L1|| XIV. Céu e Peito Aberto

Começar do início

Eu raramente paro para conversar com Seu Jair quando Dr. Gregório está a seu redor. Prefiro reservar minha paciência para lidar com este tipo de homem todinha para Bauer.

Ainda assim ofereço um sorriso à Gregório também, mas ele não sorri de volta, apenas me olha confuso, como se estivesse vendo alguém com duas cabeças.

Então tá.

Passo meu crachá na catraca e apresso para o elevador. Quando tento abrir a porta do escritório com minha chave, vejo que está destrancada. Lena deve estar aqui.

Sobre a mureta de mármore a frente de minha mesa, dentro de uma longa sacola de plástico transparente, vejo o vestido de cor vermelha vibrante.

— É pra você. — Lena surge no corredor, óculos na ponta do nariz e papéis em mãos.

— É lindo, Lena. Obrigada!

— Tem sapatos de salto alto?

Nego com a cabeça. Ela vai até sua sala e volta com uma caixa na mão. Quando os abre me impressiono com quão altos são. Aliás, nunca tinha visto sapatos tão bonitos em toda minha vida! 

Pretos, salto agulha, com a sola vermelha.

— Experimenta. — Ela se escora na mureta a frente de minha mesa e me espera calçar-los.

Rapidamente troco meu fiél escudeiro all star branco pelo par luxuoso, que por um acaso é meu exato número.

— Nunca andei de salto, Lena. — Sou honesta. Tenho 175 cm de altura, já me sinto um poste.

— Ande até o sofá. — A baixinha parruda comanda e eu obedeço.

Como um mamute reumático, vou trotando desgraçadamente até o sofá vermelho, me jogando sobre ele ao alcançá-lo.

Lena põe os papéis que segura sobre minha mesa e vem até mim trotando seus próprios saltos com classe.

— Dobre um pouco os joelhos, Verena. — Ela é baixinha mas forte, me segura pelos braços e me ergue do sofá, pega minhas mãos e anda à minha frente, guiando-me. — Solte os quadris. Você está muito dura. — Obedeço e damos duas voltas completas na recepção. — Coloque o calcanhares no chão primeiro quando pisar, não a frente do pé.

Andamos mais três voltas e sinto que melhorei.

— É tão desconfortável. — Reclamo.

Ela concorda com uma careta, esticando a mão para alcançar meu cabelo.

— Para hoje a noite faça um coque lateral. Vai ficar lindo. — Ela observa meus cachos que hoje não estão em uma trança. — Seu cabelo é muito bonito, mas infelizmente não sabe usá-lo. — Ela diz mais para si do que para mim e ignora quando murmuro um agradecimento ao meio elogio meio ofensa.

— Aonde vamos, Lena? — Mudo de assunto.

— Dimitri não te disse? — Respondo que não com a cabeça. — Então eu é que não vou estragar a surpresa.

— Surpresa? — Me pergunto por que insistem nessa palavra. — Você vai também, né? 

Ela gargalha. 

— Não mesmo. Dispenso o clube do bolinha. 

— Eu vou ficar sozinha com eles? — Minha esperança era de que ao menos Lena me ajudaria com a socialização. 

— Não se preocupe, Verena. Parece que sim, mas o Dimitri não morde. — Ela pega novamente os papéis que deixara na minha mesa. — E com certeza não vai deixar ninguém te morder. — Inclina a cabeça e não sei o que quer dizer com isso. — De qualquer forma, divirta-se. — Ela dá um pequeno sorriso e sai, se trancando em sua sala.

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