Correntes de Ar Também te Prendem (parte 1 de 3)

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— Abra as janelas, sim?

"Senhora," a interface do programa acendeu-se nas letras E.M.E.T. no painel do carro para o usuário ter para onde olhar durante a conversa, "devo lembrá-la que devido ao desvio para passarmos próximo ao mar estamos em uma área considerada de risco, e não é...".

— Não se preocupe. — A vegetação de beira de estrada invadia o asfalto, agarrando para si as placas de sinalização. — Apenas abra as janelas. Quero respirar um pouco de ar puro. Ou você prefere parar aqui?

"É extremamente não recomentado parar nesta via". A voz ficou em silêncio alguns segundos, o tom grave dela pairava no ar vibrando a expectativa de Heloísa.

— Então...? — A mulher insistiu.

Os vidros deslizaram permitindo que o vento arrebatasse o ar condicionado de dentro do carro. Ela inspirou fundo. Do lado de fora os postes de energia tentavam manter erguidos os fios pesados por trepadeiras. Expirou.

Estavam se distanciando cada vez mais... Deveria...? Mas e se...?

"Assim está bom?"

Era agora ou nunca. Olhou para um milk-shake no porta copos.

"Senhora, algum problema?"

Agarrou o copo como quem queria ver se ainda sobrara alguma coisa para enganar um começo de fome. Sentiu o peso. Prendeu o ar, fechou os olhos. Seja o que a Sorte quiser. Jogou pela janela.

"Senhora! Sua atitude terá que ser reportada," o vento chiou com o corte rápido dos vidros se fechando, "e as janelas não serão mais abertas até o fim deste percurso".

— ...

"Espero que esteja ciente de que a multa por sua infração será descontada de sua conta, assim como os quatro pontos de sua carteira de motorista."

Os lábios dela se mexeram, a língua foi silenciosa aos dentes, mas do que ela falou apenas a última palavra foi possível ao programa discernir:

— ... hábitos. — Os olhos se perdiam pelo retrovisor. A estrada passando. Lá estava o copo de milk-shake. Mexendo-se... Estava quase fora de vista. Só mais um pouco. Vamos, vamos... Ela respirou aliviada.

Dali o carro não conseguiria ver a tampa ser empurrada de dentro para fora, sair com o canudo a atravessando, e nem a terra vermelha e pedaços de pedras despejando-se do interior. Um monte de piçarra rolava por cima de si mesmo erguendo uma pequena garrafa redonda cheia por um líquido que ia do roxo ao azul com o movimento. Galgou sua liberdade sobre o asfalto e levantou-se. Pernas e braços envolvendo o vidro da garrafa, mantendo a rolha no alto. Um pequeno humanoide de terra e pedras ficou de pé e procurou seu caminho.

O pequeno ser caminhou ao pé da mureta que separava as pistas, os passos curtos e apressados para chegar onde ele não sabia ao certo, apenas seguia em frente. Passou por carros - abertos, enferrujados, pichados; passou por coqueiros caídos sobre a estrada; por um arco com "Volte logo..." escrito. Passou por uma ponte sobre um veio da Lagoa Mundaú, e mais à frente por baixo de um viaduto carregado de cartazes de shows já sem cor.

Então, lá estava o mar de um lado e do outro um oceano de casas abandonadas. Ali a solidão crescia buscando seu lugar ao sol enquanto afundava ainda mais suas raízes na terra.

Do Pontal da Barra apenas se ouvia o vento a balançar as palhas dos coqueiros. Não havia mais as redes de cores dos filés bordados, nem das canoas, naquele momento a coisa mais bela por ali talvez fosse o brilho da poção que o pequeno carregava às costas: azul, roxo, azul, roxo.

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