram meus olhos e correram por minhas bochechas, pingando no chão.

Após alguns minutos, havia me acalmado. Foi então que reparei em minhas mãos e roupas. O sangue havia coagulado e secado, cobrindo as calças e moletom. Encontrei até alguns fios de cabelo grisalho do homem entre meus dedos, além de um pedaço de massa cinzenta, que só fui entender o que era quando fui até a varanda e vi a cabeça aberta de minha vítima espalhada pela calçada. Essa vista, acompanhada da náusea da bebida, foi um coquetel forte demais para o meu estômago. Cai de quatro e vomitei ali mesmo, na varanda.
Joguei fora as roupas sujas e gastei mais de uma hora no banho, higienizando cada centímetro do meu corpo. Agora vejo como fui imprudente. Devia ter me protegido, com óculos e máscara. E se algum fluido infectado entrou em contato com meu sangue, ou entrou na minha boca? Meu deus. Meu deus.

Desde então, estou checando nervosamente meu pulso e temperatura a cada vinte minutos. Disseram na televisão que febre e taquicardia são alguns dos primeiros sintomas. Se eu estiver infectado, terei determinação para fazer o necessário? Espero que sim.
E falando em televisão, agora só a CNN e a BBC continuam no ar. Canais abertos, como a Globo e Record, exibem somente o logotipo e uma mensagem de problemas técnicos e voltamos logo. Nunca gostei desses canais, mas vê-los dessa forma, depois de terem estado sempre presentes, é sinistro.

Ah, quase esqueço de mencionar. Ontem à noite, enquanto abatia aquele pobre ser, acho que vi alguém na casa da frente. Foi só um vago movimento das cortinas do segundo andar, e eu estava bêbado, o que talvez comprometa essa observação, mas vale à pena checar. O homem é, por natureza, uma criatura social. Não ouço a voz de outro ser humano há dias. Converso sozinho com cada vez mais freqüência, um indicativo da urgência de encontrar alguém. Escrever aqui têm ajudado, mas preciso de mais. Do calor de outro ser humano. Da interação direta com uma forma de vida que não esteja babando sangue e rosnando...

Estarei mais preparado da próxima vez que confrontar um deles. E talvez eu encontre algo de útil para meu refúgio explorando as casas vizinhas. É só uma ideia por enquanto, mas não tardará e eu terei que fazer isso. Também preciso fortificar as defesas. Reparei no muro dos fundos: está rachando nas beiradas. Temo que uma chuva forte vá desestabilizá-lo o suficiente para o menor dos empurrões ser capaz de derrubá-lo. Preciso dar um jeito nisso."

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now