Capítulo 23

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MARCOS

Estava consumado!! Com muita coragem reunida, a proposta havia sido feita! De certa forma, estava mais tranquilo porque via que o obstáculo que parecia ser intransponível caíra por terra: a timidez. Devo afirmar que o mérito era unicamente do meu Pai celestial, que conhecia quantas pulsações por minuto meu coração aguentaria até dar o último suspiro. Muitos diziam que minha timidez era só invenção da minha mente, mas não compreendiam que era bem mais que isso, era meu futuro que estava em jogo. Apesar de ter certeza do que havia sonhado e ouvido da parte de Deus, era essencial que ela também compartilhasse desse mesmo pensamento. Era o que mais me preocupara desde então.

Deus realmente se responsabilizara por organizar tudo de acordo com a Sua vontade. Minha alma havia sofrido por antecipação, mas nesse momento sentia apenas sublime alívio e a sensação de que tudo estava em seu devido lugar.

A resposta de Hellen de certa forma me pegou de surpresa. Por nunca haver falado com ela sobre esse assunto, ou mesmo ter uma proximidade que lhe gerasse alguma suspeita, achei que ela fosse recusar a minha proposta. Mas, contrariamente ao que havia pensado, ela parecia estar a par de toda a situação. Só havia uma explicação para tal fenômeno: O mesmo Deus que falara comigo na minha infância, também conversou com ela! As minhas dúvidas eram reduzidas a pó a cada nova descoberta do agir de Deus.

O fato é que eu não me programara para conversar com ela naquele dia, nem sequer estabelecera um prazo para isso, queria que fosse algo natural, quando me sentisse preparado. Mas a surpresa de vê-la ali, onde menos esperava, deve ter mexido com as minhas emoções.

Depois daquele encontro, o "gelo" entre nós foi quebrado. Procuramos nos conhecer um pouco mais, agora com um direcionamento mais claro. Ainda "tateando" o terreno, procurei saber sobre seus planos para o futuro, quantos filhos gostaria de ter e se pretendia fazer algum outro curso. Ela, por sua vez, me perguntava sobre os meus planos a curto, médio e longo prazo.

Enfim cheguei à pergunta crucial. Como ela reagiria se tivesse que deixar tudo o que conhecia no momento (família, amigos, igreja), a fim de cumprir um chamado de Deus? Ela olhou para mim como se já esperasse que eu fosse fazer essa pergunta mais uma vez. Ao mesmo tempo, manifestava-se curiosa para saber a minha resposta.

Estávamos voltando de uma consagração para os jovens. Àquela altura do campeonato não nos importávamos com os olhares curiosos e inquisidores. Não estávamos fazendo nada reprovável, e sentíamos a necessidade de colocar a conversa em dia. E devo admitir, havia algo de prazeroso em ser visto ao lado dela, uma paz inexplicável e o sentimento de pertencimento que balança o coração.

Ela levantou os olhos e falou, sem hesitar: "Não me importa onde estarei daqui a um, dois ou três anos. Não alimento o sonho de viver uma vida pacata, criando galinhas e cultivando plantas em estufa. Para mim, basta estar onde Deus quer que eu esteja. E claro, se Ele e você estiverem comigo, qualquer cantinho será lar."

Fiquei sem palavras ao ouvi-la dizer isso com sinceridade. Na verdade, era um pensamento que eu já tinha, que acompanhava a minha chamada. Tudo o que era precioso em minha vida, estava nas mãos do Senhor. A partir do momento em que o aceitei como meu Salvador, entreguei meus caminhos e planos a Ele, permiti que eles fossem substituídos pela direção soberana do meu Deus. Entendi que Ele colocaria em minha vida alguém com as mesmas características e expectativas. E obviamente, a mesma chamada. Afinal, o plano era dEle, quem mais além do próprio autor sabe como guiar a narrativa que está escrevendo?

Apesar da resposta e das suas ações e atitudes, que falavam alto, a chamada de Deus na vida de Hellen ainda não era muito clara para mim. Por isso, certo dia, enquanto organizávamos as cadeiras no departamento infantil da igreja, questionei-a, "como quem não quer nada".

Ela me convidou a sentar e eu aceitei. Naquele dia, na presença de Deus, e à luz de um sol preguiçoso que entrava pela janela aberta, conversamos sobre o futuro como nunca havíamos conversado. Não nos sentimos acanhados, parecia natural conversar com ela sobre os planos de Deus para a nossa vida. Fechamos a congregação e seguimos para as nossas casas com os demais irmãos que cooperavam com a limpeza do templo. Eu estava exultante, tudo parecia estar se encaixando!

HELLEN

Voltávamos para casa naquele que foi um dos dias mais importantes da minha história. Marcos andava ao meu lado, fazendo o possível para não parecer nervoso, mas eu sentia sua ansiedade em cada passo que dava, e em suas mãos buliçosas. Secretamente, eu também me sentia do mesmo jeito. Senti vontade de lhe contar sobre o meu sonho, o primeiro. Ainda não me sentia completamente preparada para falar sobre o segundo, em que ele aparecia. Deixaria esse para um outro momento.

Descobri o momento certo para falar sobre o assunto quando ele olhou para mim e perguntou:

— Como foi que Deus lhe falou sobre a sua chamada?

À medida que eu ia contando sobre o estranho sonho que tivera naquele país que parecia muito pobre e necessitado de Deus, os seus olhos iam se abrindo, literalmente. Ele parecia entusiasmado e espantado ao mesmo tempo. À primeira vista, não consegui entender o motivo de sua reação. Quando terminei, ele olhou para mim como que maravilhado. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que até hoje me surpreende e faz meu coração pulsar de amor por esse homem que Deus colocou em minha vida.

— Como pode ser? — Ele colocou as duas mãos na cabeça e olhou para cima, como se procurasse Deus. — Eu sabia que algum dia entenderia o sentido! Eu sabia!

Ele continuou conversando sozinho, gesticulando e rindo aleatoriamente. Eu fiquei ali, parada, esperando, sem entender o que estava acontecendo. "Será possível que ele tenha surtado assim do nada só porque eu sonhei com um povo que nunca conheci?" Acho que não...ouvira algumas histórias semelhantes, eu não seria propriamente a primeira pessoa a ouvir o chamado de Deus dessa forma.

Após alguns minutos, ele pareceu se acalmar. Aquela era sua forma de falar com Deus, eu só não estava acostumada. Ainda ofegante, e com lágrimas nos olhos, ele segurou as minhas mãos entre as suas e disse:

— Hellen, você realmente é a pessoa que Deus escolheu para minha vida. Se algum dia houve dúvidas em mim sobre esse mistério, hoje não existem mais. Aos doze anos de idade Deus me deu esse mesmo sonho que você acabou de relatar. A única diferença é o ponto de vista que vivemos. Eu via uma mulher chegando com os alimentos, você viu um homem sentado com as crianças. Hoje entendo que era você, sempre foi você. Deus guardou meu coração junto ao dEle, a fim de que só você pudesse encontrá-lo. E você não imagina o quanto sou feliz por ter obedecido as orientações divinas, ainda que parecessem sem sentido.

Ao ouvir essas palavras meu coração pareceu explodir dentro do peito, numa mistura de felicidade e saudade. Após tanto tempo de silêncio oportuno, Deus bradava em alto e bom som, renovando suas promessas e confirmando cada acontecimento que se desenrolava. Aquele foi um dos presentes mais lindos que Deus colocou em nossas mãos.

Voltei para casa exultante. Meus passos pareciam flutuar no chão. Entrei em casa e fechei a porta atrás de mim, sorrindo sozinha. Meus pais estavam sentados à mesa da cozinha, lanchando. Ambos me conheciam muito bem. Minha mãe só precisou olhar para mim, acenou com a cabeça e sorriu, com um ar compreensivo. Meu pai me chamou para um abraço.

— Filha, parece que nossa garotinha vai se casar! — E minha mãe respondeu com um aceno e uma oração silenciosa aos céus.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!