L1|| XXV. Outras Formas de Heroismo

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Flavio parece exasperado. Devo ter cutucado algo que ele guarda em si á sete chaves.

Ele se sente diferente dessas pessoas por ser de um lugar diferente delas?

Oh.

...Exatamente como me sinto.

— Mas que se dane, por que eu estou aqui! E fiz por merecer pra estar aonde estou. Estudei, trabalhei, treinei. E mesmo assim, não sou melhor nem pior que ninguém! Se eu moro na periferia, dane-se! Se de onde você é as pessoas comem flores, dane-se! A gente tá aqui e esse lugar é tão nosso quanto de qualquer outra pessoa! — Ele fala com convicção.

As palavras de Flavio, combinadas com o fogo em seus olhos, acendem algo dentro de mim.

Eu não entendo o que quero fazer.
Mas o faço, por que eu sou assim.

Eu o beijo por que quero.
Por que neste momento o desejo.

Nele se refletem tudo o que tenho em mim: minha ânsia por melhora, meu desejo incontrolado por lutar por uma melhor realidade, a diária batalha que é manter uma jovem mente focada num sonho, especialmente no meio dessa vida tumultuosa e interdimensional de paixões imediatas e passageiras.

Eu nunca beijei ninguém antes.

Aliás, desde quando vi a prática pela primeira vez achei estranhissima. O que dava num ser para que quisesse colar sua boca na de outra pessoa?

Agora eu sei.

A princípio, apenas forço meus lábios contra os dele. Depois de alguns segundos estou imóvel, daí me afasto.

Ele não fala nada, só me olha em silêncio, feição indecisa.

— Desculpa, e-e-eu não sei o que... — Tento me explicar, mas não sei nem o que dizer, mil palavras dançam em minha boca e nenhuma faz sentido. — É que me deu vontade e eu fiz o beijo.

Flavio franze o cenho de leve e acaba por rir um pouco. 

— Cali, acho que você "fez o beijo" errado. 

— Como assim? O que fiz de errado?

— O que fez de errado foi parar de me beijar. — Flavio delicadamente coloca uma mão em cada lado do meu rosto, e me beija novamente. Me surpreendendo, lentamente adiciona sua lingua e a faz explorar minha boca. Descordenadamente, sinto a vontade de fazer o mesmo. O calor em seus lábios passam para os meus e vice-versa. Não há nada a se pensar, nem a se dizer. Vejo seus olhos fechados, e tento copiá-lo. Explorando mais e mais esse ato do qual nunca tinha partilhado.

Ali, na calçada em frente a sua faculdade, ficamos a nos beijar, sem se importar com onde estamos. Afinal, isso não importa. Assim como não importa de onde somos. O que importa é quem somos e o que fazemos.

Um beijo.
Delicado e avassalador.
Dois mundos literalmente colidindo.

Que tipo de magia é essa?

Que tipo de magia é essa?

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