Capítulo 21

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MARCOS

Acordei bem cedo naquele dia. Estava uma manhã ensolarada, o canto de pássaros se fazia ouvir em todo o ambiente. Lá fora o murmúrio da atividade humana já se ouvia: os carros na estrada, o vizinho cortando a grama da entrada, o rapaz do jornal entregando as últimas notícias do dia...e a minha mãe fazendo o café da manhã na cozinha. O cheiro estava muito bom, o que me motivou a levantar prontamente e saudar o novo dia.

A irmã Ângela estava com o cabelo preso em um coque e o famoso avental do Tio Patinhas, presente do meu pai há alguns anos. O cenho franzido em concentração enquanto acompanhava os noticiários do dia na televisão recém instalada na cozinha.

— Bom dia! A bênção, minha mãe! — Cumprimentei-a com um abraço. — Esses ovos parecem estar deliciosos!

— Bom dia, meu querido, Deus te abençoe! Dormiu bem? Não esqueça que hoje à noite você tem a formatura da sua prima Laura, viu?

— É hoje? — Com certeza era a última coisa que eu esperava. Já estava me preparando para uma maratona de leituras, tudo menos sair para uma festa grande. E olhe que eu gostava de festas, só não estava muito inspirado para ir a uma naquele dia. Mas reconhecia que precisava ir, era a formatura de uma das minhas primas mais próximas. Além disso, ela me honrou no dia da minha formatura, não poderia deixá-la na mão.

Pensando nisso, procurei no armário um terno para aquela noite. "Só não vou colocar gravata", pensei. "Formal, mas nem tanto...". Escolhi a dupla "feijão com arroz", terno preto e camisa branca. Achei que daria para o gasto.

HELLEN

O dia mal havia começado, mas já estávamos no cabeleireiro, eu e Lídia. Fizemos as unhas e demos aquele trato no cabelo. Na hora de escolher o penteado fiquei em dúvida sobre qual deveria usar.

— Lids, me diz aí, qual deles me faz parecer uma moça formada? — Apontei para um catálogo fornecido pela dona.

— Olha só, como você já está exibida! — Ela riu com gosto. — Escolha aquele que te faz sentir como uma princesa.

— Ótima ideia!

Começamos a procurar por algum penteado que encaixasse com o modelo do vestido, e que me fizesse bem, em primeiro lugar. Por fim, encontramos um perfeito. Haveria um arranjo no topo da cabeça, mas o cabelo ficaria solto, exatamente como eu gostava. Fiquei contente por ter encontrado o que precisava. Aquela noite certamente seria inesquecível!

O dia passou mais rápido do que eu esperava, chegando, finalmente, a hora de me arrumar para o meu momento. Uffa, já sentia um frio na barriga só de pensar em quantas pessoas estariam olhando para mim no momento do discurso. Eu precisava me acalmar. "Inspira, expira, inspira, expira. Calma, Hellen, já deu tudo certo!".

MARCOS

Minha mãe já estava nos últimos retoques para a festa. Devo dizer que estava belíssima em seu vestido rosa claro e o cabelo bem arrumado. Em nossa família o tempo produzia o efeito do vinho nas pessoas, a cada ano que passava, ficavam mais belas! Disse isso à minha mãe, ela ficou tímida, mas agradeceu o elogio. E quem não gosta?

Fui para a garagem ligar o carro enquanto ela fechava as portas e ligava o alarme. "Não confie em ninguém mais para proteger a sua casa além de Deus, meu filho, porque hoje em dia tem ladrão até de um olho só!", dizia ela. Realmente, aquele bairro não era um dos mais nobres e bem visitados, mas Deus sempre nos protegeu. Ainda assim, fazíamos a nossa parte, deixando tudo fechado e ligando os equipamentos de alarme.

Nos dirigimos à casa de eventos onde seria realizada a festa de formatura. Já no estacionamento, vimos toda aquela gente bem arrumada, elegantemente vestida, e um sorriso no rosto, com certeza eram os formandos! Lembrei do dia da minha formatura. Estava tão feliz por finalmente levar o título de jornalista que não conseguia parar de sorrir durante toda a noite. Nossa festa foi organizada juntamente com mais duas outras turmas de comunicação, isso me dava a chance de repetir vezes sem conta que estava me formando em Jornalismo.

Entramos no salão e fomos recebidos por garçons bem vestidos e educados. Acompanharam-nos a uma mesa onde já estava a minha prima Laura, que era só sorrisos, meus tios e alguns parentes que vieram prestigiá-la com a sua presença. Muitos deles já não me viam há algum tempo, então foi uma surpresa agradável compartilhar aquela noite com eles. Era notável o seu desconforto em falar sobre o meu pai, mas aquela página havia sido virada, Deus estava nos consolando.

A festa estava muito agradável. A comida era boa e a conversa estava melhor ainda. Reunir a família não tem preço! Virei-me para olhar um grupo de estudantes que estavam rindo alto, provavelmente contando boas histórias do período passado em sala de aula.

Ao longe, pensei ter visto alguém conhecido. Uma amiga? Forcei a vista para entender de quem se tratava. Como não consegui descobrir de primeira, deixei para lá e continuei a conversar. Algum tempo depois foi pedida a atenção do público para a nomeação dos formandos. Aos poucos os alunos foram se acumulando à frente do palco, todos com bata e capelo. Logo foi a vez de Laura subir também ao palco e receber seu querido diploma. Mas aí, algo inesperado aconteceu. Faltava uma última formanda.

Não acreditei quando vi quem era! Hellen estava ali, em toda a sua beleza. Estava com um longo vestido verde que cobria seus pés. Seus cabelos estavam soltos em cascatas onduladas sobre os ombros. Ela sorriu para o público e caminhou, confiante, para o centro do palco, onde estava o microfone.

— Queridos amigos, familiares e professores — Ela começou — Estamos aqui para festejar um dos momentos mais marcantes na vida de uma pessoa, o momento em que sua profissão começa a fazer sentido para os seus parentes, e valorizada pelos seus empregadores — Todos riram. — Finalmente, podemos afirmar que estamos no mercado de trabalho...— Ela continuou o discurso, mas minha mente não conseguia se concentrar em suas palavras.

Em vez disso, apenas duas palavras eram repetidas, uma e outra vez, "é ela". Me perguntei se não seria fruto da minha imaginação, mas quanto mais me perguntava, mas audível se tornava. Esperei que a festa terminasse para ir ao seu encontro. Quando finalmente consegui chegar perto dela, o salão já estava praticamente vazio.

— Marcos? Que que surpresa ver você por aqui! — Ela abriu um sorriso e logo meu coração pareceu derreter em uma poça, aos meus pés.

— É, eu...eu...minha prima...eu vim com a família... — Gaguejei como nunca, tentando organizar as minhas ideias.

— Sei, sua prima se formou hoje, não é? Qual é o nome dela? — Fiquei extremamente agradecido por não ter que repetir a frase.

— Laura, ela se chama Laura. Você a conhece?

— Mas é claro, somos da mesma turma! Não sabia que vocês eram primos, que coincidência!

Puxamos conversa por um tempo. Nenhum dos dois parecia querer que a conversa, ou o dia terminasse. Mas, inevitavelmente, foi o que aconteceu. Ela me levou até a mesa onde os seus pais estavam sentados.

— Mamãe, papai, esse é Marcos, um amigo da igreja.

Cumprimentei ambos, e reparei que a mãe dela olhava para mim e depois olhava para Hellen. Algo como uma comunicação silenciosa. Será que ela falava de mim em casa? Tomara que sim! O fato é que gostei dos dois. Já os tinha visto na igreja, de longe, apesar de nunca termos conversado. Aparentemente, eles pareciam me conhecer de vista, também, mas não conseguia afirmar com exatidão.

Avisei à minha mãe que voltaria rápido e acompanhei a família dela até o carro. Fiquei meio sem graça de falar alguma coisa, então deixei que a minha presença falasse por si só, e apreciei o momento ao máximo.

Nos despedimos meio a contragosto, um "paz do Senhor" com sensação de "fica mais um pouco.". Não houve um "até mais" ou "te ligo mais tarde", mas, de alguma forma, ambos sabíamos que um dia não precisaríamos mais nos despedir e ir cada um para a sua casa.

Acenei pela última vez, vendo o carro fazer a curva e desaparecer na noite.

Começou a chover, mas fiquei ali ainda um tempo, olhando para o estacionamento vazio e pensando na vida e nas surpresas que Deus prepara com tanta mestria. A gotas começaram fininhas, mas acabaram por engrossar de repente, ensopando meu cabelo e as roupas. Corri de volta para o salão, já me preparando psicologicamente para a reprimenda da minha mãe por causa do meu estado.

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