Prólogo

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O universo é como um pingo de tinta negra caindo sobre uma tela branca. A tela em si, apesar de sua complexidade, representa o nada. A vastidão do branco, com textura e defeitos, ainda permanece branca e sem sentido.

O pingo negro contendo um pouco de todas as cores e de todas as intensidades pinga e respinga, espalhando as suas cores pela tela.

Nos primeiros instantes, o pingo se quebra e se espalha. Os rabiscos formam desenhos incertos e incoerentes, mas, conforme é moldado, traz formas e desenhos que representam algo que pode ser vivido e observado.

Com o passar do tempo, diversas telas são pintadas com diferentes tons e artes, representando um momento da história do universo. Algumas são perdidas e outras são guardadas na memória ou fisicamente...

Hoje, algumas dessas telas estão penduradas nas grandes paredes da grande Torre de Pedra, na cidade de Porto de Pedras, na Costa Vazia.

Muitas delas retratam a vinda dos homens do Oeste em suas embarcações de velas amarelas com a estampa do sol, de um lugar chamado Ímpera.

Sabe-se sobre Ímpera e o povo que veio de lá, é sabido que com eles veio uma maldição. Algo que é temido por muitos e mantido em segredo por outros. É impossível dizer se o segredo causa mais medo do que a verdade, isso se a verdade saísse do cofre onde é trancafiada.

Desde de que os Homens do Sol puseram os pés na Costa Vazia, encontraram uma terra maldita e terrível. Ali, o sol mostrava pouco a sua cara e, mesmo com as chuvas constantes, a terra era tão ruim que pouca coisa era forte o suficiente para nascer naquele lugar.

Mas os Homens do Sol conheciam a magia. Algo que estava em seu sangue e em sua alma. Aos poucos, aquela terra maldita começou a se tornar um paraíso. Os ácidos da terra foram neutralizados e as chuvas controladas. Com muito empenho, a Costa Vazia se tornou um lugar cheio de vida, do mar até o Grande Rio, ao Leste.

Na beira-mar, onde os Homens do Sol pisaram primeiro, eles levantaram um grande obelisco, feito das poucas pedras que tinham trazido de Ímpera e com uma magia muito poderosa. Batizaram-no de Pira do Sol. Aquela magia traria o Sol em tempos de trevas e o manteria entre eles, ajudando a germinar as plantas e transformando aqueles campos negros em campos verdes.

Todas essas histórias são em parte criação do homem atual e pouco delas é verdade. Os quadros que ficam na Torre de Pedra são achados antigos e são retratados pelo homem moderno. Se esta história for verdade, pouco desta glória ainda resta pelo mundo.

Ao Norte, além das montanhas, havia um outro planalto, onde a família do Imperador do Sol construiu seu novo império. Ao Sul, outra família rica e tradicionalista construiu seu reino entre as montanhas e pântanos. Na Costa Vazia ficaram os magos, aqueles que tinham o poder para manter as coisas em ordem.

Com o tempo, as raças nativas foram contatadas e a sua língua foi compreendida. Ignorantes e sem o poder da magia, esses habitantes viviam e sofriam naquela terra sem futuro.

Logo a inveja tomou conta daqueles que viram os estrangeiros chegarem e terem sucesso onde eles mal conseguiam sobreviver. Então, vieram guerras e mais sofrimento.

Entretanto, os magos não tinham tempo a perder na guerra. Havia outra coisa para se preocupar. O segredo de poucos.

Estranhamente, o nível do mar havia diminuído nos últimos mil anos. Os magos foram sempre liderados por um Clarividente enlouquecido. Eles construíram a grande Torre de Pedra e instituíram o Círculo da Magia com o intuito de guardar o segredo dos Homens do Sol e manter as coisas em ordem.

Mas o segredo é uma joia que vale ouro. Ouro em um mundo de sofrimento e escassez. Onde apenas os ricos mantiveram o poder e o homem pobre ou carente de magia vive entregue ao destino.

Não são todos que pensam estar seguros ou que deixariam essa joiavaliosa na mão de poucos.

A saga dos filhos de Ethlon I - Porto das PedrasOnde as histórias ganham vida. Descobre agora