A mulher que sentou ao meu lado

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A viagem era longa! O percurso do trem cruzava fronteiras na América do Sul, que outrora havia sido poderosa, mas que, naquele momento, estava devastada por uma guerra já perto do fim. Embarquei no meu mundo para desembarcar em um país de outra língua, não atingido pelas bombas e pelo medo.

Os antigos diziam que a ferrovia havia sido a obra mais encantadora e ambiciosa do século passado. Ceifou tantas vidas quanto as transportou. Tudo em nome do progresso do Sul. Progresso que trouxe ambição e intolerância para terras, antes, até pacíficas.

Nas primeiras horas, viajei sozinha, olhando os trilhos e tentando encontrar as almas dos tantos que morreram ali. Viagem longa. Viagem monótona. Viagem dolorosa. A mão gelada que me apertava por dentro tinha um nome, um endereço e não tinha vindo comigo.

Já estava escuro lá fora quando aquela senhora embarcou. Trazia nos olhos mais velhice do que nas rugas do rosto. E dor. Olhos tão antigos quanto a mais idosa árvore da reserva amazônica, onde passávamos naquele instante. Olhos cheios de camadas... E saudade.

Sentou-se ao meu lado, em silêncio, e eu voltei meu olhar para o caça-palavras que trazia às mãos e me distraía dos meus próprios pensamentos melancólicos e inconformados. Anotava as letras com uma caneta azul, antiga. Gostava dela, porque me fazia lembrar de um passado recente, antes do medo e do ódio que a guerra havia trazido. Quando ser quem eu era não matava.

Estava ali, naquele trem, para fugir. Mas, infelizmente, estava só.

— Caça-palavras são interessantes, não acha? — a mulher falou pela primeira vez, me olhando com aqueles olhos antigos e assustadoramente familiares.

— Sem dúvida — respondi.

— Mas não são melhores que uma boa história — disse ela, de volta, tentando puxar assunto.

— Absolutamente — retruquei.

Ela sorriu.

— O bom e velho português! Lembro-me de uma época em que conversávamos por meio de carinhas felizes. — Suspirou, com um sorriso melancólico no rosto.

— Não sou desse tempo. — Sorri de volta, sem entender ao certo o que ela havia falado. Era velha, então relevei.

— É verdade! — ela retomou, olhando para o objeto que eu trazia nas mãos. — Bonita a sua caneta. Aposto que ela tem uma história...

— Tudo tem uma história. Principalmente, em dias tão tortuosos e obscuros.

— Tem razão. Então, qual é a sua? — a senhora insistiu em saber.

— Acho que a mesma da maioria aqui! Estou fugindo.

— Sozinha?

Senti aquele aperto que trazia dentro de mim ficar mais forte.

— Sim — confirmei com a voz sussurrada. Não era capaz de disfarçar minha tristeza e desgosto.

Por um instante, pensei que ela não continuaria a se interessar em começar uma conversa comigo. Porém, me enganei.

— Deixou alguém para trás... — Não foi uma pergunta.

— Ela não quis vir comigo. Não quis se arriscar em uma fuga. Preferiu se esconder dentro de si e sob a proteção de sua família poderosa. Ninguém desconfia dela. Mas, de mim... Caçaram-me como a um monstro. Este trem é minha última esperança de sobreviver, em outro país, sem guerra.. A ditadura e o ódio não cruzaram a fronteira — eu disse de uma vez e notei que a senhora abaixou os olhos. O que será que ela escondia ali?

A mulher não disse nada. Fitou minha caneta por um longo momento, antes de voltar a falar.

— Um objeto muito interesse. A caneta. — E me olhou. Aqueles olhos faziam meu coração acelerar. Gostaria de entender o porquê. — Gosto desse mecanismo. Isso nos ajuda a lembrar como é a vida. Uma vez que você risca, não consegue desriscar. Não é como esses aparatos eletrônicos que permitem erros infinitos. Com a caneta, se você erra, o seu erro permanece com você.

O tempo é uma canetaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora