Quando Amber olhou de novo para a pílula na palma de sua mão, ela se afigurava ainda mais brilhante do que antes, como se agora emanasse algo divino de seu interior, algo miraculoso, como se fosse a resposta para todas as perguntas, como se fosse a salvação, um fio de teia descendo até as profundezas do inferno para tirá-lo de lá. No segundo seguinte, ela deslizava pela sua traqueia, acompanhada de um jato de água quente, e, no entanto, incrivelmente refrescante.

          Voltando para a sala, Amber pensou ter notado o primeiro traço de medo em Donnie. Seus olhos jaziam esbugalhados, as mãos enterradas nos bolsos da bermuda, uma estria de suor delineando a nuca.

          — Vai dar tudo certo — declarou Donnie, mais para si mesmo do que para Amber, a voz algo rouca e cavernosa.

          — Sim.

*

          Quando, pela segunda vez, Amber entrou na sala, percebeu de imediato que todos já haviam tomado seus lugares. Mais impactante ainda, porém, eram os semblantes carregados de intensidade dos colegas. Ninguém conversava, ninguém sorria, apenas encaravam suas próprias mentes em tácita concentração.

          É sempre assim, disse consigo mesmo, todos se tornam outra pessoa diante da Avaliação. É algo que aprendemos desde os 12 anos; a importância vital dela, a maneira como, de uma hora para a outra, pode destruir ou elevar nossas vidas. Me pergunto se mais alguém aqui usou Min-D. Não me surpreenderia; a tensão é esmagadora. Realmente não agradeci Donnie o suficiente por ter conseguido ela pra mim. Ele é um verdadeiro amigo. Ficarei um pouco triste por ele ir embora pra Gama... não, ele merece, espero que consiga se tornar um espião telepata, é seu sonho desde que estudamos a história de Richard Boole, o herói psiônico que, usando a leitura de mentes, descobriu a maior conspiração contra nosso país e se infiltrou sozinho nas linhas inimigas, eliminando um por um seus líderes. Caramba, não consigo parar de pensar besteiras. Minha mente não sossega de jeito nenhum. Isso é outro efeito da droga? Talvez eu já esteja enlouquecendo, pensou com assombro, antes mesmo da avaliação começar.

          Quando, enfim, o marcador chegou a zero, instruções cruzaram a tela de sua mesa e, em seguida, a prova começou.

          Ao verificar as questões, por algum motivo, pareceu a Amber que a prova se tornava mais absurda a cada ano. Meu cérebro está regredindo?, se perguntou em angústia, ou será a droga já fazendo efeito, alterando as faculdades do meu cérebro?

          Não tinha como saber. A partir do momento em que ingerira a droga, qualquer tentativa de discernir o que era normal ou não, deixara de ser pertinente. Então aconteceu.

          Droga, o que é isso?

          A respiração de Amber rapidamente se tornou irregular e pesada, como se o ar fosse fumaça tóxica invadindo seus pulmões. Contorceu os dedos sobre a tela de sua mesa, então percebeu que a prova já estava em andamento há 15 minutos.

          Impossível.

         Ele olhou outra vez. As palavras na folha virtual de sua Avaliação jaziam em outra língua. Nunca na vida vira aquelas letras antes; uma mistura de kanjis com arábico, simplesmente inelegíveis.

          Tonto, um tanto perdido, ele olhou na direção de Donnie, e o viu numa máscara de foco intransponível, sorrindo misteriosamente, mergulhado, pelo que podia concluir, na mente das pessoas à sua volta.

          Ele conseguiu, murmurou para si. Pelo menos ele conseguiu.

          Suspirou, tremendamente aliviado.

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