17 de Julho - Sozinho

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"17 de Julho de 2017

Essa é minha primeira anotação nesse diário, mas não sei realmente o que escrever, além de que isso é algo bem do meu feitio. O mundo está ruindo e aqui estou, como sempre, tentando desviar meus olhos da situação. E, no entanto, quem poderia me culpar? Eis a situação: estou há mais de três dias trancado em casa. Meus pais deveriam ter voltado de viagem ontem, mas nem sinal deles. Lá fora, as pessoas estão atacando umas às outras. Agora há pouco, coisa de vinte minutos, uma mulher tentou saltar o muro da minha casa. Não sei qual eram suas intenções, e receio que jamais irei descobrir, pois antes que pudesse subir, meus vizinhos, Roberto e Vanessa, dois grandes amigos de meus pais, arrastaram-na para o chão e despedaçaram-na ali mesmo, na calçada. Pela janela do segundo andar posso ver o que restou de seu corpo: uma massa disforme e sanguinolenta.

Sinto que estou enlouquecendo. Os gritos dessas coisas lá fora são a única coisa que ouço há dias. Não sei o que fazer. Não sei se algum dia alguém lerá isso mas, mesmo assim, quero pelo menos deixar registrado tudo o que passei durante esse terrível período da humanidade. Talvez minha morte ganhe algum sentido dessa maneira.

Meu nome é Kaled. Minha casa é um grande retângulo circundado por um muro de pedra de dois metros. Há um pequeno quintal na frente, antes do portão, enquanto na parte de trás o muro separa nossa casa da do vizinho, um velho rabugento cujo pátio é coberto por mato da altura do peito. Falando nisso, ele foi uma das últimas pessoas vivas que vi. Antes de me trancar, ao passar pela frente de sua casa, eu o avistei do outro lado do vidro da janela, me observando. Ele imediatamente fechou-a e eu corri quando uma mulher surgiu mancando de um terreno baldio.

Nesse momento, estou deitado no sofá, com um cobertor até a cabeça. Mesmo com duas meias sinto o frio lambendo meus dedos. Ainda tenho alguma comida. Felizmente, minha mãe fez compras antes de viajar, me deixando com a despensa recheada.

Mas o que me perturba de verdade é o fato de não saber como Raquel está nesse momento. Estávamos juntos quando as pessoas começaram a enlouquecer. Tínhamos saído num encontro, para comer algo e conversar. Voltamos correndo assim que o caos estourou. Ela queria que eu fosse até sua casa e ficasse com a sua família, mas eu, estúpido, disse que precisava voltar e ver se meus pais haviam chegado.

Serei sincero, nunca me relacionei fácil com as pessoas. A tendência de querer agradar a todos me levava a interpretar estranhos papéis na vida dos outros. Para alguns eu era o amigo comediante, para outros o conselheiro amoroso, o solitário, o fiel companheiro. No fim do dia, eu era todos e ninguém.

Um estranho para mim mesmo.

Lembro-me de uma ocasião em que meus colegas tagarelavam em um pequeno grupo da sala. Eu estava lá também, um tronco com um sorriso frouxo, olhando de um para o outro, perguntando a mim mesmo o que eu fazia ali, uma peça de xadrez numa partida de vôlei. Completamente inepto, eu contemplava as palavras que suas bocas cuspiam sem qualquer dificuldade enquanto eu suava, sem ritmo, sepultado em meu silêncio. E os momentos iam e vinham, e eu continuava incapaz de encontrar uma frase que soasse correta, interessante, que me salvasse dos olhares matizados de malícia deles, do beco escuro no qual meus lábios definhavam desesperados, preenchidos de insegurança, petrificados de desejo e inveja.

Foi nesse momento que eu percebi que, apesar de tudo, eu era vazio, apenas uma casca, sem verdadeiro conteúdo que me conectasse aos outros. Mesmo que eu os agradasse, no final, eu estaria sozinho, como sempre, e no entanto, eu não tinha escolha a não ser continuar com aquilo, pois era tudo que eu sabia fazer: sem as mentiras, eu não saberia enfrentar o mundo.

Bem, tudo isso acabou quando a conheci. Depois de algumas horas conversando, Raquel olhou bem nos meus olhos e disse: "você é um grande mentiroso, não é?"

Esse foi o ponto crítico da minha vida. A minha máscara havia sido descoberta e alguém espiara através dela. Foi um momento verdadeiramente vergonhoso mas, ao mesmo tempo, significativo para mim. Foi quando eu decidi abandonar o meu antigo eu de sombras e procurar algo de verdadeiro dentro de mim.

Caramba. Me sinto realmente estranho confessando isso tudo. Talvez esses últimos dias tenham me amolecido ainda mais. Não sei. Acho que só precisava extravasar minhas emoções de alguma forma e calhou de ser aqui. Acho que é pra isso que serve um diário.

Eu sei. Dizer tudo isso apenas pra enfatizar o quão ela é importante pra mim e depois não fazer nada. Eu sei. Eu deveria ir atrás da Raquel, mas isso significaria sair para a rua, onde estão todas essas coisas, e o terror de me deparar com uma delas, de ter que enfrentá-las, me faz estremecer.

Eu levo cerca de uma hora para chegar à casa dela. Mas isso de carro. Indo caminhando, talvez demorasse algo em torno de três ou quatro horas, o que lá fora significa quase uma eternidade. Por outro lado, ficar aqui não resolve nada... Merda. Sinto que estou andando em círculos. Enfim, meu pulso começou a doer de escrever. Pensei que esse seria um exercício apaziguante, mas agora me sinto ainda mais tenso e preocupado. Vou subir e tentar dormir. Sem muitas esperanças."

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