Parte V

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1. "Escrevem-nos de Janina"

FRANZ SAÍRA DO QUARTO DE NOIRTIER tão vacilante e perplexo que até mesmo Valentine sentira pena dele.

Villefort, que articulara apenas algumas palavras sem sentido e se refugiara em seu gabinete, recebeu a seguinte carta duas horas depois:

Após as revelações desta manhã, o sr. Noirtier de Villefort não pode supor que seja possível uma aliança entre sua família e a do sr. Franz d'Épinay. O sr. Franz d'Épinay tem horror de pensar que o sr. de Villefort, aparentemente conhecedor dos fatos narrados esta manhã, não o tenha prevenido devidamente.

Naquele momento, qualquer um que tivesse visto o magistrado abatido por tal golpe não acreditaria que ele o previsse. Com efeito, Villefort nunca imaginou que seu pai levaria a franqueza, ou melhor, a rudeza, a ponto de contar uma história daquelas. É bem verdade que o sr. Noirtier, sempre desdenhoso para com a opinião do filho, jamais se preocupara em lhe esclarecer a verdade dos fatos, e Villefort sempre acreditara que o general de Quesnel, ou barão d'Épinay, conforme se queira chamá-lo, pelo nome com que ele se fez ou pelo nome que lhe deram, morrera assassinado e não em um duelo justo.

Essa carta tão dura, da lavra de um rapaz até aquele momento tão respeitoso, era mortal para o orgulho de um homem como Villefort.

Assim que entrara em seu gabinete, sua mulher chegava em casa.

A saída de Franz, chamado pelo sr. Noirtier, havia surpreendido a todos de tal maneira que a posição da sra. de Villefort, permanecendo sozinha com o tabelião e as testemunhas, tornou-se cada vez mais embaraçosa. Isso fez com que tomasse uma decisão, e saiu dizendo que ia à cata de notícias.

O sr. de Villefort contentou-se em dizer-lhe que, por meio de um acordo entre ele, o sr. Noirtier e o sr. d'Épinay, o casamento de Valentine com Franz estava rompido.

Era difícil comunicar a decisão aos que aguardavam; assim, a sra. de Villefort, ao voltar, contentou-se em dizer que, devido a uma espécie de ataque de apoplexia sofrido pelo sr. Noirtier no início da conversa com o noivo, o contrato estava naturalmente adiado para dali a alguns dias.

Tal notícia, por mais mentirosa que fosse, encaixava-se tão singularmente na sequência de duas tragédias do mesmo gênero que os ouvintes entreolharam-se, espantados, e se retiraram sem uma palavra.

Nesse intervalo, Valentine, feliz e aturdida ao mesmo tempo, após ter beijado e agradecido ao débil ancião, que dessa forma, com apenas um golpe, acabava de romper definitivamente uma corrente que ela já via como inquebrantável, pedira para se retirar aos seus aposentos a fim de se recompor, e Noirtier, com o olho, concedera-lhe a permissão solicitada.

Porém, assim que foi liberada, Valentine, em vez de subir para o quarto, tomou o corredor e, saindo pelo portãozinho, correu até o jardim. Em meio a todos esses acontecimentos, que se acumulavam uns sobre os outros, um terror surdo atormentara constantemente seu coração. Esperava que, de uma hora para outra, Morrel irrompesse, pálido e ameaçador como o laird de Ravenswood na assinatura do contrato de Lucia de Lammermoor.

Com efeito, chegou bem a tempo no portãozinho. Maximilien, que desconfiara do que estava para acontecer ao ver Franz deixar o cemitério com o sr. de Villefort, seguira-o. Depois de o ver entrar, vira-o também sair e entrar novamente com Albert e Château-Renaud. Para ele, portanto, não restava mais dúvida. Correra então para o cercado, disposto a tudo e com a convicção de que, ao primeiro momento de liberdade, Valentine viria a seu encontro.

Não se enganara. Seu olho, colado nas tábuas, avistou de fato a chegada da moça, que, sem tomar nenhuma das precauções de costume, corria para o portãozinho. Assim que a viu, Maximilien tranquilizou-se. À primeira palavra que ela pronunciou, pulou de alegria.

O Conde de Monte Cristo (1884)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora