Capítulo 19

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A vida é uma grande montanha russa, de altos e baixos, curvas e lugares planos. Em meio a tudo isso, somos tentados pela ansiedade a viver correndo atrás do que não é nosso trabalho. A necessidade de nos sentirmos no controle vinte e quatro horas por dia nos submete a algumas situações que poderiam ter sido dispensadas.

Lucas, o médico amado, escreveu em Atos. 17:28: "Pois nele vivemos, nos movemos e existimos". Será que estamos levando a sério essas palavras? O que é viver, se mover e existir em Deus? É viver em completa unidade com Ele, em todo o tempo ser dependente dEle, não só quando estamos doentes – física, psicológica ou espiritualmente – mas em todo o tempo.

Viver, se mover e existir em Deus também implica que creiamos que suas promessas serão realidades em nossas vidas, que não precisamos empreender esforços para cumprir algo que Ele prometeu. Porque se foi prometido por Ele, assim será feito, por Ele!

Os dias seguintes para mim foram quase um martírio. Não sei quantas vezes revisei as palavras da irmã Ângela em minha mente, até que cada uma delas pudesse ser ditada por mim ao pé da letra. Lembrei-me de quando conheci Marcos mais de perto na lanchonete, e quase o perdi, no que foi o dia mais difícil para todos nós. Para ele porque nunca pôde se despedir do seu pai como gostaria; para mim, porque entendia como esse episódio iria traumatizá-lo por um bom tempo. E isso de certa forma também me entristecia, porque me sentia impotente, incapaz de mudar as circunstâncias em que ele estava vivendo.

Pensei em marcar alguma coisa, chamá-lo para um culto, depois fazer algum lanche, algo que o tirasse daquela rotina e daquele torpor. Comentei com Lídia, ela deixou bem clara a sua opinião.

— Amiga, você precisa fazer alguma coisa! No último mês o Marcos raramente apareceu na igreja, e quando apareceu, parecia tão apático, coitado...

— Eu sei, ele ainda está se recuperando de tudo o que aconteceu, não é para menos! Você acha que eu deveria mandar uma mensagem ou visitá-lo?

— Você quer mesmo saber o que eu acho? Ele parece gostar muito da sua companhia. Ainda que te tenha apenas como uma amiga, com certeza ele se sentirá melhor se você fizer uma visitinha, ou deixar pelo menos uma mensagem. Mesmo que ele não responda, tenho a impressão de que vai tirar um ou dois sorrisos dele!

E foi assim que eu tomei a decisão de lhe mandar uma mensagem. Preferi não fazer uma nova visita, ainda estava um pouco insegura sobre o que eu sentia, e ainda mais sobre o que ele sentia. Era um pouco frustrante. Também não contei nada sobre o que Deus havia falado, nem aos meus pais, nem a Lídia. Queria que fosse algo entre mim e Ele, até porque se fosse vontade divina mesmo, todos veriam com seus próprios olhos o que estava para acontecer.

Então, em uma tarde de domingo, depois de voltar da escola dominical e não vê-lo na sala dos jovens adultos, comecei a escrever aquela que seria a minha primeira mensagem de texto para ele. Também arrisco dizer que foi a que mais me provocou borboletas no estômago. Não sabia como ele receberia aquela mensagem, nem como deveria tratá-lo. Mas respirei fundo, tomei coragem e digitei:

"A paz do Senhor, meu amigo. Estou enviando essa mensagem apenas para lhe dizer que Deus está no controle de tudo, Ele te ama com um amor incondicional, e sempre te amará e cuidará de você como um Pai! Espero que estejas melhor! Fique com Deus! Att: Hellen"

Antes que a coragem evaporasse, apertei o botão de enviar e fiquei olhando para a tela, esperando a notificação de enviado. Reli a mensagem e percebi, com um baque no coração, teria sido um erro enviar essa mensagem? Ou mencionar a palavra Pai? Ou mesmo usar tantas exclamações? Abafei meu suspiro exasperado no travesseiro. Porque eu não pensei antes de enviar? Hellen, pelo amor de Deus!

Enfim, não poderia ficar ali estatelada em frente ao celular esperando que ele respondesse, por mais que desejasse. Levantei, me arrumei, e fui para a igreja me encontrar com o grupo de evangelização. Precisava preencher minha mente, e com urgência!

MARCOS

Naquele domingo as minhas forças pareciam ter sido arremessadas de um penhasco, porque não estava me sentindo nada bem. Acordei com a imagem nítida do meu pai sendo levado na maca até a ambulância barulhenta. Acho que você nunca esquece uma imagem dessas, e apesar de deduzir que um dia ela não me amedrontaria tanto assim, seria apenas uma cicatriz de um corte profundo, meu coração ainda estava amargurado.

Em meus devaneios e ansiedades, fiquei passeando de um lado para o outro, no meu quarto, conversando com Deus. Muito embora a minha conversa parecesse mais uma discussão.

"Meu Deus, porque isso nunca passa? Porque sempre tenho que lembrar do mesmo dia vezes sem conta? O que tens feito em meu favor? Mostra-me que estás me ouvindo, dá-me algum sinal, qualquer um!"

Batia os pés no chão do quarto e voltava ao ponto inicial, sempre resmungando dentro de mim. Do nada, meu celular tocou. Quem estaria me enviando uma mensagem agora? Na verdade, nunca mais havia recebido sequer uma mensagem! Abri e comecei a ler o conteúdo.

À medida que as palavras eram lidas, sentia as lágrimas caindo, quentes e salgadas. Um soluço alto surgiu, me deixando sem reação. Ajoelhei-me em frente à cama e chorei, chorei como uma criança que reencontra os pais no shopping depois de algum tempo perdida. Chorei como um viajante chora quando volta de uma longa viagem pelo mundo e reencontra seus parentes e familiares na sua pátria amada. Chorei sem reservas, sem medo de ser escutado ou acudido pela minha mãe. Aliás, ouvi seus passos sobre o som do meu choro, mas ela logo se afastou, me deixando a sós com Deus.

Na verdade eu nem imaginava que Hellen iria enviar alguma mensagem. Ela estava me surpreendendo cada vez mais! E como Deus a usou para mim! Eu precisava agradecê-la pessoalmente! Precisava sair daquela inércia e fazer algo para Deus! Organizei-me rápido, peguei a bíblia e disse à minha mãe que iria para a evangelização. Ela abriu um sorriso tão largo e caloroso que eu voltei para lhe dar um abraço e um beijo. "Te amo mãe, se cuida".

Andei apressado até à congregação. Os irmãos já estavam se organizando em grupos para sair. Eu a vejo assim que entro na igreja. Está a um canto da igreja separando as literaturas e dividindo pelos grupos que iam sendo formados. Seu cabelo está molhado, solto, emoldurando seu rosto pequeno. O mesmo sorriso que me encantara meses antes continua ali, mil vezes mais lindo do que minhas lembranças me permitiam alcançar. Fiquei parado ali, olhando enquanto ela atendia os diversos irmãos que vinham conversar com ela. Todos pareciam sentir-se muito bem em sua presença, pois havia sempre muita gente à sua volta.

Embevecido com aquela imagem, esqueci-me de ajoelhar e orar antes de ir ao campo. Corrigi-me mentalmente e orei por um momento, até que todos concluíram a organização e começaram a sair da igreja, cada um com o seu grupo. Levantei-me depressa, imaginando que provavelmente ficaria ali sozinho se não informasse alguém da minha presença. Assim que ergui os olhos, ela me viu. Percebi sua hesitação em se aproximar, por isso fiz questão de ir ao seu encontro.

Nos cumprimentamos rapidamente e seguimos os outros grupos que já estavam de saída. Conversamos muito pouco, nada mais do que o de sempre: "precisa de mais literaturas?", "o sol está quente, não?". Enfim, fizemos parte dos grupos que fariam visitas às casas. Em todas elas os irmãos já a conheciam, e faziam muita festa quando a viam. Percebi que ela fazia as visitas com alguma constância, realmente admirável.

Ao fim do evangelismo, os irmãos foram se dispersando, de volta às suas casas. Deduzi que acabaríamos ficando ali sozinhos, e isso com certeza a constrangeria, por isso a convidei para irmos acompanhando os irmãos. Fomos conversando durante todo o caminho. Conversamos sobre a faculdade, o trabalho, a igreja, os livros, a poesia; e quanto mais conversávamos, parecia que havia muito mais a ser dito, como se estivéssemos tirando o atraso de muitos anos distante um do outro.

Chegamos ao assunto do meu pai, o que me sensibilizou um pouco. Comentei sobre a mensagem que ela me enviou e agradeci, pois tinha sido de grande valia para mim. Deus a usou para me tirar daquele casulo em que me mantive escondido por tanto tempo. E algo me dizia que esse era só o começo.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!