O Governador das Masmorras - O Ventre de Pedra - Cap. 1: Em Ancar

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Cap. 1 - Em Ancar 

– As cinzas levantaram-se com o vento naquela manhã...

– Eu testemunhei o que aconteceu do alto dos céus...

– Não pude ver tudo... Não pude ouvir tudo... Ainda assim tentei ver e ouvir tudo o que fosse possível...

– Tentei até mais... No entanto o que aconteceu estava fora do meu alcance...

A voz dela era linda; a voz de uma jovem donzela inebriante e sedutora. No entanto ela falava como se estivesse em um transe. Como se não possuísse consciência do que estava dizendo. Ela prosseguiu...

– Os navios inimigos se aproximaram do porto durante a madrugada sem que ninguém os notasse; nem os sentinelas e nem eu percebemos um sinal sequer das embarcações nas águas do mar durante as horas de escuridão. – Ela sorriu enquanto falou, mas não era um sorriso agradável. Era um sorriso carregado de desdenho. Mas era difícil imaginar a quem aquele desdenho todo se destinava.

– Foi como se os navios inimigos estivessem navegando envoltos em um véu que os tornava invisíveis... Se fossem somente inimigos comuns; um bando qualquer de saqueadores, eles não contariam com um artificio tão engenhoso... Havia algo errado... Muito errado... Naquela manhã traiçoeira... E eu não fui capaz de perceber... Não fui capaz... – Ela terminou a frase quase sussurrando. Escorria suor do seu rosto. Ela ficou em silêncio durante alguns instantes, mas aqueles instantes pareciam uma eternidade para ela e também para aquele que a ouvia atentamente.

– O ataque veio... Rápido e violento... Os canhões do inimigo dispararam impiedosamente contra os fortes costeiros e contra um vilarejo a beira mar; alvos pegos totalmente desprevenidos. Um caos completo de explosões e chamas. Em seguida os navios aportaram e seus tripulantes rumaram como bárbaros selvagens carregando espadas e pistolas. – Ela retomou sua narrativa. Falava como se estivesse reportando um relatório para o seu ouvinte. A voz doce e sedutora não tinha emoção. De certa forma aquilo não deixava de ser um relatório; um relatório na forma de uma testemunha viva.

– Os soldados de Ancar responderam enviando quase todo o seu contingente para o porto, com isso conseguiram refrear a invasão não deixando os inimigos alcançarem as rotas que levavam até o centro da cidadela... – Ela interrompeu-se momentaneamente antes de prosseguir. – Tolos e presunçosos... Acharam que o inimigo era o que o inimigo mostrava ser... Foi o que os condenou e condenou a todos nós. – Ela balançava a cabeça em negativa enquanto falava. Mas os seus olhos pareciam não seguir o movimento da cabeça, continuavam fixos no ouvinte logo a frente. Na verdade os olhos dela nunca desviavam dele. Ela nem mesmo piscava. – No entanto... – Prosseguiu ela.

– Ancar  foi surpreendida novamente... O ataque veio de onde menos se esperava... Escravos e plebeus se rebelaram aproveitando que àquela altura o centro urbano contava com apenas um pequeno número de soldados para proteger o centro; a população estava a mercê da fúria dos rebeldes que empunhavam ferramentas como armas e também algumas pistolas e alguns barris de pólvora que só poderiam ter chegado às suas mãos através do contrabando... Tudo planejado... – Seu corpo estremeceu brevemente enquanto ela tentava articular a próxima palavra. – E Ancar mordeu a isca... E eu fui enganada... Enganada... Enganada... Juro que fui enganada... – Completou ela e mesmo que sua voz não possuísse nenhuma nota de emoção era possível deduzir que em seu íntimo haviam emoções que a atormentavam profundamente... A maior delas talvez fosse o medo.

– Aflita eu foquei toda a minha atenção na casa em que as duas estavam; a “Filha” e a “Filha-da-filha”... Elas estavam em perigo... – Disse ela e após isso parou de falar enquanto um sorriso se formava em sua face, mas antes mesmo do sorriso se completar um leve tremor devolveu a ela a expressão entorpecida, alheia e mecânica. E sua narrativa prosseguiu.

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