CAPÍTULO 4

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Soldados do Clã

          Após o desjejum, Kiki ficou encarregada de levar as novatas ao mercado. Elas deveriam comprar os itens que estavam em falta na despensa da casa. Artemísia tentou argumentar para não ir, pois ainda temia ser perseguida por soldados do Clã, mas como ocultava sua verdadeira história, não conseguiu encontrar argumentos que convencessem Petra a deixá-la ficar. Petra imaginou que Artemísia estivesse com preguiça de ir ao mercado, então lhe deu mais uma tarefa, comprar tecidos para a confecção de roupas para as novatas. Assim, Artemísia se juntou a Kiki e mais três meninas, que seguiram para o mercado, no centro de Abaeté.

          A Casa de Yby era uma espécie de fazenda, uma verdadeira clareira em meio a uma mata fechada. As meninas mais jovens gostavam de brincar, subindo nas árvores; Artemísia sempre preferia observar os treinos, na arena, forma como Yby chama o grande pátio construído para as lições de Artes Marciais.

          Após atravessar um estreito caminho entre as árvores, as meninas chegam até a estrada de terra que leva à pequena vila que antecede o centro da cidade. Elas fazem uma longa caminhada antes de chegar à velha rua de pedras retangulares, a mesma em que Dandara encontrou Artemísia pela primeira vez.

          Ao chegar na vila, Artemísia tem um mal pressentimento e fica mais calada do que de costume. Kiki percebe a mudança, mas não pergunta nada.

          — Meninas! Acho melhor a gente se dividir... assim faremos as compras mais rápido. — Kiki diz. As três novatas gostam da ideia.

          — E onde a gente vai se encontrar, depois das compras? — Uma das meninas pergunta.

          — Eu vou com Artemísia comprar os grãos, os condimentos e os tecidos; vocês três compram os produtos de higiene pessoal, de limpeza e os doces; depois nos encontramos no armazém pra comprar os itens mais pesados e alugamos um drone pra levar tudo até a casa. — Kiki explica. Todas concordam. Kiki passa alguns créditos para o bracelete de uma das meninas do outro grupo. — Então, vamos... quero chegar em casa antes do almoço.

          Os dois grupos se separam.

          Kiki e Artemísia vão escolher os grãos nas barracas. A garotinha ruiva solicita que as sacas sejam levadas para o armazém, o dono já estava acostumado a receber as mercadorias da casa de Yby e já sabia que elas passariam por lá por último, para realizar compras.

          Enquanto Kiki se distrai, conversando com um comerciante, Artemísia vê soldados do Clã se aproximando. Ela entra em pânico, Kiki não percebe. Sem dizer nada, Artemísia cobre a cabeça com o capuz de seu manto e segue para a loja mais próxima.

          Quando Kiki vai pedir a opinião de Artemísia, percebe que sua amiga não está mais perto dela. A ruivinha olha para todos os lados, então vê Artemísia, com o capuz na cabeça, entrando na loja. Kiki pede um momento ao comerciante e sai correndo, mas tromba em um homem. Os dois quase caem.

          — Ei, pirralha! Preste atenção por onde anda. — O homem diz. Kiki mostra o dedo do meio para ele e sai apressada. O homem fica irritado, mas quando se move para ir atrás da menina uma voz feminina chama por ele.

          — Arûara! Não temos tempo pra brincadeiras. — Uma mulher muito bonita diz. O homem deixa Kiki em paz e segue o seu caminho.

          Dentro da loja, Artemísia está parada diante de algumas mercadorias, mas seu olhar parece distante.

          — Ei! — Kiki diz enquanto coloca uma mão sobre o ombro direito de Artemísia, que fecha os olhos e suspira fundo. — O que foi? Não está se sentindo bem?

          — Eu não devia ter vindo... — A filha do Clã diz, enquanto sua palidez só aumenta.

          — Pode confiar em mim... o que está acontecendo? — Kiki pergunta, solidariamente. Artemísia decide contar.

          Kiki ouve a história da amiga. Artemísia conta tudo sobre a forma como ficou sozinha no mundo. Conta sobre a pena de morte, imposta pelas tradições do Clã a quem desobedece regras seculares, como a de ser negado o acesso às salas sagradas a todas as mulheres. Artemísia fala sobre o dia em que sua mãe tirou a própria vida deixando-a entregue à sorte e sobre o seu sequestro, nesse mesmo dia.

          — Puxa! E eu pensando que minha vida é difícil... — Kiki comenta, meio chocada. — E quem te sequestrou? Pra onde te levaram?

          — Isso já não importa, Kiki. Dessas pessoas eu consegui fugir, mas dos soldados do Clã não há fuga. Sei que um dia eles vão me achar e...— Kiki interrompe Artemísia.

          — Não! Eles jamais irão te encontrar. Não conte essa história pra mais ninguém na casa; Yby pode não querer você por perto, por isso... mas todas nós iremos te proteger, mesmo que só eu saiba sua verdadeira história. — A ruivinha fala, sorrindo. Artemísia sorri de volta. — E quando foi que tudo isso aconteceu?

          — Há seis meses. — Artemísia diz, com pesar.

          — Seis meses? Puxa! Você é muito forte... Fique aqui. Vou lá fora ver se os soldados já foram embora, então continuaremos nossas compras. — Kiki diz e sai da loja. Artemísia se sente aliviada por ter compartilhado sua história com alguém e por sentir que pôde encontrar uma verdadeira amiga na Casa de Yby.

          Kiki retorna à loja.

          — Venha logo! Eles foram para o outro lado.

          As duas saem apressadas da loja. Quando as duas viram uma esquina, os soldados do Clã aparecem novamente, agora, com um comandante loiro seguindo à frente deles. O comandante entra na loja onde estava Artemísia.

          — Meu caro Jove! A que devo a honra de sua presença em minha loja? — O dono da loja diz, do outro lado do balcão. Jove tira o capuz da cabeça, fazendo com que seus olhos azuis brilhem como joias.

          Kiki e Artemísia conversam, enquanto seguem para o armazém.

          — Por que não há adultos na Casa, Kiki?

          — É assim em todas as Casas mercenárias. Sempre que alguém faz 21 at deve seguir seu próprio caminho, faz parte do treinamento. Alguns mercenários adultos retornam às suas Casas de origem para treinar os veteranos, mas há todo um ritual pra isso e há o tempo certo também. — A menina explica. — Veja, as novatas já estão esperando por nós!

          As meninas concluem a tarefa do dia. Elas alugam um drone aéreo, que leva as mercadorias até a Casa, então retornam pela estrada de terra, correndo, rindo e fazendo brincadeiras próprias da idade. Artemísia parece feliz.

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