Capítulo 2

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O dia terminou com Gracie andando para casa com Richie, guiando-o quase como um ferido da guerra. No caminho ela jogou seu skate fora, é claro, ele mal conseguia se manter unido pelo fino pedaço de madeira. Acabou que Richie morava na mesma rua que ela, algumas casas antes, então ele chegou em casa em segurança.
Gracie acordou dolorida, após uma longa noite no sofá da sala. Os quartos dela e de sua mãe ainda estavam sendo montados e ela insistiu que a mãe dormisse no sofá-cama do quarto de hóspedes, ficando com o sofá duro da sala. A garota se dirigiu ao banheiro, lavando o rosto e se preparava para escovar os dentes. Ainda estava acordando, por isso fazia tudo com certa lerdeza. De repente, pensou ouvir um tipo de eco vindo do ralo da pia. Pensou ser um rato, por isso se afastou rapidamente, batendo as costas na parede e derrubando a toalha pendurada em cima da própria cabeça.
- Gracie... - O ralo cochichou, numa voz inumana.
A menina respirava  silenciosamente, tentando permanecer escondida mesmo em plena luz. Os olhos focados no ralo que parecia aumentar junto de seu medo.
- Seu lugar não é aqui, Gracie... Você sabe disso. Não é? - A última sentença foi dita pausadamente, num tom macabro.
- Quem está aí? - Ela juntou coragem para dizer, num cochicho.
- Sou Pennywise, o palhaço dançarino! - A voz se modulou para parecer com a voz do palhaço em questão. Gizos acompanhavam sua voz.
Gracie pegou a escova de cabelo que estava na pia com relutância, mantendo uma distância segura do ralo e estendeu o objeto à sua frente, como uma arma.
- Mas eu sei onde você viveria feliz, Gracie! Eu sei onde você pode flutuar também.
Por algum motivo, a conversa parecia, cada vez mais, sucumbi-la. Ela se sentia como a presa frágil de uma jibóia, sentindo o animal rodopiar em torno de si enquanto aguardava pelo momento em que o aperto seria insuportável e quebraria todos os seus ossos.
A voz soltou um som gutural no que parecia uma expressão impaciente.
- Não gosto de monólogos, sabe? - A coisa disse, irritada. O ralo começou a rugir mais alto, como se algo passasse nele com uma rapidez incrível, apenas esperando para pular em sua cara. - Acho que você poderia se decidir de uma vez. Temos tudo aqui embaixo! Pipoca, algodão-doce, sorvete... Venha flutuar, Gracie.
- Não!! - A menina berrou, esquecendo do medo por uma fração de segundo.
Os sons cessaram. O ralo parecia estar do tamanho normal, novamente, já não a assustava. A menina olhou para si mesma no espelho, como se para se certificar que ainda existia e não tinha ficado louca. Foi então que uma criatura apareceu num ato predatório, à sua frente. Sem pensar duas vezes, a jovem jogou a escova no espelho, rachando-o bem no meio. O rosto que estava estampado se distorceu junto dos cacos que caíam, tornando a careta branca ainda mais assustadora. O bulbo vermelho que ficava no nariz parecia sangue e os olhos, - hora azul, hora amarelos e brilhantes - fixaram-se nos de Gracie. O sorriso vermelho se alargou num rasgo sangrento e a Coisa investiu sobre a menina, soltando uma risada macabra e desaparecendo logo em seguida.
Quando a mãe conseguiu abrir a porta do banheiro, assustada, encontrou Gracie no chão, em frente à pia cheia de cacos, chorando incessantemente.
- Gray! - A mulher se abaixou, próxima à garota. - Gray, você está bem? Fale comigo! Eu disse pra nunca trancar essa porta, não disse?!
- Eu não tranquei! - Ela soluçou, entre lágrimas.
- Estava trancada, eu tive que procurar por outra chave! Shh, estou aqui. Está tudo bem. - A mãe abraçava a garota, na tentativa falha de acalmá-la, olhando para toda a bagunça no banheiro. Não queria admitir, mas se preocupava ainda mais com a saúde mental da filha.

***

Quando o relógio do centro da cidade bateu dez horas, Gracie tomou coragem para sair de casa. Suas mãos ainda tremiam levemente e alguns cortes que ela sequer tinha percebido ter feito apareceram em seus dedos. Pra ser sincera, ela sequer se lembrava de ter tocado os cacos.
Na rua, a menina estava alerta, se assustando com os mais baixos dos sons. Com o passo apertado, chegou rapidamente no Barrens, onde reconheceu prontamente as vozes de Ben, Richie, Bill e Eddie. Os meninos a viram antes que ela falasse qualquer coisa.
- Você está encrencada, mocinha. - Disse Richie, fazendo uma de suas vozes com um sotaque alemão. - Eu disse dez da manhã, nem um minuto mais tarde!
Mas Bill conseguiu ver além da expressão no rosto de Gracie. A menina fazia a mesma cara que ele quando tentava esconder algo dos amigos, a diferença é que ele raramente era descoberto. Bill se aproximou dela rapidamente, sem sequer quebrar contato visual.
- V-Você está b-bem? O que aco-co-nteceu?
- Nada, não é nada. - Gracie escondeu as mãos feridas atrás do corpo. Ela não sabia se estava pronta para contar uma experiência sobrenatural para um grupo de estranhos. No entanto, também sabia que precisava. Não, sentia que precisava.
- Gracie, você tá meio pálida. Tem certeza que tá bem? - Eddie se aproximou dos amigos, fuçando em sua pochete. - Eu tenho uns remédios aqui, caso você-
- EU TO BEM, TÁ LEGAL?! - Gracie gritou sem pensar se afastando um pouco dos amigos.
Eddie baixou o olhar, envergonhado e os outros se entreolharam, desconfortavelmente.
- Desculpa, Eddie, eu... Eu estou bem.
Richie, que havia conseguido colar os óculos com muitas voltas de fita adesiva, conseguiu ver de relance os ferimentos nas mãos da menina. Ele pegou a mão direita dela, para olhar de perto.
- O que é isso, Gracie? - Seu tom estava sério, pela primeira vez.
A menina sentiu um rubor subir a suas bochechas, como uma criança que é pega fazendo algo errado.
- Eu quebrei uma coisa...
- Por acaso você viu alguma coisa? - Ben falou pela primeira vez.
Nesse instante, Gracie sentiu seu coração apertar. A imagem de um rosto branco e descascado tomou conta de sua mente.
- Como assim? - Gracie perguntou, com a voz tremendo.
- Uma... C-Coisa. - Bill ponderou. - Algo e-e-estranho.
Gracie sentia um frio tomar conta de seu corpo conforme os olhares dos amigos ficavam mais curiosos.
- Uma coisa... - Ela repetiu pra si mesma. - Sim.
Os garotos se entreolharam, com tristeza estampada nos rostos.
- Precisamos te contar algumas histórias.

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