Capítulo 26

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HELLEN

Como é possível amar alguém sem sequer o conhecer? Pois é, muitos achavam loucura quando eu afirmava amar alguém, mas ninguém o via. Não entendiam que essa era prova de algo que eu não conseguia ver, ainda. Era fé.

Todas as noites, antes de dormir, orava pelo meu esposo. Sim, como se ele já estivesse ali comigo, orando e compartilhando daquela comunhão com Deus. Eu pedia que Ele o protegesse, guiasse em seus caminhos, ajudasse a tomar decisões e a fazer o melhor em Sua obra.  Isso de certa forma aplacava um pouco da minha saudade que por vezes insistia em aparecer e apertar sem dó. Saber que Deus estava cuidando dele naquele momento, chegando onde eu não poderia alcançar me confortava, me dava ânimo para seguir a vida e me preparar para o grande dia.

A bíblia diz que "a oração do justo pode muito em seus efeitos" (Tiago. 5:16). Eu cri, e isso fez toda a diferença. Minhas orações foram ouvidas pelo meu Deus, que prontamente estendeu as suas mãos sobre Marcos, ajudando-o em cada fase de sua vida, até que nossos caminhos se encontraram. Era com alegria que eu levava agora o título de sua companheira. E se Deus nos permitisse, muito em breve estaríamos noivando e entrando na igreja, firmando aquele propósito que Deus escrevera para nós.

Era uma nova fase de descobertas e grandes emoções. Seu respeito por mim e pelo nosso Deus me cativavam a cada novo dia. Sua dedicação na obra também me admirava. Quando ele fechava os olhos cantando, abrindo os braços em eterna rendição, ele transbordava do Espírito Santo, me contagiando. Pedi a Deus por um alguém que me levasse para mais perto dEle, que me fizesse ainda mais crente, que me motivasse a buscar maior intimidade com o Criador. Queria alguém que fosse maduro espiritualmente, com quem pudesse discutir sobre experiências com Deus. Até nisso Ele foi perfeito no que fizera.

A escolha certa de Deus para você te fará uma pessoa ainda melhor.

À medida que o tempo passava, nossa amizade e cumplicidade aumentava  a olhos vistos. Começamos a planejar nosso futuro e colocar tudo no papel. Tínhamos a certeza de que Deus havia nos unido, só precisávamos nos organizar quanto ao casamento.

Lídia estava mais enérgica que nunca, sempre me enviava a foto de algum vestido de noiva que ela estava de olho, ou uma decoração de igreja. Até um quadro com os dizeres "Just married" ela escolheu para mim! Enfim, estávamos muito animadas com essa nova fase. Lídia havia passado por muitas coisas em sua vida, sua família não era propriamente atenciosa com ela. O pai havia deixado a família quando ela tinha cerca de cinco anos de idade. A mãe nunca superou esse trauma, deixou sua única filha em um orfanato e foi viver a vida "livremente".

Ao completar dezoito anos, Lídia já estava cursando uma faculdade de direito e trabalhava em um pequeno escritório de advogados, mas que lhe dava uma renda boa para viver. Procurando sua independência, deixou o orfanato quando completou dezenove anos. Alugou uma casa e tomou as rédeas da sua vida. Ela é como uma irmã que nunca tive, a minha família são os parentes carinhosos que ela nunca teve, então viver esse momento comigo tem sido um dos pontos mais altos da sua vida. Espero receber notícias semelhantes da parte dela em breve. Oro por isso, ela merece o melhor de Deus para a sua vida.

Apesar de também estar empolgado com os acontecimentos recentes, meu pai não tem tanta paciência para ir às compras como minha mãe, que já me acompanha na compra de alguns utensílios para a casa. A princípio achei ser muito precipitado fazer o enxoval tão cedo, mas algo me fez sentir que precisava me apressar nessa organização, que havia algo mais me aguardando, nos aguardando.

A irmã Ângela nos visitava todos os domingos. Ambos almoçavam conosco todas as semanas. Eram momentos muito satisfatórios para todos. Dessa forma, nossas famílias se conectaram ainda mais. O irmão Miguel ainda fazia falta. Embora não o tenha conhecido, via a lacuna que ele deixara na família. Sempre havia um silêncio que deveria ser preenchido por ele. As lágrimas podem ter cessado, com a certeza de que ele já estava com Deus, mas as lembranças e a saudade ainda permanecia, como um manto fino sobre a família.

Ainda assim, Marcos e sua mãe pareciam muito felizes e confortados pelo Senhor, que realmente estendera as suas mãos potentes sobre eles nos últimos meses. O próprio Marcos amadurecera muito desde então, principalmente na área espiritual. Dizem que a dor nos aproxima de Deus. Eu creio nisso, tenho visto com os meus próprios olhos. Os momentos baixos em nossa caminhada com Deus são inevitáveis, mas eles sempre nos deixam aprendizados eternos e nos capacitam para uma obra muito maior que só entendemos com o passar dos anos.

Embora ainda não compreendesse o plano de Deus na sua integralidade, estava confiante de que Ele estava cuidando de tudo nos mínimos detalhes.

MARCOS

Conhecer a família de Hellen mais de perto estava sendo uma das melhores experiências da minha vida. Seus pais tinham muita história para contar. Eu procurava retirar o máximo de conteúdo de nossas conversas. Como o irmão Adalberto havia conhecido a esposa? Como teve a certeza de que era a pessoa para a sua vida? Que dificuldades enfrentaram juntos? E com o nascimento da filha?

Após um tempo percebia que estava entrevistando meus sogros! Era algo muito interessante. Acredito que quando amamos a profissão que exercemos, apagamos a linha que divide a vida real do nosso trabalho, unindo ambos como um só. Para mim estava sendo de grande proveito ouvir alguns conselhos daquele casal que já vivera muitas fases e sobrevivera a todos os "piores dias" e a todas as "piores discussões".

Sempre voltava para casa muito reflexivo. Muitos se diziam traumatizados depois de conhecerem a realidade do casamento, suas lutas e dificuldades de cada dia. Eu preferia vê-las como um instrumento de Deus para nos aperfeiçoar como pessoas e nos aproximar ainda mais como casais. As lutas nunca tiveram o objetivo de nos derrubar e fazer desistir de tudo, mas sim de nos fazer mais fortes e maduros, e compreender que juntos podemos enfrentar qualquer desafio em Deus.

Compreendendo tudo o que envolvia a nossa decisão, percebi que já estava preparado para avançar com o plano de ser o futuro esposo de Hellen. Um ano e meio havia se passado, estávamos estabilizados financeiramente, e meu pai deixara uma casa no meu nome quando completei dezoito anos, um presente de casamento, ele me dissera. Na altura não entendi porque ele estava me presenteando com tanta antecedência, sabendo que não havia ninguém no horizonte. Mas havia um sentido. Era parte da herança que ele deixara para mim. Não tão importante quanto seu legado espiritual, mas ainda assim, um grande presente.

Conversei com a minha mãe sobre um noivado iminente. 

---- Mãe, estava pensando em levá-la para comprar a nossa aliança de casamento. Há alguns meses atrás percebi que Hellen usava o mesmo número de anel que a senhora. Isso me poupa algum trabalho de perguntar sem levantar suspeitas.

---- Ora, me sinto honrada! ---- Ela sorriu e me abraçou. ---- Vamos lá, precisamos fazer uma surpresa para a minha norinha. Já imagino a carinha dela quando receber o pedido!

Ela saiu saltitando pela casa, como nunca havia visto. Foi logo se arrumar para iniciarmos a nossa caça ao tesouro. Essa era a primeira parte. A segunda seria descobrir uma forma inovadora para pedir a sua mão em casamento. Essa seria a melhor parte!

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Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!