CAPÍTULO 2

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Escolhas

          No templo do antigo mestre Ybytuura, Jove aguarda por Andyrá, o atual mestre e também seu grande amigo. Um dos discípulos indicou o jardim a Jove, pois mantinha um clima agradável àquela hora em Marte.

          Andyrá se aproxima. Jove continua com os olhos fechados.

          — Quando você me falou, há alguns at, que eu teria uma filha e que um dia eu deveria escolher entre ela e o Clã, não pude deixar de lembrar de suas palavras quando a peguei nos braços, assim que nasceu, e pude me ver nos olhos dela. O amor que ela despertou em mim me fez duvidar da sua profecia, mas ela se cumpriu e eu não estava pronto para poder escolher... — Jove diz, ainda sentado ao pé da cerejeira e com os olhos fechados.

          — Meu caro Jove, independente da sua vontade, a escolha foi feita e o destino da sua Artemísia agora está selado, não há volta. — Andyrá diz, serenamente.

          — Então a menina ainda vive? — Jove pergunta, enquanto abre os olhos e os direciona ao     amigo.

          — Sim, ela vive... mas você nunca mais poderá se encontrar com ela.

          — Não há motivo para que eu não possa vê-la... A mãe da menina tirou a própria vida, seu corpo foi levado para a cidade do Clã. Diante dessa tragédia, forjei a morte de Artemísia para que o Conselho não a condenasse. Ninguém sabe que minha filha ainda vive.

          Andyrá se aproxima do amigo, se abaixa e põe sua mão direita sobre o ombro dele.

          — Entenda, meu amigo, se você entrar em contato com Artemísia agora, todo o destino dela estará comprometido.

          Jove fica sério.

          — Posso ao menos saber que destino é esse?

          — O destino dela é a Eternidade. Não o tipo de eternidade almejada pelos mortais, mas o tipo de eternidade que somente os deuses conhecem. — Andyrá diz, olhando nos olhos do amigo, como se quisesse dizer algo além das palavras. Jove fica pensativo, como se tivesse compreendido a mensagem oculta do mestre.

          — Sempre fui muito frio e distante com ela. Carrego uma tristeza muito grande por saber que ela jamais entenderá o quanto a amo... — Jove diz, com pesar. Andyrá olha para a espada no chão.

          — Me dê sua espada. — O mestre diz, enquanto se levanta. Jove entrega a espada para o amigo.

          Andyrá ergue a espada e diz palavras em um idioma antigo. A espada parece absorver os raios do Sol, junto de uma parte da energia vital de Jove. Após alguns instantes, o mestre fica em silêncio, abaixa a espada, suavemente, então a entrega a Jove, que está de pé.

          — Tome. Vai chegar o dia em que você deverá entregar essa espada para Artemísia, mas ela não poderá te ver.

          — Essa espada só levará dor para Artemísia, pois foi por tocá-la que ela se tornou sozinha nesse mundo. — O filho do Clã diz, com tristeza, se lembrando do dia em que viu Artemísia erguendo a Espada Ancestral de sua família, na sala sagrada em sua casa.

          — Não. Essa espada revelará a verdade à sua filha e, no momento certo, libertará Artemísia de todo o sofrimento que ela acumulará em sua vida. E não se preocupe, ela saberá o quanto o pai dela a amou. — Andyrá diz, com um sorriso que inspira a paz.

          Um dia a verei novamente? — Jove questiona.

          — Sim. Mas ela não poderá te ver, nunca, entendeu?

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