20 de Julho - Insônia

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"20 de Julho de 2017

Agora são quase 11h. Estou de pé desde às sete. Tive um sono perturbado, esporádico. Acordei diversas vezes no meio da noite, tremendo e suando frio, imaginando se não estariam invadindo a casa. Somando tudo, não devo ter dormido mais do que algumas horas. Prefiro não comentar sobre os pesadelos.

Depois de beber muito café, pela primeira vez desde que estou aqui, ousei pisar no quintal. Talvez fosse imprudente, mas eu precisava respirar ar puro. Estava me sentindo enclausurado aqui dentro, claustrofóbico. Por isso, cuidadosamente, removi os móveis empilhados contra a porta e caminhei até a varanda.

Quando a abri, recebi de imediato uma lufada de ar congelante no rosto e pescoço, que me fez encolher todo. A grama estava úmida, coberta por uma fina camada cinzenta, a geada da madrugada. Recortando o céu, de um profundo azul, havia incontáveis linhas de fumaça subindo de pontos diversos da cidade. Algumas eram negras, outras brancas.

O silêncio era uma moléstia em meus ouvidos. Era como se a própria vida estivesse segurando a respiração. Nada se movia. Tudo parecia tão calmo(pensando melhor agora, aquela calmaria podia ser qualquer coisa, menos natural) que ousei ainda mais e arrisquei ir até o portão. Com um passo hesitante atrás do outro, avancei pelo caminho de cascalho.

Através das grades de ferro, observei a calçada, a rua coberta de embalagens vazias, o portão do outro lado dela e, além dele, a casa do vizinho da frente. Me aproximei mais e olhei para os lados. Pude divisar dois carros abandonados: um Sedan vermelho, sobre a calçada do vizinho da direita, e uma camionete escura, estacionada quase na esquina, com as portas escancaradas. Divagava na ideia de correr até ele e dirigir rumo a casa de Raquel, quando a coisa apareceu.

Eu estava tão perto do portão que quando suas mãos vermelhas atravessaram os vãos da grade só tive tempo de cair para trás, sobre o caminho de cascalho. A criatura, um homem redondo, de camisa branca encardida e calças sociais rasgadas na altura da panturrilha, saltou como uma fera sobre as grades, seu rosto enrugado coberto por veias negras intrincadas como vidro rachado. Desesperado para me alcançar, ele se jogava contra os ferros, esticando os braços e rosnando. Era a primeira vez que via um deles de perto e permaneci petrificado, absorvendo aquela visão. Havia algo de inumano em seus olhos desvairados, algo abominável e aterrador, como portais direto para o inferno.
Nunca na minha vida senti tanto terror. Só de lembrar, escrevendo aqui, sinto arrepios percorrendo meu corpo e sou forçado a me abraçar. A maneira como ele queria me pegar... O líquido negro escorrendo pelos lábios raivosos e pingando na camisa... Meu deus, como a humanidade acabou dessa forma?

Fui até a cozinha e bebi um copo de água. Estou mais calmo agora.

Enfim, continuando. Depois de ficar alguns segundos ali caído, eu me levantei e corri como um maratonista para dentro de casa. Tranquei a porta e a bloqueei com tudo de pesado ao alcance de meus olhos: sofá, estante, mesa da cozinha, televisão...

É claro, ele não conseguiu entrar. O portão não cederia tão fácil para apenas um deles. Mesmo assim, ele continua ali. Está gritando há mais de duas horas. Eu o ouço em todos os cantos da casa. Está me deixando louco. Tenho medo de que isso atraia mais deles, e logo haja dezenas desses seres batendo no portão. Nesse caso seria certamente o meu fim. Preciso fazer alguma coisa.

Agora estou sentado na cama de meus pais, no segundo andar, observando o movimento da rua enquanto bebo café sem parar. É o único luxo que me resta, e logo acabará também.

Acho que uma pessoa normal, nessas circunstâncias, estaria esperando ajuda da polícia ou dos nossos governantes. Sinceramente, minha fé no governo acabou antes do mundo. Quanto aos militares, o máximo que vi deles foi um caminhão amarrotado de soldados passando ao largo na avenida a qual minha rua se conecta. Até pensei em gritar para eles, mas jamais me ouviriam a essa distância, ainda mais na velocidade a qual seguiam. Não sei se estão reunindo sobreviventes ou somente tentando se manter vivos, como eu. De qualquer forma, não espero ajuda deles.

Agora há pouco tentei de novo mandar mensagens e ligar para Raquel, sem resposta. Só consigo imaginar que ela deve estar sem energia, como mais da metade da cidade. O fato de meu pai ter ganhado esse gerador em um sorteio da empresa nunca foi de grande interesse para mim, pois raramente o usávamos. Quem imaginaria que seria dessa maneira que ele viria a ser útil...

Enfim. Depois de encarar aquela coisa lá no portão, estou andando para todo lado com o martelo que encontrei na garagem. Não sei se tenho coragem de usá-lo, contudo, ele me proporciona um mínimo de segurança para que eu possa me mover sem estar constantemente dominado pelo medo. Cogitei carregar uma das facas de carne também, mas o martelo me pareceu mais "sólido", ou algo assim.

Acabo de observar outro carro avançando pela avenida no fim da minha rua. De onde estou, as outras casas impedem que eu veja além, mas posso distinguir vários veículos enviesados bloqueando a pista. Também contei pelo menos oito infectados vagando por aqui. Quatro deles estão reunidos no pátio de uma casa a duas de distância da minha. Os outros estão espalhados ao acaso. Um deles no meu portão. É com esse que preciso lidar, antes do anoitecer. Caso contrário, será uma noite ainda pior do que as outras. Estou cansado, com um tique no meu olho direito, acho que devido à privação de sono.

Se eu conseguir, tentarei escrever novamente à tarde, antes de fazer alguma coisa."

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now