Capítulo 2

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- Onde é que é esse bloco, mesmo?

- Yara, para de falar que assim eu vou cagar sua cara inteira. – Digo tentando recuperar o traço na bochecha de minha amiga. A maquiagem de gatinha já está pronta em meu rosto. Fazer o mesmo com o dela se torna especialmente difícil quando Yara resolve conversar durante o processo. – O bloco é na Gávea.

- A gente tem que sair logo, então... Que horas são? Que horas é lá?

- São oito e meia da manhã, o bloco é às onze e se você não calar a boca a gente não chega lá antes das três.

- Ai, grossa.

Ela para de falar, prestando atenção ao jornal na televisão que mostrava trechos do desfile das escolas de samba do grupo de acesso, no dia anterior. Até tentamos assistir ao espetáculo. Fizemos pipoca, brigadeiro e nos esforçamos ao máximo para aproveitar a pequena festinha de pijama no meu quarto. Mas, depois de dois blocos durante o dia, não aguentamos nem a segunda escola. Acordar cedo para o bloco na zona sul foi quase um sacrilégio. Mas nos animamos depois de tomar um café da manhã reforçado, preparado por minha mãe. Ela não nos deixaria sair de casa, naquele calor, com a barriga vazia.

Depois de comer, cada uma correu para um banheiro para tomar um bom banho e vestir o figurino idêntico que tínhamos combinado. Meia arrastão, short e regatinha pretos. Na cabeça, um arco com orelhas de gatinhas. A maquiagem ficou por minha conta já que Yara não sabe nada além do básico.

- Já acabou? – Ela pergunta quando me vê guardar o lápis e fechar a nécessaire. Estendo o espelho para ela. – AHHH! Adorei. Estamos muito gatas.

- Nós somos muito gatas.

Yara ri e eu acabo me juntando a ela quando minha mãe entra no quarto e fala:

- São gatas, mas têm uma vida só. Juízo, hein, meninas!

- Relaxa, tia! Eu cuido da Aline e ela cuida de mim.

Minha mãe sorri e dá um beijo em cada uma antes de sairmos. Pegamos o ônibus e demoramos uma boa hora e meia para chegar ao bairro do bloco. Yara salta do coletivo reclamando do calor na cidade e só para quando chegamos à rua da festa, que, meia hora antes do marcado, já abrigava alguns grupos bebendo em volta do trio elétrico parado. Paramos numa barraquinha na esquina antes de subirmos a rua. Eu compro uma coca-cola e Yara pega uma cerveja. Andamos pela calçada, apesar de a rua já ter sido fechada e conversamos com algumas pessoas pelo caminho. Enquanto a música não começa, tiramos fotos e fazemos alguns vídeos para abastecer as redes sociais.

Aos poucos, a rua vai enchendo e o trio solta algumas músicas para o pessoal começar a entrar no clima. Quando o bloco começa de fato, a rua já está lotada e eu e Yara já dançamos muito. Conhecemos dois amigos, vestidos de Mario e Luigi. Conversamos pouco antes do Mário beijar Yara e o Luigi se achar no direito de fazer o mesmo comigo. Me afasto dele e puxo Yara pelo braço, saindo de perto daqueles dois.

- Eu, hein, como é que beija no meio da conversa, sem nem me deixar terminar a frase? – Saímos do bloco e passamos para rua paralela em busca de algum lugar para comer.

- Ah, Aline! É Carnaval! Estamos na rua... Acontece.

- Não, senhora! Estamos na rua para nos divertir. E beijar quem a gente quiser no processo. Não vem com essa história de acontece, não. Ninguém tem o direito de tocar em mim sem eu querer. E você não devia pensar assim. – Trocamos de calçada e entramos em outra rua.

- Amiga, eu concordo com você. Eu também não teria beijado aquele cara, por vontade própria. Eu já tinha achado ele meio babaca, antes. Não conseguia parar de falar do carro que o pai deu e da empresa que o pai tem e do quanto ele é incrível. Mal olhava pra minha cara. Mas homem é assim... Infelizmente.

Enquanto o Carnaval DurarRead this story for FREE!