Corpo Oco (parte 1 de 2)

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— Acho melhor a gente voltar.

Julia não mantinha os olhos quietos, qualquer folha se mexendo lhe guardava a atenção. Esquerda. Direita. Como se aguardasse algo, alguém, qualquer coisa sair de trás das árvores.

— Vamos, Margarita?

Mas a outra não movia um dente sequer. Sua irmã, Margarita, estava logo ali: parada à sua frente, cabeça baixa, braços juntos ao corpo.

— Margarita? — Julia voltou a chamar. Aproximou-se. — Vem comigo. — Precisava tirar a irmã daquele lugar. Agarrou as mãos dela. Nem frias, nem quentes. Aquela floresta não estava fazendo bem a nenhuma das duas. — Fala alguma coisa. Por favor — procurou olhar-lhe nos olhos. — Não quero esquecer a tua voz também.

Uma risadinha chiou entre os fungos e entre as raízes, vinha mais para lá, para dentro da mata fechada. Margarita se soltou das mãos de Julia e se afastou um passo. Levantou o rosto. As íris castanhas tremiam marejadas. Os dentes apertaram-se de medo. Então, a risadinha tornou-se um silvo e cobras deslizaram das costas de Margarita para os braços, pescoço, ventre. Espalhavam-se pelo chão, rodeando as pernas dela.

Uma coral enroscou-se em um dos braços. Voltas e mais voltas. Uma jararaca pesava-lhe nos ombros. Várias escamas moviam-se ao redor de Margarita. As línguas procurando por Julia. Remexiam-se nas sombras presas em um ciclo de repetições, sempre de volta ao passado as cobras iam e vinham sobre o mesmo rastro sobre pele. Rastejavam e desrastejavam.

Julia segurou um grito com a mandíbula, guardou o pavor lá dentro de si com uma puxada longa de ar

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Julia segurou um grito com a mandíbula, guardou o pavor lá dentro de si com uma puxada longa de ar. Fechou os olhos, abraçou a irmã. Bem forte. "Uku Pacha" sibilaram todas as cobras ao mesmo tempo. Ela sentiu os répteis rastejando entre as duas, até que a resistência que o corpo de Margarita infligia deixou de existir e Julia abraçou a si mesma.
Abriu os olhos. Estava só.

Continuava em pé no meio da floresta. Não havia sido um sonho, e, na verdade, não estava inteiramente sozinha.

A risada fez-se carne e apareceu no alto de um galho. Era de um ser pequeno vestindo folhas, parecia um humanoide com orelhas compridas disfarçadas por um enorme chapéu de palha. Encarava com um misto de curiosidade e susto a moça lá embaixo a falar algo que ele não conseguia escutar.

— Me mostre ela de novo. — Julia elevou a voz.

Ele saltou para um galho mais baixo, e para outro, e para outro até chegar ao chão. Manteve distância. Se Julia tentava se aproximar, ele dava quantos passos mancos fossem necessários para manter a distância inicial. Assim ficaram por alguns minutos.

— Me mostre.

Enquanto Julia o observava algumas coisas vieram à mente: se aquele ser passasse de um metro de altura era pouca coisa, pela maneira que chegou até o chão dava para perceber que era ligeiro também. Seria muito fácil perdê-lo de vista. Conseguiria correr e agarrá-lo? E depois o que faria?

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