Trinta e cinco - Tobias

126 25 5

Aquela porcaria daquele castelo era gigantesco.

Quer dizer, ele não estava fazendo mais do que seu papel como castelo, mas era um detalhe inconveniente, principalmente porque eu precisava escanear todos os corredores sem chamar muita atenção para tentar achar Sebastian.

Quase desejei ser um gato de novo.

Quase.

Vi quando Trent encontrou a princesa e decidiu dançar com ela. Eu tinha certeza de que ele devia ter algum desejo suicida secreto, porque não era possível. Desejo suicida e hormônios demais, claro, já que ele não parecia conseguir ficar com as calças no lugar, mesmo que a vida dele - e a minha - dependesse disso.

Mas eu tinha coisas mais importantes para fazer.

Se eu me lembrava bem do castelo e conhecia pelo menos um pouco da índole de Quentin, Sebastian só podia estar em um lugar: o alto das torres. O problema era que, como o próprio nome sugeria, o alto das torres ficava no alto e isso significava que eu precisava subir as mesmas escadas pelas quais Alice tinha descido sem chamar a atenção. Porque é claro que aquilo ia dar certo. Porque é claro que ninguém ia me ver.

Passei por mais um garçom e peguei um salgadinho que eu não fazia ideia do que era. Tudo o que eu sabia era que estava bom e que eu precisava de mais, então esperei que ele voltasse e enchi a mão. Enquanto eu comia, fiquei ali parado pensando em como eu queria poder voar para consegui espiar as torres do castelo, como Mustafa fazia.

Mustafa.

Terminei de enfiar os salgadinhos na boca e caminhei o mais rápido que pude para a saída. Eu não queria correr para não chamar a atenção, mas duvidava que fosse fazer alguma diferença, porque assim que me aproximei das portas, os guardas fecharam meu caminho com duas longas lanças.

- Nenhum convidado pode sair antes do fim da festa, senhor. - disse um deles. - Nosso príncipe Quentin Augustini quer que todos aproveitem até o último instante.

O que, claro, era ridículo.

- Hum. - eu disse. - Acontece que eu esqueci uma coisa na carruagem.

- Uma coisa.

- Uma coisa importante.

Um deles balançou a cabeça.

- Sinto muito, senhor. Ninguém pode sair daqui. Mas o senhor pode ir até o pátio oeste se quiser tomar um ar.

Mas o senhor pode ir até o pátio oeste se quiser tomar um ar.

Bufei internamente, mas, como sou uma pessoa educada, assenti e dei meia-volta. Eu não queria visitar o pátio oeste, porque me lembrava muito bem de que não havia absolutamente nada ali, a não ser um chafariz muito sem graça e alguns vasinhos com flores. Mas, pelo menos, se eu fosse lá conseguiria ter uma visão das torres e talvez recebesse alguma luz sobre o que fazer.

Caminhei pelo salão como quem não quer nada, interceptando mais um garçom para comer mais alguns salgadinhos. Eu já estava sentindo minha calça ligeiramente mais apertada, mas o que eu podia fazer? Comida é uma coisa que não deve ser recusada, principalmente quando não dá para saber quando vai ser a próxima refeição. Até onde eu sabia, Quentin podia me capturar e me prender e então eu precisaria de toda a energia possível para escapar.

Resumindo, eu precisava comer.

Ainda com a boca e mãos cheias, cheguei ao pátio oeste. Dali, era possível ver a cidade ao longe, as fumaças subindo das chaminés e se misturando com as poucas nuvens no céu. Dava para ver pessoas andando ocupadas pela rua e, se eu virasse para o outro lado, conseguia ver três das quaro torres do castelo. O único problema, claro, era que eu não conseguiria voar e também não conseguiria chamar Mustafa sem que todos os guardas se alarmassem ao verem uma carruagem desgovernada invadindo a festa.

Coração de vidroLeia esta história GRATUITAMENTE!