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André já estava cansado e a tarde mal tinha começado. Nas últimas semanas se obrigava a levantar da cama com esforço e lutava contra a vontade de desaparecer o dia todo. Estava cansado e desanimado, por mais que fosse obrigado a se sentir feliz na situação em que se encontrava. Esta é uma das piores obrigações. A obrigação de ser feliz. Em todas as festas e feriados, quando estão todos comemorando, você não se sente no direito de ficar em casa enchendo a cara sozinho. Então coloca sua máscara de sorriso, finge que se diverte e depois volta para sua mesma vida miserável. Mas André não tinha uma vida miserável. Tinha tudo que o cidadão mediano poderia querer: um emprego seguro, uma esposa fie - até onde se sabe - e estava prestes a ter uma filha. Mas só conseguia pensar na responsabilidade que isso acarretava e na vida que deixaria pra trás. Tinha 28 anos. Se o André com 17 o visse agora pensaria, "patético". Não tinha feito nem metade das viagens que queria nem transado com as mulheres que achou que cairiam no seu colo. Estava pensando nisso enquanto esperava o próximo paciente, até que a secretária entrou pela porta e disse:

– Sua esposa ligou, disse que está indo para o hospital, acha que vai nascer.

– Já é a quinta vez seguida que ela acha que vai nascer.

– Pela voz dela parece que desta vez é sério.

– A mãe dela deve estar com ela...

– O senhor não vai?

– Não, jurei pra mim mesmo na faculdade que não veria nenhum parto na minha vida depois de passar no estágio de obstetrícia.

– Mas sua esposa não vai ficar chateada?

– Acho que não, já tínhamos conversado sobre isso. Agora deixa de papo Rita e chama o próximo paciente para eu poder ir embora logo.

Rita obedeceu e André continuou a trabalhar. O consultório de cardiologia recém montado estava surpreendendo pelo movimento. Apesar de mal divulgado, as pessoas começaram a marcar consultas e em dois meses já tinha um movimento considerável. Até já pensava em largar o plantão diurno que fazia para aumentar a agenda no consultório. Terminou o atendimento esperando a ligação da esposa para confirmar o alarme falso. A ligação não aconteceu. Foi para casa e tomou um banho demorado, criando coragem para ir ao encontro da esposa.

Quando chegou ao hospital Gabriel estava na porta, junto com a avó. Gabriel, de apenas sete anos, era o filho de Marília, esposa de André. Ela o tivera aos 19, um acidente de percurso com o primeiro namorado. Após quatro anos de relacionamento com Marília, sendo que nestes últimos dois estava casado com ela, ainda não conseguia ter a afeição que achava correta pelo garoto. Se é que existe uma quantidade certa de afeição para um determinado relacionamento. Mas, verdade seja dita, lá no fundo todo mundo sabe que existe. André tolerava Gabriel. Nada mais que isso. E sabia que isso não era suficiente. Exatamente por isso era excessivamente educado. Excessivamente polido. Por isso, excessivamente distante. Passou a mão na cabeça de Gabriel, numa tentativa forçada de mostrar afeição, e este aceitou o gesto, ávido pelo contato. Regina o olhou com reprovação:

_ Se você tivesse esperado mais um pouco já teria nascido sua filha.

_ Aí eu não poderia desfrutar do belo momento que é o nascimento.

_ É um belo momento de fato.

_ "Entre fezes e urina nascerá", ou algo assim disse Deus

_ Como se você acreditasse!

_ Bom, Regina, e como está a nossa parturiente.

_ Os médicos falaram que não deve demorar muito mais a nascer.

Entre a Dor e o NadaWhere stories live. Discover now