A mulher que sentou ao meu lado

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— Assim como a vida — eu soltei, sem pensar, me lembrando dela. O que estaria fazendo naquela cidade da qual eu partira, dias antes? Será que havia se arrependido? Será que ainda pensava em mim? Ou aceitou qualquer fachada para disfarçar que ela era exatamente igual àqueles que sua família perseguia?

Por que nos perseguiam?

— O mundo não ficou intolerante de repente. — A voz, que parecia ler meus pensamentos, estava distante. — A verdade é que eles sempre vão perseguir alguém. Principalmente, quando as pessoas estão assustadas, com medo. É a melhor maneira de manter o poder nas mãos. Eles mal sabem o que fazem...

Senti um balançar estranho, um frio. Ouvi um ruído agudo. Depois sons que iam e vinham. Pareciam trovões. Mas não eram. Pela janela, na noite escura, vi clarões iluminarem as árvores.

Não eram raios.

— Meu Deus, o que está acontecendo? — assustada, perguntei para ninguém em específico. A senhora do meu lado pareceu não se abalar. Levantou a cabeça e me encarou com serenidade. Mas vi quando seus olhos entregaram uma sombra de tristeza... E culpa. — O que está acontecendo? — repeti, olhando diretamente para ela.

— É a guerra, meu amor!

— A guerra ficou para trás! — eu disse, enfática e, ao mesmo tempo, apavorada. — Eles venceram, nós perdemos. Por isso, fugimos!

— Não, meu amor! Ainda resta o ato final. A guerra não acaba enquanto existirem impuros fugindo e se escondendo. Eles não podem permitir que vocês cruzem a fronteira.

— Do que você está falando? — Eu me apavorei ainda mais. Será que ela era uma informante? Mas aquilo não parecia captura. Aqueles barulhos ensurdecedores de bombas caindo do ar eram de extermínio.

Comecei a me levantar, mas a mulher agarrou a minha mão esquerda. Senti um calor familiar adentrar a minha pele.

— Quem é você? — perguntei, assustada, tentando reencontrar o ar que havia fugido dos meus pulmões.

— Sou só uma mulher que faz a mesma viagem todos os anos, na mesma data, pelo mesmo motivo: para encontrar a mesma pessoa.

Intrigada, fitei seus olhos antigos, esperando que ela me contasse a história que parecia querer, a todo custo, contar.

— Já ouvi dizer que é torturante, mas tenho que aproveitar as falhas do mundo ao meu favor — declarou, pensativa, antes de continuar: — Bom, o que temos aqui, nesta região, é uma convergência temporal. Há muitos anos, na Grande Guerra, um lado da disputa foi longe demais. Mexeram com o que não deviam mexer. Essa área toda foi devastada por armas absurdamente poderosas, que destruíram tudo. As árvores, as casas. Tudo! Até mesmo a fina malha do tempo. Aqui, uma ferida que ainda não cicatrizou se abriu.

Fiquei confusa, eu sabia da Grande Guerra e toda a sua destruição. Vivia em seus últimos dias e estava justamente fugindo de suas consequências. O mundo inteiro, naquele momento, sofria por causa da ambição e da intolerância dos que vieram no nosso tempo. A guerra, a invasão, a intolerância, o medo, a perseguição.

Que raio de história era aquela?

— O tempo está acima de nós, além... Nada pode feri-lo — eu disse, cética e ainda confusa.

— É nisso que você acredita? É claro que é... Você não viu.

— Não vi o quê?

— O que o mundo vai se tornar quando o ódio, por fim, vencer. Não vai durar muito tempo, se isso lhe acalenta. Nada dura, nem para o bem, nem para o mal. As coisas hediondas que fizemos uns com os outros não serão esquecidas e espero que nunca mais sejam repetidas. Infelizmente, porém, por mais que o tempo esteja ferido aqui, neste lugar, não podemos voltar atrás. Ninguém pode. O tempo é como uma caneta! Por sorte, ainda posso vir aqui todos os anos e ler o que ele escreveu para nós.

Vi um clarão ainda mais forte, seguido por um barulho ensurdecedor. Cada vez mais perto. Mais perto. Mais perto.

— Quem é você? — repeti a pergunta, com lágrimas descendo pelo meu rosto. Olhei aqueles olhos antigos e percebi, finalmente. Na última vez que os vi, dias atrás, eles eram décadas mais jovens, já carregavam culpa e dor, mas ainda não eram nublados por toda aquela saudade.

Como aquilo era possível?

— Meu amor, me perdoe! Jamais me cansarei de dizer. Enquanto eu viver, voltarei a encontrá-la neste trem, nesta fenda, nestes minutos.

Outro barulho ensurdecedor. Dessa vez, chegou junto ao clarão. Pude ver aqueles olhos antigos desaparecerem aos poucos, enquanto a luz e o calor se aproximavam do meu corpo. Velozes.

A força daquela bomba talvez desintegrasse meu corpo, destruísse aquele trem e aquela floresta. Talvez tenha sido ela a abrir aquela marca profunda no tempo, talvez tenha sido ela a sussurrar as palavras que me perseguiram durante toda a minha vida:

— Não pegue o trem.


O tempo é uma canetaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora