Capítulo 1 - Os Três Amigos

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O dia começou cedo para o Carlos Eduardo Stovatti, popularmente conhecido como "Tomatão".

Quando ele entrou para a escola, havia mais dois outros "Carlos Eduardo" na sua turma. Então, durante as duas primeiras semanas de aula, na hora de conferir a lista de presença – e a fim de que um Carlos não respondesse pelo outro –, a professora chamou cada um pelo seu nome inteiro. Depois disso, considerando desnecessária a repetição de cada nome, ela passou a chamá-los pelos seus sobrenomes, sendo que ao Tomatão chamava "Stomatti". Certamente que houvera ali um erro de digitação, desses que se corrigem já no primeiro dia de aula, quando o aluno escuta o professor ler o seu nome equivocadamente, mas não foi o caso do Carlos Eduardo, que nem se preocupou em alertar a professora. Sem contar que, ao explicar que se tratava de "Stovatti" – e não de "Stomatti" – ele também poderia ter-lhe orientado quanto à pronúncia: lê-se Stovaci. Porém, como o garoto não parecia preocupado com essa questão, isso era tudo o que a criançada precisava para começar a brincar com a semelhança entre "Stomatti" e "tomate", até que, quando ainda estava no Jardim, Carlos Eduardo já se tornara o "Tomatão".

O que oficializou o seu apelido foi o fato de, num belo dia de verão, ele ter chegado à escola todo vermelho, por causa do sol. Ficara exposto tempo demais na piscina do clube que ele e a grande maioria dos seus amigos de classe costumavam frequentar. Então, bastou considerar: "Stomatti" + "vermelho" só podia ser = a "Tomate"! – e daí pro aumentativo foi só o tempo de associar: Tomate era um menino muito "grande" para a sua idade, gorducho e espalhafatoso. E, mesmo sendo criança, "Tomatinho" não combinava, que de "inho" ele nada lembrava.

Naquele domingo estava fazendo um lindo dia de sol e, como em quase todos os dias de verão, o garoto acordou afoito para tomar um avantajado café da manhã e se preparar para mais um dia de clube com os amigos.

Seus amigos prediletos e inseparáveis eram o Dudu e a Rita.

A Rita era uma graça: uma menina divertida, bem-humorada e, muitas vezes, engraçada – a "queridinha" (a "protegida") do Tomatão.

Rita era a emoção do grupo de amigos. Adorava fazer rimas – o que a tornava "meio diferente" dos outros, quando ela tinha um ataque de rimas – ou um "ataque de besteirol", conforme o Dudu apelidara aqueles seus momentos de jogos de palavras. As rimas que mais a empolgavam eram as mais bobinhas e espontâneas; por isso – e não raras vezes –, ela ia quase todo o caminho em direção ao clube rimando coisas e pessoas.

Há tempos a Rita mantinha uma paixão quase secreta pelo seu amigo Dudu – algo não muito bem correspondido. Não era bem como ela gostaria que fosse, mas manter o Dudu ao seu lado já era quase bom.

Dudu era um menino estudioso, aficionado por computador, míope e sério demais. Talvez por já ter treze anos – o mais velho do grupo –, talvez por ser chato mesmo, ele não se permitia a ser infantil! E todo domingo, mesmo a "contragosto" do Dudu, lá iam os três para o clube, onde passavam o dia inteiro.

Naquele dia, mal deram início à caminhada e a saltitante e apaixonada Rita se deslumbrou

— Vejam! Uma borboleta azul!...

Os olhos da menina brilharam. Seus amigos até notaram a presença do bichinho, mas o modo empolgado como a Rita interrompera o assunto para apontá-lo até dava a entender que aquilo era um grande acontecimento! Até parecia que aquela era a primeira borboleta azul que ela estivesse vendo na vida e, não se podendo conter, suspirando, feliz, a garota perguntou aos amigos:

— Ai... Ela não é linda?...

Tomatão e Dudu se entreolharam: o primeiro com cara de "é agora!", o segundo com cara de "ai, não! Logo cedo?!?...". Ambos sabiam que aquele suspiro da Rita era um dos indícios de que a amiga "daria voz" à sua questionável "veia poética".

Não deu outra:

— Toda borboleta é uma graça! Ilumina o caminho onde passa, e... E... – fez uma pausa, com carinha de dúvida, e perguntou, com a mão no queixo: — O que mais eu posso falar da borboleta e que rima com "graça" e com "passa"?...

— "Linguiça"! – imediatamente respondeu o risonho e rechonchudo Tomatão. E acrescentou: — Com bastante maionese e batata palha! – e já estava com a língua nos lábios, imaginando o seu calórico sanduíche.

— "Linguiça", Tomate?!? Desde quando "linguiça" combina com "graça" e com "passa"?!? – a Rita questionou, parecendo decepcionada.

— A esta hora, Tomatão, só você mesmo pra pensar em comer! – o Dudu reclamou, aproveitando para desviar a atenção da Rita em relação àquele seu novo poema chato: — Eu não deveria estar indo pro clube! Tinha que ter ficado em casa... Nesta semana eu tenho prova... – e findou a sua fala fingindo uma certa preocupação.

— Dudu! Se você for mal na prova, eu nunca mais como nada nesta vida! – retrucou o Tomatão, acompanhado pela risadinha da Rita.

— Vocês são muito engraçados mesmo!... Vamos aproveitar este dia lindo! – propôs a Rita. E apelou: — Olha pra mim, Dudu: veja como eu tô feliz!

— Sim! – o Tomatão concordou, enquanto jogava no lixo da esquina a latinha de refrigerante que acabara de tomar.

Sem querer, porém, o menino arrotou bem alto.

— Credo, Tomatão!!! Como você é porco! – a Rita reclamou, afastando-se com a mão no nariz, como se evitasse respirar o mesmo ar que o garoto, enquanto o Dudu, embora todo "certinho", não pôde resistir à cena, rindo da porcalheira do amigo.

Só um pouco sem graça pelo belo arroto que lhe escapara – e não exatamente pelo arroto, mas pela bronquinha da Rita –, o Tomatão tentou retomar o assunto, acrescentando:

— Então... Isso aí! Aproveite a nossa agradável companhia, Dudu! Olha que solzão! – e, talvez numa tentativa de se desculpar pelos maus modos, apelou também: — Olha só como a Rita tá ficando morenaça!

O Dudu nem fez conta de reparar naquilo, mas a Rita "se encheu":

— Isso mesmo, Tomatão: "graça" rima com "passa", que rima com "morenaça", que rima com... "praça"! Só preciso adaptar isso pra borboleta!... Deixa eu ver... Hã... — agora a Rita estava feliz da vida, pois completaria os versos para a sua primeira grande estrofe do dia, e ensaiou em alto e bom som, até mesmo gesticulando, sem se melindrar com as pessoas que estavam passando na rua:

— Toda borboleta é uma graça!

Ilumina o caminho onde passa...

Sigo eu, por aqui, morenaça;

ela segue, a caminho da praça

Voa alegre, livre da caça!

Assim que esgotou as "aças/assas" que estavam na sua cabeça, a aspirante à poetisa sorriu largamente para os meninos, aguardando a sua aprovação e, claro, todo o mérito da sua criativa composição em torno da borboleta. Mas, como eles nada dissessem num intervalo de três segundos, ela não resistiu, e cobrou:

— E aí?!?...

— Rita, a menina que me irrita! – improvisou o Dudu, piscando um olho para o amigo, que correspondeu com um belo sorriso, de quem tinha achado aquela rima muito melhor do que as da Rita.

— Você é mesmo um chato, Dudu!... – indignou-se a menina. — Dudu, seu... seu... brucutu! – falou com jeito de quem se ofendera com a piada do amigo e, depois, seguiu disparada na frente.

— Ah, não! Vocês não vão começar com esta correria de novo, né?... Todo domingo essa bobagem!!! – resmungou o Tomatão, que sempre ficava para trás quando os amigos começavam a correr.

— Corre, Tomatão! Vamos alcançá-la! – o Dudu gritou já de longe.

O Dudu detestava perder para a Rita, porque depois ela ficava rindo da cara dele e do Tomatão, chamando-os de "fraquinhos" e coisas do tipo.

Como "Dudu" era apelido de "Eduardo" e o Tomatão e o Dudu tinham esta coincidência nos seus nomes, a Rita gritava, provocando:

— Os "Edus" não me pe-gam... Quem se importa com a galinha morta?...

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