— Senhor, não estranhe que Valentine não tenha subido conosco e que eu tenha dispensado Barrois, pois a entrevista que teremos é daquelas que não podem se desenrolar diante de uma jovem ou um criado; a sra. de Villefort e eu temos uma comunicação a lhe fazer.

O rosto de Noirtier permaneceu impassível durante esse preâmbulo, ao passo que o olho de Villefort parecia querer mergulhar até o mais recôndito do coração do velho.

— Essa comunicação — continuou o procurador do rei no seu tom gelado, que parecia jamais admitir contestação —, a sra. de Villefort e eu temos certeza de que lhe será conveniente.

O olho do velho continuou sem expressão; ele escutava, não mais que isso.

— Senhor — emendou Villefort —, vamos casar Valentine.

Um rosto de cera não teria permanecido mais frio que o rosto do velho diante dessa notícia.

— O casamento será realizado daqui a menos de três meses — continuou Villefort.

O olho do velho continuou inanimado.

A sra. de Villefort tomou a palavra, apressando-se a acrescentar:

— Achamos que essa notícia lhe agradaria; aliás, Valentine sempre pareceu merecer sua afeição; portanto, só nos resta dizer o nome do rapaz a ela destinado. É um dos mais respeitáveis partidos a que Valentine pode pretender; há fortuna, um belo nome e as mais completas garantias de felicidade no comportamento e nas inclinações daquele a quem lhe destinamos, cujo nome o senhor não deve ignorar. Trata-se do sr. Franz de Quesnel, barão d'Épinay.

Villefort, durante o pequeno discurso da esposa, pespegou no ancião um olhar mais atento do que nunca. Quando a sra. de Villefort pronunciou o nome de Franz, o olho de Noirtier, que seu filho conhecia tão bem, estremeceu, e as pálpebras, dilatando-se como teriam feito lábios ao abrir passagem para as palavras, lançaram, por sua vez, um fulgor.

O procurador do rei, ciente das antigas relações de inimizade pública existentes entre seu pai e o pai de Franz, compreendeu aquele fogo e aquela agitação; deixou-os contudo passar como desapercebidos e, retomando a comunicação no ponto em que sua mulher a deixara, disse:

— Senhor, é importante, como sem dúvida compreenderá, que Valentine enfim se estabeleça, já que está de completar dezenove anos. Entretanto, não o esquecemos de forma alguma nas negociações, e nos certificamos antecipadamente de que o marido de Valentine aceitaria, se não morar conosco, o que talvez importunasse o jovem casal, pelo menos que o senhor, a quem Valentine preza particularmente, e a quem, por sua vez, o senhor parece retribuir essa afeição, moraria com eles, de maneira que não perdesse nenhum de seus hábitos e tivesse dois filhos, em vez de um, para cuidar do senhor.

O fulgor do olhar de Noirtier tornou-se sangrento.

Certamente alguma coisa de terrível se passava na alma do velho; certamente o grito da dor e da cólera vinha à sua garganta e, não podendo explodir, sufocava-o, pois seu rosto ficou roxo e seus lábios, azuis.

Villefort abriu tranquilamente uma janela, dizendo:

— Está muito quente aqui, e esse calor faz mal ao sr. Noirtier.

Em seguida voltou, mas continuou de pé.

— Esse casamento — acrescentou a sra. de Villefort — é do agrado do sr. d'Épinay e família; aliás, sua família compõe-se apenas de um tio e uma tia. Com a morte da mãe durante o parto e o assassinato do pai em 1815, isto é, quando a criança completava dois anos, ele depende, portanto, apenas da própria vontade.

— Assassinato misterioso — disse Villefort —, cujos autores permanecem desconhecidos, embora a suspeita tenha pairado sobre a cabeça de muita gente.

O Conde de Monte Cristo (1884)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora