Parte VI

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1. O Hotel do Sino e da Garrafa

E AGORA DEIXEMOS A SRTA. DANGLARS e sua amiga deslizarem pela estrada de Bruxelas e voltemos ao infeliz Andrea Cavalcanti, tão desagradavelmente interrompido no desabrochar de sua fortuna.

Apesar da idade ainda tenra, o sr. Andrea Cavalcanti era um rapaz muito habilidoso e inteligente.

Assim, aos primeiros rumores que penetraram no salão, nós o vimos aproximar-se gradativamente da porta, atravessar um ou dois quartos e, por fim, desaparecer.

Uma circunstância que havíamos mencionado, a qual não deve ser esquecida, é que num desses dois quartos atravessados por Cavalcanti estava exposto o enxoval da noiva, composto por escrínios de diamantes, xales de cashmere, rendas de Valenciennes, mantilhas da Inglaterra, tudo que faz em suma esse mundo de objetos tentadores, cujo nome é o suficiente para o coração das jovens donzelas pular de alegria, ao qual chamamos de corbelha.

Ora, ao atravessar esse quarto, o que prova ser Andrea não apenas um rapaz muito inteligente e habilidoso, como também previdente, ele se apoderou do mais valioso de todos esses adornos expostos.

Munido desse viático, sentiu-se muito mais leve para pular pela janela e escorregar por entre os dedos dos policiais.

Alto e forte como o lutador antigo, musculoso como um espartano, Andrea deambulara durante quinze minutos sem saber aonde ir e com o único objetivo de se afastar do lugar onde por pouco não se vira preso.

Deixando a rua de Mont-Blanc, com esse instinto dos obstáculos que os ladrões possuem como a lebre o das tocas, achara-se no fim da rua Lafayette.

Ali, sem ar, ofegante, parou.

Estava completamente sozinho, tendo, à esquerda, os bosques de Saint-Lazare, vasto deserto, e, à direita, Paris em toda a sua profundidade.

— Estarei encurralado? — perguntou-se ele. — Não se conseguir perfazer uma soma de atividade superior à dos meus inimigos. Logo, minha salvação tornou-se uma simples questão de miriâmetros.

Nesse momento, percebeu, vindo do alto do faubourg Poissonière, um cabriolé de praça cujo cocheiro, lúgubre e fumando um cachimbo, parecia querer voltar ao início do faubourg Saint-Denis, onde provavelmente tinha o seu ponto.

— Ei, amigo! — chamou Benedetto.

— O que deseja, caro burguês? — perguntou o cocheiro.

— Seu cavalo está cansado?

— Cansado! Ah, muito cansado! Não fez nada o dia inteiro. Quatro corridas medíocres e vinte sous de gorjeta, sete francos no total. Tenho que dar dez para o patrão!

— E por acaso quer acrescentar aos seus sete francos estes vinte aqui?

— Com satisfação, burguês. Vinte francos não são de se jogar fora. O que preciso fazer para isso? Vejamos.

— Uma coisa bem fácil, se é verdade que seu cavalo não está cansado.

— Estou falando que ele irá como um zéfiro. Basta dizer o lado para o qual deve se dirigir.

— O lado de Louvres.

— Ah, ah, mais que conhecido: terra da aguardente!

— Exato. Trata-se simplesmente de alcançar um amigo meu com quem vou fazer uma caçada amanhã em La Chapelle-en-Serval. Era para ele estar aqui com seu cabriolé até as onze e meia; é meia-noite. Deve ter se cansado de me esperar e foi embora sozinho.

— É provável.

— E então? Quer tentar alcançá-lo?

— Não quero outra coisa.

O Conde de Monte Cristo (1884)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora