Capítulo 24 - Marcos

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Após sanar todas as minhas dúvidas, precisava dar o passo que me cabia. Era chegado um dos momentos mais difíceis da história do homem: conversar com os pais da moça. Apesar de achar que deveria conversar com Hellen antes, queria fazer-lhe uma surpresa. Por isso nem pude compartilhar o nervosismo com ela.

Marquei um dia no calendário do meu escritório, e nos dias que antecederam, meu coração bateu mais rápido do que o normal. Uma semana me separava do grande momento. Marquei um domingo à tarde para visitar os meus futuros sogros. Sabia que Hellen estaria na evangelização, então não haveria risco nos encontrarmos, de alguma forma. Perderia aquela tarde, mas era por uma boa causa.

Enquanto o domingo não chegava, caminhava pela casa, procurando algo para fazer e passar o tempo mais rápido. Não era fácil, quando em meus pensamentos só vinham seu sorriso e sua voz. De todas as vezes que minha ansiedade parecia forte demais, paralisante demais, procurava conforto aos pés do meu Senhor. Já era uma tática antiga, me ajoelhava ao lado da cama e me derramava em lágrimas, pedindo a Deus que fizesse em mim a sua vontade e me desse paz e tranquilidade para viver o momento do cumprimento de suas promessas.

Procurei também conversar com ela normalmente, sem dar qualquer indícios do que estava planejando. Quando por acaso o assunto pendia para esse lado, fugia ao tema tranquilamente.

Minha mãe tentava de todas as formas me confortar. Acredito que, como todas as mães e avós, ela acreditava que não havia nada que uma fatia de bolo e um copo de suco não ajudasse. Em parte estava certa, meu estômago cheio me dava alguma alegria mas não era a cura. Sem contar que a minha ansiedade também era motivo de grande parte da minha "fome".

No sábado, ao me levantar, fiz o meu devocional. Mais uma vez, Deus falou comigo aquilo que eu precisava ouvir. "Disse pois: Irá a minha presença contigo para te fazer descansar."  Êxodo. 33:14. Não havia nada que eu desejasse mais do que a presença de Deus naquele momento comigo.

Enfim, o grande dia havia chegado. Vesti a minha melhor roupa, coloquei perfume e me organizei para sair. Minha mãe estava à minha espera na porta de entrada, olhando para mim com a cabeça um pouco inclinada para o lado, e o sorriso nos lábios.

---- Meu Deus, você realmente cresceu! Ah, como eu queria que seu pai te visse nesse momento, quanto orgulho teria de você! ---- Ela enxugou os olhos na manga da blusa. ---- Venha cá, me dê um abraço.

Me aconcheguei naqueles braços que sempre foram meu lar, meu alento, desde os meus primeiros anos de vida.

---- Agora você já é um homem! Que Deus te acompanhe, meu filho. Você já tem a minha bênção, agora só precisa conquistar o coração daqueles que se tornarão seus sogros. ---- Ela sorriu e me deu mais um abraço antes de me deixar partir.

No caminho, fui conversando com Deus e imaginando como introduziria a conversa. Precisava causar uma segunda boa impressão, porque a primeira já ocorrera, quando os conheci.

Ao chegar no jardim da casa, meus níveis de cortisol estavam altíssimos, mas apartei o medo e toquei na campainha da casa. Quem me recebeu foi a irmã Cláudia, mãe da Hellen. Cumprimentei-a um pouco acanhado, por falta de costume. Ela me levou para a sala de estar da casa, onde o irmão Adalberto já me esperava, no sofá central. Ele se levantou e me cumprimentou com um abraço apertado.

---- Sente-se aí, e me diga, a que devemos a sua visita? ---- Ele sorriu de forma calorosa, mas o nervosismo em mim não me permitiu sentir qualquer carinho naquele gesto.

---- Irmão Adalberto e irmã Cláudia... ---- Comecei, olhando nos olhos dos dois, que estavam sentados lado a lado, atentos a cada palavra que saía da minha boca. ---- Eu vim aqui com uma missão especial, que não pode ser adiada. E perdoem-me a ousadia, não saio daqui sem uma resposta positiva.

Os dois se encararam um pouco surpresos com o meu tom. De certa forma, não fui desrespeitoso ou ríspido, mas com certeza eles não esperavam que eu fosse tão direto em minhas palavras. Apesar do espanto, deixaram que eu continuasse meu monólogo.

---- Desde o dia em que conheci a Hellen, sabia que ela era especial. Sentia algo que nos ligava, mas não dei muita atenção, porque achei que fosse algo da minha mente. Não a conhecia, sequer por vista, mas seu jeito conseguiu captar a minha atenção de uma forma que nenhuma outra conseguira antes.

Contei sobre o sonho que tive aos doze anos, sem mencionar os detalhes que gostaria de manter em segredo, sobre o chamado que Deus tinha em nossas vidas. À medida que ia falando,  procurava entender a reação deles, mas ambos pareciam estar pensando seriamente acerca da minha proposta.

---- Por isso, em primeiro lugar, com a direção de Deus e já tendo a benção de minha mãe, gostaria de pedir a sua filha em casamento. Não peço em namoro, porque quero manifestar desde já as minhas intenções de formar uma família com ela e ser pai de seus filhos. 

Quando finalmente fiquei em silêncio e esperei a resposta de ambos, eles se entreolharam, como se pudessem conversar apenas com um olhar, e o irmão Adalberto falou.

---- Bom, as suas intenções são bastante claras, sem dúvidas. ---- Ele sorriu, olhando para a esposa. ---- Compreendo seus argumentos e entendo as suas motivações para vir aqui e enfrentar mãe e pai para levar embora a filha. Já estive no seu lugar, e deduzo o quanto está nervoso nesse momento. ---- Ele olhou para as minhas mãos, enfatizando o que estava dizendo. ---- Mas não posso dar qualquer resposta antes de fazer as minhas próprias perguntas. Você entende, não é? Também preciso proteger a minha menina, e saber com quem ela viverá o resto da vida.

Ele riu, com certeza achando graça ao que dissera. Eu também, mas o meu riso era de nervoso. Sinceramente, não esperava que fosse assim tão fácil conseguir o que queria. A razão estava com ele, eu era o intruso ali, e precisava provar o meu valor ali, naquele momento de extrema tensão.

O irmão Adalberto começou a fazer as perguntas, olhando dentro dos meus olhos. Estudava? Trabalhava? Esperava casar em quanto tempo? Que planejamentos havia em minha mente para a organização do casamento? E a casa?

A perguntas variavam entre o âmbito profissional, emocional e espiritual. Felizmente, eram perguntas que eu mesmo já tinha enumerado mentalmente. Afinal, a responsabilidade maior estava sendo colocada sobre os meus ombros, e eu precisava estar a altura para sustentá-la.

Procurei responder no mesmo tom, calmo, mas incisivo; olhando nos olhos, para que ele pudesse ver em mim a sinceridade e paz que habitava em mim ao falar com ele sobre meus planos futuros. Por fim, a irmã Cláudia também fez algumas perguntas sobre filhos e educação, que ainda estavam distantes, mas também já constavam em nossas metas de vida.

Após uma hora e meia de conversa, ambos se levantaram e o irmão Adalberto me deu um aperto de mão e me abraçou.

---- Filho, seja bem-vindo à família! Só quero dizer que se você fizer machucar a minha princesa, eu vou fazer o mesmo com você, estamos entendidos? ---- Ele estava sorrindo, mas senti o seu cuidado naquelas palavras.

---- Não se preocupe, irmão Adalberto, eu cuidarei da sua filha do mesmo jeito que o senhor e a irmã Cláudia cuidaram dela até hoje, muito obrigado!

---- Ora essa, me chame de sogro!

E assim mais uma fase de minha história foi assinada pelo meu Criador. A irmã Cláudia também me cumprimentou e já ofereceu uma fatia de bolo de amêndoas, sua especialidade. Meu senhor, esses doces com certeza falariam mais alto na próxima pesagem! Mas não me importava, estava tão feliz que poderia repetir a fatia!

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Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!