Capítulo 19 - Caira

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Fiquei paralisada ao ouvir o nome. De todas as lendas que eu havia lido sobre o folclore brasileiro, boitatá sem dúvidas era uma das mais temidas por mim. Óbvio, entre um menino travesso com uma perna só e uma serpente de fogo, quem era louco de escolher a segunda opção? Minhas mãos tremeram e apertei o cabo da espada em minha cintura para tentar aliviar a tensão. Os deuses queriam mesmo testar até a última parcela da minha resistência.

- A serpente de fogo? – Giovanna perguntou – Eu pensei que ela fosse uma guardiã boa da floresta.

Ao menos eu sabia que não era a única completamente amedrontada naquele meio. Giovanna sabia bem o que era aquele ser, os outros que não sabiam bastou apenas dizer que era uma serpente de fogo para que as expressões de todos mudassem.

- Essa é uma das lendas e de certa forma ela é uma guardiã, mas nada boa – Caira explicou – Odeia quando encontra pessoas em seu habitat e não vai hesitar em querer acabar com todos vocês.

- Isso não é muito tranquilizador – Benjamin murmurou

- Por que não nos avisou antes? Poderíamos ter nos preparado durante o dia – Falei

- Ou fugido. Eu conheço as pessoas e ninguém em sã consciência entraria nessa floresta.

- O problema é que nossa sã consciência foi mandada para os ares desde que começamos essa missão. – Respondi – Nós não teríamos fugido, mas entendo a sua colocação.

Caira assentiu parecendo se sentir culpada

- Apenas me diz uma coisa, alguém já entrou nessa floresta? – Julie perguntou e Caira não hesitou em afirmar, dizendo que sim – Mas saiu vivo? – Ela se calou

- Me desculpe, nunca ouvimos relatos de sobrevivência – Falou finalmente e todos trocamos olhares. Aquilo era loucura, mas eu sabia que não poderia desistir ali – Mas a diferença é que nenhum deles eram como vocês.

- Suicidas? – Me escapou. Eu sem querer usava sarcasmo quando estava nervosa.

- Não – Caira riu – Ajudados pelos deuses... e por mim.

- Quer dizer que você vai conosco?

- Deixarei vocês próximo a gruta onde boitatá vive, mas não poderei ir até lá, infelizmente. – A mulher respondeu e o silêncio fixou-se no lugar

- Tudo bem, vamos logo com isso – Quebrei o silêncio e logo emiti um suspiro cansado – O quanto antes formos em frente, mais rápido retornaremos.

- Hay, você prestou bem atenção no que ela disse? É uma cobra de fogo! – Giovanna deu um passo em minha direção parecendo desesperada

Não vou mentir, eu realmente estava com medo e bastante assustada. Já tentava calcular em minha mente como poderia vencer esse novo obstáculo, porém ainda assim sentia a frustração chegando ao não conseguir pensar em nada. No entanto eu sabia, mais do que tudo, que eu era capaz de lutar, já tinha passado por coisas demais e não iria desistir.

- Eu escutei bem, Gio, mas vamos em frente. Eu sei que somos capazes de vencê-la, não importa o que aconteça – Peguei uma de suas mãos e apertei – É só nos mantermos juntos.

Minhas palavras pareceram comover os outros, pois logo concordaram com a cabeça. Com Giovanna não foi diferente. Sorri para ela, tentei não parecer tão hesitante, com o intuito de lhe passar um pouco de confiança. Até que ela finalmente assentiu e puxou seu machado do compartimento do cinto parecido com o meu.

- Precisamos de uma estátua, certo? – Perguntou decidida a Caira que sorriu imediatamente e concordou – Então, vamos!

Caira abriu caminho em nossa frente, Julie, Giovanna e Benjamin a seguiram para o meio das árvores. Parei por apenas um segundo para respirar fundo, eu precisava me convencer daquelas palavras ditas a Giovanna. Falar aquilo era fácil, mas confiar em minhas próprias promessas era um desafio. Depois de respirar fundo umas três vezes, encarei Christopher me esperando mais à frente e fui em sua direção. Era hora de mais uma etapa.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!