18 de Julho - Noites são desagradáveis

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"18 de Julho de 2017

Não consegui dormir nada. Estou acordado há mais de 30 horas, mas o sono parece ter ido para o mesmo lugar que a normalidade. Agora é noite lá fora e eu não consigo mais vê-los, o que por um lado é bom, pois não são lá muito agradáveis de se contemplar, mas por outro é terrível. Minha mente excitada continua povoando a escuridão de silhuetas errantes vindo em direção à casa. Duas vezes pensei ter visto alguém no quintal da frente, para em seguida descobrir serem apenas sacos de lixo. Agora estou no meu quarto, no segundo andar, embarricado detrás de incontáveis colunas de cobertas, pois junto das sombras, veio o frio, impiedoso.

Mais cedo, em um acesso de energia, decidi verificar as janelas e portas da casa, coisa que, no caos dos primeiros dias, esqueci completamente de fazer. Pequeno foi meu espanto ao constatar que a da cozinha, ligada aos fundos da casa, jazia destrancada! Mas o que me preocupou mesmo foi a janela. Não havia nenhuma proteção além do vidro. Por isso resolvi ir até a garagem e procurar algo que servisse para bloqueá-la. Infelizmente encontrei somente um martelo de cabo de madeira. Nada de pregos ou tábuas. Resignado, resolvi parcialmente o problema empurrando a geladeira para a frente da janela.

Acabo de escutar barulhos de tiro aqui perto. Pela cadência e potência, apostaria em um revólver. Isso significa que não sou o único vivo nas cercanias. Certamente mais pessoas estão presas em suas casas, encurraladas por essas criaturas. Porém, se estão atirando, devem estar em perigo. Merda. O pior é que o barulho vai atrair ainda mais dessas coisas para cá.

Meus pensamentos não abandonam Raquel. O arrependimento de não ter acompanhado-a me devora as entranhas. Continuo indeciso sobre sair para procurá-la. Mas o melhor agora é não tomar nenhuma decisão precipitada. Se eu for morto, ou, pior, não-morto, não servirei para nada. O pior é que sequer nos despedimos direito... Ah, idiota.

Tentei de novo ligar a televisão. Fiquei com medo de sobrecarregar o gerador, entretanto precisava saber se algo havia mudado. Varri todos os canais. A maioria dos que continuavam funcionando transmitiam apenas as mesmas mensagens enlatadas, preparadas logo após as primeiras horas do apocalipse. "Não saiam de casa...", "Usem máscaras...", "Evitem contato com os fluidos corporais dos infectados..." Nada sobre medidas de contenção ou ajuda aos sobreviventes. O governo parece ter se dissolvido no ar, sem qualquer explicação. Como algo assim é possível? Onde, diabos, se meteu o Temer? Bem, esperar qualquer ajuda do governo numa situação dessas é ser um tanto iludido... Estamos todos por conta própria.

Acho que vou comer algo e tentar me entreter por algumas horas, até encontrar o bendito sono. Tenho medo de tomar algum remédio para dormir. Fico imaginando os mortos-vivos invadindo a casa e me devorando enquanto sonho com carneirinhos. Não. Sem remédios."

Diário dos Mortos-VivosWhere stories live. Discover now