Corpo Oco (parte 2 de 2)

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O duende estava tão lá no alto que Julia tinha dificuldades de manter o contato visual. Um esboço de sorriso cresceu no rosto dela, não iria perdê-lo dessa vez, não iria deixá-lo fugir como minutos... h-horas antes.

— Eu faço qualquer coisa... — Ela nem piscava. — Por favor... Tr... — Um esbarrão a interrompeu.

Era um homem de calção, camisa de mangas compridas, descalço e de boné. Não parou de andar. Cabeça baixa.

Julia se encolheu. O que uma pessoa fazia ali? Virou-se para correr, mas estancou ao ver mais gente. Dezenas saiam de trás das árvores, todas seguindo para uma única direção. Os passos ritmados. Olhando para baixo. Elas não demonstravam se incomodar com os galhos baixos, atravessavam a mata arrastando tudo à frente, inclusive Julia. Ela foi aos poucos sendo empurrada, para mais e mais fundo na floresta.

Um vestido amarelo chamou-lhe a atenção. Era de sua mãe... Era sua mãe ali! Queria correr até ela, queria ficar parada para que ela não a visse, queria gritar, se esconder. Então, um menino de uns onze anos passou entre as duas. Conhecia-o também! Do tempo da escola? Estudara com aquele menino? Como ele ainda era criança?

Olhou ao redor: o desenho de um nariz conhecido, o jeito de andar de um vizinho, o sacudir de ombros de sua prima, alguém com o mesmo corte de cabelo de um amigo, a camisa surrada de seu pai.

— O que vocês estão fazendo aqui?!

Ninguém lhe deu atenção.

— O que querem?

O Chullachaqui! Julia virou o rosto para onde o duende estivera, mas não havia sinal mais dele.

— Não.

Deixara-o sumir de novo. Como pôde deixar isso acontecer? Não era para ter tirado os olhos do Chullachaqui dessa vez.

— Não. Não. Não. Por quê?

As pessoas em torno continuavam o caminho delas, Julia se deixou ser carregada pela correnteza de gente. Tantos rostos familiarmente desconhecidos.

Ela adequou os passos ao ritmo dos deles, abaixou a cabeça igual a eles.

A multidão começou a se compactar, ombro com ombro. Nem se Julia quisesse poderia se virar e sair correndo para longe daquilo tudo.

Mais à frente havia uma árvore morta com uma fenda no tronco por onde entrava uma a uma daquelas pessoas. Os galhos secos de pontas finas agarraram o ar que Julia respiraria. Ela esquecera que caminhava, e seguiu o movimento pela força do hábito.

O duende estava lá ao lado da entrada com seu imenso chapéu de palha revelando de sua intenção apenas uma mão chamando por Julia.

Um sorriso germinou no rosto dela. Sentiu o cheiro de pastel de choclo que a irmã adorava comer. Ouviu um rosnado de um gato. Margarita já teve um gato... e um cachorro também. Nenhum deles se dava bem com Julia, sempre latindo ou rosnando para ela. Procurou de onde o som e o cheiro vinham e só o que viu foi um par de olhos a encarando de volta. A expressão dela derreteu em pavor. Uma onça parda espreitava a multidão.

As patas pisaram firmes no chão. O animal avançou em meio a todos. Ninguém demonstrou medo, continuaram a marchar.

Com um salto, a onça caiu sobre Julia.

O peso do animal e o impacto da cabeça dela contra o chão a fez perder os sentidos, mas antes ainda pôde escutar escapando por entre as presas da onça um sussurro parecido com "Kay Pacha".

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