Capítulo I - O Último Verão

137 55 39

No verão passado...

Ele havia levantado da cama e estava tragando um cigarro perto da janela. Obviamente, não era a primeira vez que eu o via sem roupa à minha frente, mas aquela visão sempre me deixava envergonhado.

Estávamos completamente sozinhos; meus pais estavam viajando. Tínhamos aquela casa gigante apenas para nós dois.

Matteo pegou uma de suas camisas espalhadas no chão e limpou o peito. Jogou a camisa em cima da mala dele (que estava uma bagunça) e indo em direção a porta, disse:

— Vou tomar um banho. Volto em alguns minutos.

Eu gostava daquilo. Gostava de ver as roupas dele espalhadas pelo meu quarto. Gostava de passar as madrugadas com ele, de ver o nascer do sol com ele...

Matteo não demorou muito no banho. Entrou frustrado pela porta e foi catando suas vestes do chão, parecia profundamente irritado.

— Eu preciso ir, já tá muito tarde... — disse ele ainda muito irritado.

— É literalmente cedo! O que houve pra você ficar bravo? — perguntei me levantando da cama e procurando um shorts para vestir.

— Preciso resolver um problema no trabalho.

— Te ligaram?

— O que é isso? FBI? Fica calmo, eu volto depois ou você me liga. Ok?

Ele me olhou com um sorriso forçado. Sorri de volta para não continuar insistindo.

Acompanhei ele até o portão, meio emburrado.

— Não esquece de me ligar depois. — disse com a mão no bolso.

— Ok. — ele segurava o cordão de sol que eu havia lhe dado alguns anos atrás em seu aniversário. Abracei-o fortemente e o vigiei atravessar a rua até o carro que estava do outro lado.

Fechei o portão e fui direto pro meu quarto. Passamos a noite inteira acordados e eu estava cansado, então resolvi dar um cochilo.

~★~

Meu pai e minha mãe já estavam em casa quando eu despertei. Eu simplesmente apaguei quando encostei na cama.

Estava escuro. Quanto tempo eu dormi? Desci as escadas e cumprimentei meus pais.

— Como foi a viagem? — perguntei.

— Bem, foi o de sempre... — minha mãe foi dizendo enquanto tirava a bolsa de seu ombro e a jogava no sofá. — Seu tio embebedou-se até às tantas e sua tia passou a madrugada brigando com ele.

— Acho que dessa vez eles irão se divorciar. — papai disse.

— Dúvido muito, querido. Isso praticamente virou rotina do relacionamento deles. — respondeu minha mãe. — E você querido, como foi o final de semana? — ela se dirigia a mim.

— Hum...foi legal. Matteo veio aqui e nós ficamos jogando videogame, assistindo filme...

— Hahaha, — meu pai me interrompeu. — sei bem que tipo de filme...

Minha mãe beliscou-o e ele resmungou baixo. Senti meu rosto corando.

— Vou subir e arrumar meu quarto. — disse já subindo as escadas.

Entrei no meu quarto e ele estava uma verdadeira bagunça. Juntei minhas roupas e fui separando por limpa, quase suja e suja. No meio delas, achei uma camisa do Matteo. Coloquei no monte de "quase suja" e voltei ao trabalho.

Conheço Matteo desde que éramos muito pequenos. Ele sempre viveu na minha casa e eu na dele, por mais que o padrasto dele não goste muito de mim.

Matteo sempre foi uma pessoa de personalidade forte e um pouco teimoso; quando pequeno, ele já brigou pelo fato de um colega nosso chamar o Homem-Aranha de ridículo. Confesso que foi engraçado...

No início, era realmente difícil lidar com ele. Mas com o tempo, você percebe que no fundo, bem no fundo, ele é uma pessoa legal. Bem, bem, bem no fundo.

Eu não sei bem quando começamos a agir assim, mas recordo de uma vez em que peguei-o olhando pra mim. Os olhos dele brilhavam. Ele estava calmo e sério, mas seus olhos jorravam alegria. Eu podia senti-los sorrir pra mim.

Pensando bem, já faz uns anos que eu observo ele com outros olhos. Eu reparava em tudo; sua expressão, seus suspiros, sua movimentação, seu sorriso...eu parecia um louco.

Matteo é muito mais do que um melhor amigo... Ele me conhece da cabeça aos pés, de sul a norte, de leste a oeste. Ele conhece o meu coração.

Eu terminei de separar os montes e comecei a dobrar minhas roupas limpas. Meu celular começou a zunir e caiu da cabeceira da cama. Peguei e vi que eu tinha cinco chamadas perdidas de um número desconhecido. O número me ligou de novo. Infelizmente.

— Alô?

— Luke? Luke é você? — dizia uma voz grossa e preocupada. Era o senhor Carter, padrasto do Matteo.

— Edgar? — perguntei.

— Luke nós estamos no hospital. O Matteo sofreu um acidente de carro. — ele disse aflito. Desliguei a chamada e desci correndo as escadas gritando pelos meus pais.

— O que aconteceu querido? — minha mãe perguntou largando o pano de prato que estava em seu ombro e retirando o seu avental. Meu pai ajeitou o óculos a espera de uma resposta.

— O Matteo sofreu um acidente e está no hospital! — disse quase gritando com a voz um pouco falha.

Eu não precisei falar mais nada, minha mãe puxou a bolsa do sofá e meu pai pegou as chaves do carro. Fomos para o hospital Lintford-Oregon, aqui em Portland. Eu tentava me manter calmo e positivo, mas centenas de coisas pessimistas passavam pela minha cabeça.

Quando chegamos, meu pai não achou lugar para estacionar, então eu abri a porta e fui correndo para dentro do hospital. Eu tinha uma prioridade naquele momento. Eu precisava vê-lo.

Naquele momento eu queria viver um filme de drama e entrar no hospital correndo atrás dele. Mas havia toda uma burocracia, nem mesmo os pais dele entraram, estavam sentados em uma sala de espera; alguma testemunha do acidente chamou a ambulância pra ele e o outro motorista.

Era desgastante e agonizante ver médicos indo de um lado pro outro. Meus pais se juntaram à nós, a Sra. Olívia já estava desesperada por notícias e nós finalmente tivemos.

Matteo morreu em uma segunda-feira, dia 19 de junho de 2017. Seu enterro foi no dia seguinte, na terça, exatamente duas semanas antes do dia 4 de julho, o dia em que eu daria um passo na nossa relação. Ele foi levado para o hospital porque ele capotou o carro enquanto voltava pra casa. Segundo o Sr. Carter, não restou nada além do corpo, roupas e do cordão.

Quando eu dei aquele cordão para Matteo, eu queria dar a ele uma característica única: queria transforma-lo no meu sol. Mas naquele momento, eu não fazia mais parte do seu sistema solar. Meu sol explodiu e levou tudo que eu tinha.

Eu não tive coragem de ir ao seu enterro; eu sabia que iria chorar mais e mais vendo o corpo dele sendo velado. Eu não suportaria e não suporto esse sentimento que brotou no meu coração. É algo muito além da dor e do amor.

Tudo o que criamos, todo o tempo que gastamos...o luto faz você se arrepender de tudo isso, porque talvez tivesse sido menos doloroso; no fundo você sabe que teria sido a mesma coisa.

SUMMERLeia esta história GRATUITAMENTE!