Sol Noturna

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"esfiapando por entre a folhagem"
"Vei vinha chegando vermelha e toda molhada de suor. E Vei era a Sol."

Macunaíma – Mário de Andrade




A remar pela imensidão sobre a Terra, sobre as cabeças dos humanos, por um mar de espumas de nuvens e de cores eternas, a Deusa-Sol tinha entre seus dedos todas as horas dos dias.

Naquele tempo, não havia sombras, temor, predadores se esgueirando na escuridão. Havia apenas a Deusa lá encima a remar. Sem trégua, a remar por quantas horas fossem necessárias em um dia sem fim.

Fustigado, um mortal caminhava por entre as árvores. O Guerreiro percorrera um longo caminho por várias voltas. Ia desarmado, sem marcas de guerra na pele, sem penas a lhe adornar o perfil. Ia em paz. Suplicante. Levando consigo apenas um chocalho de escamas de cobra.

Não podia parar para repousar, não ainda. O pé nu sobre um chão sempre aquecido. Um rio a deslizar reluzente a seu lado. A Sol descia por entre as folhas, vermelha.

A presença Dela era constante mesmo debaixo das pedras ou através das pálpebras. Ela circundava pelas margens do firmamento, sem mais chegar ao zênite. Cansada. Navegava de um lado a outro do horizonte sem jamais se pôr. Dando voltas. A mão trêmula a guiar a canoa em um céu dourado, róseo, azul.

O Guerreiro parou. Havia chegado. Mais à frente as árvores se afastavam dando lugar a uma clareira. No centro, uma Samaúma gigantesca abraçava com suas raízes dois jarros mais altos do que o homem.

O coração dele palpitava de sono. Os olhos ainda que fechados ardiam. Ajoelhou-se. Exausto. Desamarrou o chocalho da cintura, erguendo-o o mais alto que pôde. As escamas que revestiam o instrumento brilharam, e com um movimento rápido o chiado preencheu o ar.

— Grande Serpente Negra. Tua filha me enviou até aqui... Para pegar um pouco da Noite que guardas.

Ouviu-se um arrastar de um enorme corpo pelas folhas secas. E uma serpente rastejou em seu campo de visão. O negro profundo das escamas dela era interrompido aqui e ali por penas de um vermelho retinto no tom do sangue prestes a coagular. Lutar? Seria inútil. Nem se ele quisesse conseguiria abarcá-la com os braços, no máximo as pontas de seus dedos se tocariam. A cabeça da cobra se elevava a metros da dele. Os olhos da criatura brilhavam como se iluminados por quinhentas estrelas distantes.

O Guerreiro esperou. O ar entrava afoito e mal ficava nos pulmões. A cabeça leve, o coração descompassado. Esperou. A Serpente virou-se para a árvore, os dois potes estavam um ao lado do outro, aninhados entre as raízes-paredes. A Cobra enroscou-se entre os jarros, estavam cheios por um material escuro, liquefeito.

A Serpente desceu a cabeça pela boca do jarro à direita e deslizou... deslizou o corpo inteiro. Metros e metros. Lá dentro era um breu inteiro e intacto. Sua cauda desapareceu com uma chicotada perdendo-se naquelas profundezas. Silêncio... Depois de alguns instantes ela saiu do jarro à esquerda com as escamas cobertas por orvalho. Puxou o corpo, caiu e se enroscou. Aproximou-se do Guerreiro com algo à boca, algo redondo. Um pedaço da noite preso dentro de um caroço de tucumã.

Ele pegou o presente. Encarou agradecido a Serpente, que por sua vez se virou e se deitou entre as raízes da árvore.

O Guerreiro perdeu o olhar no caroço de tucumã que repousava em suas mãos. Era frio ao toque. Mexia-se. Inquietava. Ele voltou pelo mesmo caminho. O caroço pesava e um som... sons! vinham dele. De novo o rio ao seu lado, a Sol velha a se mover. Ele entrou em uma canoa. Subiu a correnteza. Um pedaço da noite? Desembarcou. Caminhou. Um pedaço da noite. Os pés o guiavam pelas árvores até onde ele vivia junto da Filha da Serpente Negra. Um pedaço da noite. Aves arranhavam o céu. Entre seus dedos? Ouvia o coachar de sapos entre seus dedos. O Soar da brisa noturna, o cricrilar dos grilos entre seus dedos. Entre... seus dedos... Fez força... Abriu!

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