12 - As Outras - Parte 3

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  Ruth caminha ainda longe da clareira. Perambula às margens do mesmo riacho. Joga, uma a uma, as pequenas pedras que coletou na sua caminhada. O dia está em seu ápice de claridade e o vento passa por aquele local ao noroeste do continente sulista, que acredita que aquele mundo se chama Ä. O nome de um pássaro azul, o qual, os sulistas religiosos acreditam ser um emissário de seu deus. Ruth aprendeu sobre tudo isso logo após acordar do coma há alguns dias atrás. Ouviu sermões de esperança, de um cidadão Destruidor para o outro, que se baseavam na presença abundante de água ali no Sul - um sinal de benção e presenças divinas; a Água estaria com eles. A americana que sempre fora mergulhada em amargura escutara essas palavras saindo da boca de um menino que consolava outro que buscava os pais nos escombros de quando houve o bombardeio. O tal do Peripástky. O bom é que o garoto acabou os encontrando vivos. No entanto, estavam feridos. Quanto a isso, Ruth interferiu em sua cura. O que estava perdido foi achado. Ela também acaba de encontrar algo que pensara estar perdido para sempre. Contudo, ainda sente tanta coisa misturada. Ao andar, por algum tempo, pegando rochedo por rochedo na água corrente e esverdeada, vai capturando lembranças. Às vezes, ela pode mantê-las seguras em suas mãos, porém a maioria delas se esvaem. Vê a si mesma cantando uma canção de ninar para Hannah, com dois anos, atracada em seus braços, cabeça deitada em seu ombro. Cabelo loiro e liso, solto e bem penteado que chegava até a cintura. As imagens pulam até a adolescência. Uma Ruth diferente; uma Hannah diferente. Gritos e desafetos trocados na divisa da porta do quarto da adolescente. Ela esbravejava e gesticulava, balançando no ar os seus dedos de unha com pintura verde fluorescente e descascada. As memórias saltam à Ruth se vestindo, fechando o seu casaco preto, não querendo se encarar no espelho. Mais pessoas de preto. Nevava. Ruth tentou chorar no enterro, mas não conseguia sentir. O seu marido, por outro lado, era consolado em abraços e se mantinha em prantos. Ela só via o negro das roupas e o branco pálido da neve, que vinha de cima e inundava toda a superfície. Hoje, diante de muito verde e natureza em ebulição, ela chora aos poucos. Uma lágrima pequena de cada vez.  Um soluço de cada vez. Uma pedra lançada ao rio de cada vez. Quando as pedras acabam, mais próxima da clareira, Ruth se certifica de fazer o caminho de volta e ir pegando pedra por pedra outra vez. Memória por memória, dor por dor, vazio por vazio. Depois, vai voltar e jogar uma por uma enquanto prova o sal de lágrima por lágrima. Quando isso acontecer, quando a sua mão se esvaziar, ela estará perto da clareira novamente e algo acontecerá.

***

- Parecia ter escapado de algo horrível e só chorava. Só disse o seu nome e que precisava de ajuda para ir à colônia dos Destruidores, pois tinha escapado do Norte. Era a menina dos nossos pesadelos, por isso decidimos ajudá-la mesmo com medo e uma insistência contrária de Ruma. Róru a convenceu. A menina entrou na cabine, tomou banho e se vestiu. Dormiu a viagem toda enquanto permanecíamos curiosas e Ruma assustada. - Anne conta ao carregar pedaços de madeira e gesticular o máximo que pode, batucando sobre a sua carga. Não quer contar que entrou em transe e que Sonia atacou a auxiliar de Lura.
- Anne queria acordá-la. - Sonia, que também ajuda a levar lenha, acrescenta. Olívia acha isso óbvio e mostra isso com a cabeça que meneia e um sorriso sutil. Anne é assim. E que memorável que uma estranha tenha se tornado tão conhecida em tão pouco tempo. Ela prepara o fôlego para perguntar sobre o que impediu a Sete finlandesa de despertar a filha de Ruth, mas o seu intento é interrompido por uma pergunta.
- E se todas nós estivermos mortas? - Anne deixa as lenhas no chão e pousa as mãos no dorso depois de braços que se estenderam em alongamento para aliviar seus músculos. As outras param a caminhada para esperá-la.
- Estar vivendo o que estamos é loucura, mas acho que isso já seria - Olívia pega as lenhas abandonadas pela Sete hacker - demais. - Ela acaba somando mais madeira à sua pilha. O que não faz diferença alguma para o seu bem estar.
- Valeu. - Anne dá um tapinha no ombro de Olívia e se direciona para sair dali.
- Mas algumas perguntas permanecem apesar da explicação inicial que tivemos ao chegar aqui. - Essa fala de Olívia para os pés de Anne.
- Eu também tenho perguntas. Vocês sabem. - Anne afirma apoiada no ombro de Olívia. Essa acena com a cabeça que entende e as duas direcionam o olhar para Sonia.
- Vamos trabalhar. - A Sete russa responde e já volta a andar.
- Ela também tem perguntas. Com certeza. - Anne dá uma piscadela e sai um tanto saltitante. A outra Sete, a professora que possui força sobrehumana,  passeia o olhar por toda aquela floresta e deixa a verdade se assentar no seu estômago: isto aqui não é a Terra. Isto aqui é outro mundo, possivelmente longe demais. Ela volta a se mover e a se lembrar das aulas de ciências que dava para as criancinhas. Noções do ciclo da água, do sistema solar, das fases da Lua. Tudo parece tão insignificante agora. A realidade lhe marca mais ainda as entranhas: isto aqui não é a Terra. Ela interrompe os seus passos uma outra vez. Um frio lhe invade e o seu olhar se perde: será que isto não é a Terra mesmo? Joga o pensamento longe ao ligeiro meneio e retorna à caminhada.

***

- Os meus homens estão vasculhando os nossos limites, mas duvido que vão encontrar Martha ou uma dessas outras Sete da sua imaginação. - Lura discursa segura e sentada de frente para Hannah.
- Você não gostaria de ver a Martha e até mesmo outras, caso existissem pra você, vindo se render? - Como resposta a isso dito, Lura se ajeita na cadeira.
- Bobagem.
- Não pareceu. Eu vi o brilho no seu olhar.
- Bo-ba-gem. - Lura se levanta. - Quem é você, de verdade? Tem a habilidade de se transformar em outras pessoas? É uma espiã do Norte?
- Traz a Ruth aqui para você se eu não sou a filha dela de verdade.
- Você a agrediu, Hannah. - Lura abre um sorriso de superioridade como quando alguém pega o outro no flagra e que antes torcia por isso.
- Você bateu na cara dela. Da pessoa que você diz ser sua mãe. Má atuação, espiã de merda.  - A líder continua ao andar lentamente de um lado para o outro.
- Você não sabe o que aconteceu com nós duas. - Hannah, lacrimejando.
- Eu sei.
- Não sabe.
- Eu sei de tudo.
- Não sabe! - Um grito rasgado junto a um rosto quente e molhado por lágrimas. - Não de tudo, Laura! Não sabe nem se sou uma espiã, uma garota que ressuscitou ou, quem sabe, um pedaço de pedra. O que você sabe mesmo, Laura? - Um traço de loucura aparece, novamente, na expressão de Lura. Aproxima-se, passo a passo, com os lábios em muxoxo de raiva.
- Não era esse o seu nome? - Hannah provoca com um olhar de enfrentamento ainda avermelhado pelo choro.
- Você quer morrer, Hannah? - O rosto de Lura para a um dedo do rosto da garota.  É possível sentir Lura em um ranger de ira mesmo que o tom da sua fala ainda seja controlado e tedioso, sem variações.
- Mesmo que você tenha morrido mesmo, ninguém gostaria de morrer de novo. - Lura enfia os dedos nos fios oleosos do cabelo da prisioneira, que tenta esquivar a cabeça sem sucesso.
- Por que você não me morde? Por que não joga o seu corpo sobre a mesa, sobre mim? - Lura prende o cabelo da garota com força entre seus dedos. - Porque eu tenho um exército, um povo e até mesmo as Sete. - Ela solta o punhado de cabelo com violência e se afasta em passos pesados. - E você? Ninguém. - A líder dos Destruidores limpa uma mão na outra.
- Você quer saber a quem eu tenho? - Hannah questiona e permite que o zumzumzum das vozes em sua cabeça se transportem para a mente de Lura. Ela faz com que o volume se aumente até a Monte pedir para parar, com a insanidade pintada em sua face e olhos cheios de lágrimas, que insistem em não se derramarem.
- Elas são tudo que eu tenho e elas estão chegando.

Lura se retira furiosa e dois guardas entram para vigiar a garota. A porta se fecha.

- Vou apanhar de novo?

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now