Capítulo 11: Vingança mais gelada que Frappuccino

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Aquele aceno me perseguiu por toda semana restante. Não pela cena, em si, mas pela culpa que me carcomia. Por que eu não tinha acenado de volta? Eu deveria ter acenado de volta. Quer dizer, é claro que eu só estava naquela situação por causa dela, mas isso não deveria ser motivo para eu ser um completo ingrato. Afinal, comi a comida dela. Dormi embaixo do teto dela. Ganhei um dicionário dela. Inclusive usei até um de seus motoristas como carro de fuga. Sendo honesto, eram as coisas do Duque. Mas como Lady Jennifer era filha dele...

Eu deveria ter acenado.

― Lucas! ― Seb berrou, chamando minha atenção. ― Não vai Cookie no Caramelo Macchiato.

― Ah ― eu respondi, endireitando de volta o pote com os cookies picadinhos que ia jogar em cima da bebida de alguém. ― Desculpa, Seb, estou um pouco distraído.

― Você deveria ter acenado, cara ― Seb respondeu, sem paciência.

Seb tinha sido a única pessoa para quem eu tinha contado sobre a situação. Talvez porque ele fizesse um pouco parte daquela maluquice. Ele me contou do dia que bateram na porta do nosso apê para pegar minhas coisas e como ele quase gargalhou na cara dos funcionários quando eles dizeram que estavam ali por ordens do Duque de Hearthshire. Se ele achava isso irreal, imagina passar um final de semana na mansão da família Darby?

Todo resto do mundo tinha uma visão muito pouco realista do que tinha acontecido. E sim, quando eu digo todo resto do mundo quero dizer isso mesmo. Alguém vazou a história no Brasil e, apesar de meu pai ter jurado de pés juntos que não foi ele, eu tenho minhas sérias dúvidas. Desde então, os jornais brasileiros não paravam de me perturbar e eu, inclusive, tive que trocar o número do meu celular inglês. Eu estava tentando retomar a vida, mas toda vez que eu falava com a minha mãe ela citava essa história e me dizia que me achou em uma reportagem em algum país maluco com a Eslováquia ou até distante como o Japão.

A única coisa que todas essas reportagens tinham em comum era que elas contavam versões completamente irreais da história, por mais que a história real também parecesse bastante maluca. Eu fugia das ligações e das entrevistas como diabo fugia da cruz e, com o passar dos dias, as coisas começaram a ficar mais calmas e voltar à normalidade. Eu já estava até errando os ingredientes das bebidas de novo. Só que ao invés de estar pensando na matéria de economia do meu curso, estava pensando em uma mãozinha pequena de dedos esbeltos, que ficou sacudindo no ar sem resposta.

― Roger ― eu chamei o dono da bebida, depois de corrigi-la.

Um rapaz sisudo apareceu para pegá-la. Ele agradeceu com um sorriso simplório e se virou para ir embora. Seu rosto não era parecido, mas a forma como ele andava me fazia lembrar de James. Acho que era a forma dos ingleses andarem, com uma espécie de classe que eu nunca teria, por mais que eu me esforçasse. E, sendo sincero, eu nem me esfoçava. Eu sacudi a cabeça tentando afundar James no fundo dela, já que não podia afundá-lo no Tâmisa.

Não estava sendo muito justo. Fora me dar um soco na cara, James não tinha feito nada contra mim. Ele tinha direito de ficar preocupado com minha presença na mansão, já que não me conhecia. E se ele e Lady Jennifer eram um casal, como se provaram ser, não era da minha conta. Racionalmente, meu cerebro achava isso completamente lógico e com muito sentido. O que não mudava o fato de que eu queria afundar ele no Tâmisa, especialmente toda vez que eu me lembrava dos dois juntos.

― Frappucino de Cookie ― Seb gritou, empurrando o copo de plástico vazio na minha direção.

― Saindo! ― Eu respondi, ocupado em tentar não errar a bebida dessa vez.

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