Fevereiro, 2017. VIII.

Começar do início

    — É uma questão de pontos de vistas e da forma como você usa sua sinceridade. — Amanda pontuou, rindo. — Mas eu diria que, sim, é uma qualidade. O mundo já está farto de falsidade.

    — Eu sou bom com conselhos — Lucas comentou.

    — Ótimo! — A professora comemorou. — Incrível!

    — Eu sou uma boa ouvinte — Maia disse baixinho, quase encolhendo ao ver a atenção indo direto para si. — Mas só ouvinte.

    — Não pense que ouvintes são piores que conselheiros, Maia. — A ruiva lhe sorriu. — Algumas vezes nós só precisamos ser ouvidos mesmo, desabafar, entende? — Maia concordou, ainda que um pouco sem graça. — Próximo?

    — Eu me considero uma pessoa um tanto confiável — Sofia deu de ombros.

    — Eu sou perfeccionista — Leo praticamente gritou.

    — Não era um defeito? — a professora indagou, sem entender.

    — Bem, eu nunca apanhei por não arrumar o quarto, ou algo assim.

    As risadas foram incontroláveis, até mesmo para a professora. Era bom finalmente sentir que o clima na sala começava a amenizar. Amanda sentia que os alunos a olhavam de uma forma diferente, mesmo que ainda fosse estranho para eles compartilhar tantos segredos com pessoas que, até poucos dias, eram praticamente desconhecidos.

    — Ok, falando sério — Leo continuou, tentando se recuperar da gargalhada. — Eu sou bastante leal às pessoas, principalmente aos meus amigos. — Sentiu as mãos de Sofia repousarem sobre as suas, e sorriu levemente, contente com o apoio da melhor amiga.

    — Sempre me disseram que eu sou uma pessoa prestativa — Dianna falou.

    — Muito bom, vamos precisar de pessoas dispostas a ajudar as outras — comemorou novamente — Melissa? — Virou-se para a jovem, que parecia perdida.

    — Eu... Eu não sei — confessou.

    Amanda sentiu como se seu mundo estivesse desabando. No meio de tantas qualidades existentes no mundo, era triste que Melissa não se sentisse confiante o suficiente para aceitar que, sim, ela tinha qualidades.

    — Ok, conhecendo a Melissa como vocês conhecem, quais qualidades vocês dariam para ela?

    — Dona da voz — Dianna pontuou, sem rodeios.

    — Parece ser muito sensata — Sofia declarou.

    — E linda — Dianna completou.

    — Essas três qualidades foram pontuadas por pessoas que nem são próximas de você — Amanda começou. — Consegue imaginar as inúmeras outras que você tem e que só as pessoas mais próximas de você conhecem? Ou até mesmo aquelas que só você conhece? Permita-se enxergar.

    — Você é linda, incrível e forte — Sofia disse, olhando nos olhos da negra de forma tão hipnotizante que não conseguiu escapar.

    Naquele momento, conseguia ver verdade em cada palavra dita para ela.

***

    Amanda precisava dizer: estava orgulhosa de si mesma.

    Estava orgulhosa porque, enquanto arrumava suas coisas para ir embora, percebeu que os alunos estavam interagindo, de verdade, pela primeira vez. O assunto era a piada de Leonardo, que não havia saído da cabeça de nenhum deles.

    Até Maia estava no meio da conversa, rindo vez ou outra.

    Matheus, que até semana passada não queria nem entrar naquela sala, já estava juntado vários assuntos em um só, e era a causa da maioria das gargalhadas.

    Por mais que quisesse, não conseguiu acompanhá-los até a saída, já que a dos professores era por outro lado. Gostaria de saber como continuou a conversa, se eles pegaram o mesmo ônibus naquele dia, se haviam mudado a rota apenas para conversarem por mais um tempo, ou, até mesmo, se um deles havia acompanhado o outro até sua casa.

    A professora estava cansada de todas as formas possíveis e impossíveis. As provas começariam logo, os trabalhos também, e o medo de não conseguir dar a mesma atenção para os alunos a perseguia.

    Preparou um café para se manter acordada e, da bancada na cozinha, observou a grande bolsa que carregava todos os dias consigo, enquanto tomava um gole do café, e imaginou todas aa mil coisas dentro dela que esperavam para serem organizadas. Por um segundo, pensou em agir como uma adolescente inconsequente e se jogar na cama, mas seus trinta anos e suas responsabilidades falaram mais alto. No final da semana, aquela pilha seria dez vezes maior.

    Colocou uma música baixinha para tocar em seu celular, apenas para não ficar no mais completo silêncio. Era nesses momentos que pensava que sua vida de solteira independente não era tão boa assim. Era maravilhosa a sensação de conseguir se sustentar, vivendo bem, sozinha, mas precisava confessar que sentia-se mal quando se dava conta de que o único som em seu apartamento ou era a voz de William Bonner ou de algum filme que passava em um canal qualquer.

    Amanda não tinha tempo para se dedicar a relacionamentos amorosos, muito menos para sofrer com desilusões, reconhecia isso. Também não tinha tempo para cuidar de um animal de estimação, principalmente quando se tratava de seu favorito no mundo inteiro, cachorros.

    Torceu para que, de alguma forma, estivesse destinada a encontrar alguém. Não se importaria se fosse na rua, no meio de uma trombada, ou em uma lanchonete, poderia ser a mais clichê das cenas. Se estava escrito no livro da sua vida, estava decidida a não interferir nas decisões do destino. Continuaria com sua vida pacata, e deixaria que o amor da sua vida caísse dos céus, bem na sua frente.

    Se não acontecesse, "ficaria para a titia".

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