Trinta e quatro - Alice

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Existem alguns momentos em nossa vida em que paramos e nos perguntamos: O que diabos eu estou fazendo aqui?

Era a segunda vez em alguns meses que eu me fazia essa pergunta, no mesmo lugar, com a mesma pessoa me esperando bem ali no topo das escadas. Da primeira vez eu tinha escapado, dessa vez não tinha tanta certeza assim.

Quentin estendeu a mão para mim. A última coisa que eu queria era encostar nele.

- Princesa - disse ele entredentes, quase inaudível. -, não vamos causar um escândalo.

Eu queria saber como descer as escadas sem pegar na mão seria um escândalo, mas achei melhor manter a pergunta para mim mesma.

Respirei fundo.

Era isso ou talvez ficar presa naquele quarto para sempre.

Estendi a mão, tocando na de Quentin. Ele estava firme, não estava suando nem nada, mas quando seus dedos se fecharam sobre os meus foi como se tivessem me sentenciado à prisão. Como se eu tivesse concordado com tudo o que estava acontecendo, o que eu evidentemente não estava.

Mas já que precisava fazer aquilo, pelo menos ia fazer com toda a dignidade que eu tinha.

Ergui a cabeça, segurei firme na mão de Quentin, sorri e comecei a descer as escadas.

Quentin ficou um segundo a mais que o necessário olhando para mim, o que levei como um sinal de que ele não esperava que eu fosse reagir tão bem à situação toda. Foi maravilhoso ver como ele ficou desconcertado.

Desci todos os degraus radiante, sem olhar uma vez para baixo ou para Quentin. Juntei todas as pessoas lá embaixo em um mar de rostos, sem me ater a nenhum deles, porque era mais fácil pensar assim.

Quando finalmente alcançamos o chão, depois do que me pareceram degraus infinitos, ele se virou para mim, fazendo uma mesura. Eu retribuí, fazendo o mesmo.

Então a música começou, as pessoas se afastaram e Quentin me puxou para o meio do salão.

Tinha tinha me falado sobre essa parte de dançar.

Quer dizer, eu não sabia dançar. Muito menos em um sapato de salto, com a atenção de todas as pessoas voltadas para mim - pessoas que provavelmente esperavam um pequeno espetáculo da minha parte ou algo assim.

Olhei para Quentin com um ligeiro desespero nos olhos, mas ele, obtuso que era, não pareceu perceber que havia alguma coisa errada. Ele simplesmente me puxou para perto de si e começou a balançar no ritmo da música - que era muito lenta, por sinal, o que significava que nossos corpos tinham de ficar colados.

E ter meu corpo colado no de Quentin, mesmo com camadas e camadas de tecido me separando dele era a última coisa que eu queria na vida, obrigada.

Mesmo assim, ele começou a me balançar, a me levar para cá e para lá. Eu precisava ficar concentrada nas minhas próprias pernas, porque tinha a completa sensação de que se eu me descuidasse, ia tropeçar no vestido e me esborrachar no chão. Por causa disso, tentei olhar para baixo, encontrar meus pés e ter certeza de que não ia passar um vexame.

Quentin apoio o indicador no meu queixo, me fazendo olhar para cima.

- Você não pode dançar olhando para baixo - disse ele. - Tem que olhar para mim.

Só que eu não queria fazer isso, porque cada vez que eu olhava para os olhos azuis dele, eram os escuros de Jax que eu queria ver. Cada vez que tomava consciência de como o corpo dele estava apoiado no meu, era do de Jax que eu lembrava. Cada vez que nós nos mexíamos ao som da música, era com Jax que eu queria estar.

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