Prólogo

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Jeane acorda tossindo, assustada, sentindo as grossas gotas de chuva entrando pela sua boca, batendo em seus dentes e escorregando até a garganta. Ela passa a língua nos lábios de forma automática e abre os olhos devagar, se ambientando aos poucos, precisando virar o rosto para tentar enxergar alguma coisa ao redor. O cheiro de grama molhada se mistura a um odor ocre, parecendo ferrugem. Ela aperta os dedos na terra úmida e um arrepio de dor sobe até os cotovelos. Tenta mexer as pernas em seguida, em vão, pois parecem pesar mais do que uma tonelada. Sente o pé direito latejar continuamente, enquanto percebe que um dos olhos parece estar um pouco mais fechado do que o outro.

Ela não sabe onde está, nem tampouco como foi parar naquele lugar. Ao que parece, trata-se de uma mata aberta, mas é impossível ter certeza. Jeane não consegue ouvir nada além da chuva pesada, que teima em cair, cada vez mais forte. Esforça-se para resgatar a mínima lembrança que a ajude a entender o que está acontecendo, mas uma profusão de pensamentos desordenados passa pela sua cabeça, em um flash rápido de memória. É mais um misto de sensações do que acontecimentos reais.

Jeane aperta os olhos, apavorada. Ainda pode sentir os socos lhe tirando o ar, a dor excruciante passeando pelos seus nervos, o medo, os olhos arregalados e o corpo pequeno, encolhido, esperando pelo próximo golpe. E a certeza desesperadora de que o mesmo viria.

A sua última visão, antes de perder os sentidos, foi o chão empoeirado. Disso se recorda bem. Mas, ainda assim, não é essa a lembrança mais pungente. Ela não consegue esquecer a nítida sensação de morte pela qual acabou de passar. Jeane sentiu o que tantas outras antes dela devem ter experimentado: a certeza absoluta de que aqueles seriam seus últimos momentos. Vislumbrou o fim, impiedoso, implacável, esperando do outro lado da parede. E sem o mínimo de esperança, algo que talvez algumas tivessem, já que ela viu, mais de uma vez, toda a crueldade da qual ele era realmente capaz.

Então, por que, afinal, ela foi poupada? A morte é, para ele, algo muito natural, um prazer sádico, sexual, pulsional. Ela viu o brilho em seus olhos diversas vezes, a sua empolgação quase infantil quando conseguia o último suspiro de mais uma vítima. Jeane leva a mão ao pescoço, com dificuldade, apalpando-o de cima a baixo. Nenhum sinal do sufocamento costumeiro, sequer um local está dolorido naquela região de seu corpo. Ele realmente não tentou matá-la. Até porque, ele não tenta, simplesmente faz. Executa. Elimina.

Por algum motivo desconhecido, ele não a quis em sua coleção. Jeane não foi capaz de provocar nele o desejo suficiente para que, tirar a sua vida, fosse razão de tamanho prazer. Terá sido por ter tentado agradá-lo de todas as maneiras, sempre a fim de sobreviver mais um dia, uma hora que fosse? Por ter aguentado tanto, por um tempo maior do que poderia imaginar que seria capaz? Ela temia o próprio destino, a cada segundo em sua companhia. E sabia que o seu sorriso era sincero ao vê-la realizar algo que o deixasse satisfeito.

Ele não lhe tirou a vida, por mais que os dias passassem. E Jeane precisou retribuir, de alguma forma, sua "generosidade", mantendo-o vivo, ativo e feliz, ainda que sua contribuição não fosse direta. Afinal, "tudo tinha uma razão de ser". "Cada vítima tem um papel na construção de algo maior". Era isso o que ele dizia, e era nisso que ela era obrigada a acreditar.

De repente, a realidade lhe bate com força, junto com a chuva impiedosa, que aumenta, minuto a minuto. Jeane começa a chorar compulsivamente, e seu corpo dolorido sacode em fortes espasmos. Não sabe precisar o que sente, o que quer, o que houve. Um monte de dúvidas permeiam a sua cabeça, implacáveis, deixando-a ainda mais perdida. Que pessoa, afinal, era ela? Em quem se transformou? Até onde poderia ter ido para evitar tudo o que aconteceu? O quanto era culpada? Ou ela era apenas mais uma vítima? Do destino, da vida, de alguém cruel demais para ser chamado de ser humano. E, por fim, a pergunta mais gritante de todas: como pode chegar ali, se sequer conseguiu se defender do primeiro tapa, tamanha a sua surpresa quando sentiu a mão quente no seu rosto?

A sensação de ser lavada pela chuva não existe. As gotas parecem mais lhe dar uma surra, como se fossem pequenas agulhadas tortuosas. Ela é tomada por uma forte sensação de enjoo, quase não tendo tempo de virar o rosto de lado, para não se afogar no próprio vômito, que vem quente e imediato.

Mais uma vez.

Jeane quase se pergunta se em algum momento vai parar de vomitar, quando o barulho de uma sirene, antes longínquo, se aproxima, parecendo estar cada vez mais perto.

Ela se apoia nos cotovelos, quando ouve o som de passos apressados na grama. Esforça-se para se concentrar e procurar de onde vem, mas as vistas embaçam e sua pressão cai, consideravelmente. Jeane finalmente perde a força nos braços, e seu corpo simplesmente desaba novamente.

Antes de perder de vez os sentidos, ela passa a língua nos dentes, a tempo de constatar que não lhe falta nenhum. E finalmente desmaia, com uma frase martelando em sua cabeça, de maneira cruel e insistente:

Ele não me quis.

[DEGUSTAÇÃO] Elementar - Josy Stoque & Juliana MendesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora