Capítulo 20 - Hellen

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Meu sorriso agora era tão feliz, que deixou de ser segredo em poucos dias! A primeira pessoa que descobriu o motivo de toda essa expressão de alegria foi, obviamente a minha melhor amiga, Lídia. Apesar de ver meus pais diariamente, e de serem estarem atentos ao meu comportamento e à minha vida, em geral, esse segredo foi muito bem guardado, até que não consegui mais e acabei soltando, em uma conversa com Lídia, que havia encontrado Marcos no evangelismo e que ele era até "legalzinho". Sim, foi essa a palavra que eu usei. Ainda assim, não a convenci de que lhe era indiferente.

— Hellen, você está me fazendo de besta, menina? Você não acha que eu te conheço não?

— Hã? — Perguntei, tentando fingir algum desentendimento, ou inocência. — E você não acha que eu lhe diria qualquer coisa se realmente houvesse o que dizer?

— Veja só... — Ela faz uma pausa dramática, estendendo os braços ao longo do corpo — Às vezes você acha que é uma agente secreta e sai escondendo as coisas de mim. Mas, tirando isso, nadinha. — Encolhe os ombros.

— Então sente aí que precisamos colocar esse papo em dia.

Contei sobre a minha sensação de que ele era a pessoa de Deus para mim, procurando manter em segredo o sonho; ainda não estava preparada para compartilhar. Falei sobre nossos gostos compartilhados, sobre o seu amor pela obra e a sensação de que o conhecia há muito tempo. Ela olhou para mim com um ar maduro e disse:

— Das duas uma: ou você está muito encrencada pra esquecer ele ou realmente Deus tem algo na vida de vocês dois como um casal. Eu voto pela segunda opção, e vou te ajudar em oração para que Ele possa vos unir segundo a Sua vontade. Caso não seja, Deus tem algo ainda melhor para você, minha amiga!

Fiquei tão animada com aquela resposta que lhe dei um abraço em agradecimento. Era isso que precisávamos fazer, intensificar as orações e deixar que Deus fizesse o resto. Minha pouca experiência de vida havia me ensinado que quando tentamos ensinar Deus a fazer algo, nunca dá certo. Sharon Jaynes, escritora do livro Surpreendida pela Glória descreveu exatamente o que eu gostaria de dizer!

"Nosso Deus fiel não mudou. Ele ainda fala conosco. Não devemos jamais querer determinar como Ele falará, mas ter a certeza de que Ele falará. Exatamente como e quando Ele se faz conhecido é um ato tão criativo quanto Ele é – e tão infinito quanto Ele é. Deus fala continuamente e articula-se de forma única."

Eu não precisava lhe ensinar como fazer, mas aguardar e confiar que Ele faria o melhor por nós. Lídia e eu nos organizamos para fazer jejuns e consagrações em prol daquela causa. Apesar do sonho, e da voz audível do Senhor naquele dia, eu orava para não tomar nenhuma decisão precipitada baseada apenas na emoção de um primeiro encontro. Naquele momento havia mais que duas pessoas em união, mas dois chamados em um! As crianças que vi em meu sonho ainda faziam parte dos meus pensamentos no dia-a-dia. Vez ou outra me descobria orando por elas, ainda que não as conhecesse.

À medida que nosso propósito de oração seguia, via muitas outras coisas em minha vida sofrendo mudanças. Percebia que me sentia cada vez mais à vontade com um tempo maior de oração; terminava as tarefas do dia bem rápido para ter aquele momento a sós com Deus e a sede pela Palavra era cada vez maior. Devo afirmar que quando comecei o propósito, orei para que Deus me desse fome e sede dEle, sentia uma necessidade cada vez mais crescente de ter o Senhor mais perto. A bíblia diz que Deus colocou no coração do homem um desejo profundo pela eternidade, a eternidade que viveremos em Cristo. Por isso nada preencherá o vazio que só Ele pode ocupar. Você pode se ocupar com mil e uma coisas por dia, entrar em grupos de leitura, exercícios, fazer visitas, comer, se divertir, mas sempre sentirá a necessidade de estar perto do seu Criador. Não é maravilhoso?

Alguns meses se passaram. Nesse intervalo de tempo procurei manter alguma distância, pois queria que Deus falasse comigo mais uma vez (só mais uma, Jesus), lançando todo o medo e dúvida fora. Finalmente chegou o dia da minha formatura! Eu mal podia acreditar que aquele dia havia chegado! Foram quatro anos de muita correria, muitos estudos, noites sem dormir, desencontros com as amigas, e muita preocupação com médias e notas finais. Mas graças a Deus havia chegado o momento da vitória!

Saímos para as compras, eu, Lídia, e a mamãe. Meu pai preferiu nos deixar a sós, nunca teve muita paciência para nos esperar escolher roupas. Pensando nisso, quantos são os homens que ainda têm essa paciência?

Levamos um dia inteiro para encontrar o vestido perfeito, mas encontramos! Era longo de seda verde esmeralda com detalhes que me deixaram de boca aberta. Não só pela sua beleza, mas também porque o preço estava daquele jeitinho que a gente gosta! Enfim, levamos o vestido, encontramos o salto ideal e demos por finalizado o nosso dia de grandes conquistas.

A festa seria no dia seguinte, e algumas coisas ainda precisavam ser colocadas em ordem. Como por exemplo, meu cabelo. Qual penteado usar? Com ou sem tiara? Lídia, sempre muito direta, ousou dizer que a tiara ficaria "muito jegue" para uma ocasião tão especial. "Ora, muito obrigada! Quem precisa de inimigas quando se tem alguém assim na vida?", pensei. Mas acabei por seguir o conselho.

Cheguei em casa muito cansada. Não era para menos, percorremos cerca de trinta quilômetros entre uma loja e outra. Quer dizer, posso estar equivocada em meus cálculos, e ser bem mais que isso. O fato é que eu estava precisando de uma boa noite de sono porque o dia seguinte seria um dia cheio de emoções!

Mas antes de dormir, me organizei e fui para a escrivaninha, onde já me esperavam a minha bíblia, o livro devocional que estava lendo e o meu diário com Deus, que nunca ficava muito distante de mim. Li o devocional sugerido para aquele dia e abri a bíblia aleatoriamente. Não sou de fazer isso, Deus sabe, mas naquele dia fiz diferente. Iria escolher uma passagem fora do meu plano anual de leitura.

O texto que "saltou" logo à minha vista, por já estar sublinhado foi o de 2 Crônicas. 32:7:

"Sede fortes e corajosos, não temais, nem vos assusteis por causa do rei da Assíria, nem por causa de toda a multidão que está com ele; porque um há conosco maior do que o que está com ele."

Oh glória! Animei-me na hora! Estava um pouco preocupada com o dia da formatura porque seria a oradora, e não havia preparado texto algum. Pessoalmente, achava mais fácil falar sobre o que passava em meu coração naquele momento, suspeitava que o nervosismo fosse maior se tivesse que espiar uma folha de papel. Vai entender? Mas agora, a confiança do rei Ezequias em Deus havia me confortado. Fiquei mais uma hora lendo, meditando e conversando com Deus. Entretanto, o sono já não me deixava pensar com clareza, por isso fechei a bíblia, o livro e o diário e fui me refugiar nas cobertas, adormecendo rapidamente.

Contudo, não foi uma noite como todas as outras. Vi-me novamente naquele mesmo ambiente do primeiro sonho, mas dessa vez estava em uma igreja. Deduzi que fosse pela disposição dos bancos rústicos de madeira e uma espécie de púlpito com várias cadeiras. Tudo era muito pobre e simples, os móveis pareciam feitos à mão. Ouvi o som de sandálias em terra batida, e me voltei para trás, verificando que afinal não estava sozinha ali.

À minha frente estava alguém que eu já esperava ver ali, Marcos. Mas ele parecia um pouco mais velho, mais maduro. Vestia um dashiki africano, marrom claro com muitos detalhes dourados e uma calça simples, combinando. Toda aquela indumentária contrastava com a sua pele morena e fazia ressaltar seu sorriso largo. Sem dúvidas era ele, aquela expressão travessa no olhar, que havia me cativado desde o primeiro momento.

Ele olhou dentro dos meus olhos e falou:

— Querida, precisamos começar essa obra, você vem comigo?

Ele apontou para um balde de ferro com alguns produtos de limpeza e dois vassourões de palha que estavam encostados na parede de barro cru. Com certeza estava se referindo à limpeza do tempo, que receberia os irmãos dentro de poucas horas, mas entendi mais do que isso em suas palavras. Era um convite para me juntar a ele naquele propósito que Deus havia nos confiado. Não sei quanto tempo levaria para que tudo acontecesse, mas eu estava disposta a viver os planos de Deus para a minha vida, e como estava!

As palavras da leitura bíblica do dia vieram à minha mente: "(...) porque há um conosco maior do que o que está com ele.". Sorri em resposta e caminhei ao seu encontro, decidida.

— Vamos! Por onde começamos?

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!